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quarta-feira, 6 de julho de 2011

Adega da Esquina (Alto de Pinheiros - São Paulo)



Todo bairro que se preza, do mais luxuoso ao mais humilde e por mais residencial que seja, tem pelo menos três comércios: uma pequena venda onde se compra quase todo tipo de coisa, uma farmácia cujo farmacêutico já cuidou da maioria dos moradores, e um boteco.

Esse boteco tem duas funções básicas: servir de ponto de encontro para os vizinhos e quebrar o galho para uma saidinha rápida de casa sem precisar se locomover até os bairros mais agitados, evitando as perturbações do trânsito, os assaltos e o achaque dos flanelinhas.
Teoricamente, este boteco não precisa ter nada demais. Basta que tenha cerveja gelada, três ou quatro opções de bebidas diferentes e alguns petiscos suficientemente engolíveis para matar a fome. A Adega da Esquina poderia ser só isso, que ninguém ia reclamar. Mas não é só isso.



Na improvável esquina de uma rua que é uma rápida passagem de carros e ônibus com uma outra que liga a uma praça e a um labirinto de ruazinhas, exatamente onde funcionava uma oficina mecânica e, por sorte, bem perto da minha casa, Roberto Pamplona e Carla Pereira montaram, há apenas 4 meses, um dos bares mais simpáticos e interessantes de toda a região.
O local é simples, como um bar/adega deve ser, e com um cardápio bem enxuto, principalmente na parte dos “comes”. Mas quem se importa? O interesse do público é voltado para as cervejas, e é aí que, surpreendentemente, a coisa começa a ficar boa.



A pequena casa esconde uma incrível carta de cervejas importadas, com nomes dos mais variados tipos e procedências, a maioria com preços abaixo da média da cidade. Há desde nomes mais conhecidos como a alemã Erdinger e a irlandesa Guiness até as mais exóticas como a russa Baltika (uma Lager de sabor lupulado), a inglesa Fullers Honey Dew (com adição de mel), a belga Kriek Boon (que é feita através de fermentação espontânea com suco de cereja) e a austríaca Eggenberg Samichlauss que, com seus 14% de teor alcoólico, é considerada a Lager mais forte do mundo.
Bastava isso para a vizinhança já se dar por muito satisfeita, mas, para o simpático casal, era pouco. Então, de dois meses para cá, o bar passou a oferecer música ao vivo - de início uma vez por semana, mas hoje, atendendo aos pedidos dos clientes, o som rola de quinta a sábado.



E quem pensa que o esquema é o tradicional banquinho, violão e cantor desconhecido cantando as músicas de sempre, engana-se completamente. O som é de primeiríssima linha, como o estiloso jazz do Anderson Quevedo Quarteto, a bossa nova e a MPB da Lu Barros ou o jazz para lá de inusitado do FreeKJazz, que interpreta com levada jazzística clássicos do rock de Pink Floyd a Iron Maiden enquanto se espreme entre geladeiras, garrafas e sacos de carvão que formam o fundo do cenário.
Quem toca por lá é o Neymar Pires Trio, que já levou convidados como o Arismar do Espírito Santo. E quem estava botando a casa para dançar nesta semana mesmo era o velho e bom Jai Mahal, pioneiro da Vila Madá e “o homem do reggae” no Brasil, acompanhado pelos excelentes Pacíficos DuBanda e por ninguém menos que Simone Sou, ícone da percussão brasileira, que acompanha o Chico César e já tocou com Itamar Assumpção, Mutantes, Zeca Baleiro, Nando Reis e tantos outros.



E com tudo isso o esquema é de casa de amigos, de festa na esquina, de botequim de vila. Você chega e se enturma com os outros clientes, com os músicos, com os donos. Pede uma cerveja, uns queijinhos, outra cerveja. E depois vai embora cantando, com mais amigos,  mais leve e feliz. A vida é simples. A gente é que complica.

Adega da Esquina – Rua Caminha de Amorim, 409 – Alto de Pinheiros – São Paulo. Tel: 2667-4884 / 2667-7488. Horário: Terça a Sábado das 18h à 1h.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Bar do Magrão (Ipiranga / São Paulo)



"Um país não pode ser um país de verdade se não tiver ao menos uma cerveja e uma empresa aérea. Ajuda se tiver uma equipe do futebol ou armas nucleares, mas o mais importante é a cerveja” (Frank Zappa)

Zappa sabia das coisas. Era um cara que fazia de tudo um pouco e lançou 60 discos bem diferentes um do outro, nos quais tocava vários instrumentos e desenhava a capa. Estava sempre disposto a experimentar novidades e se sentia apto a avaliar o potencial de uma nação através do conceito acima. Ele ia adorar o Bar do Magrão.

O Bar do Magrão é um lugar meio difícil de explicar. Original, cheio de personalidade e instalado num lugar bem improvável do Ipiranga, já quase no Sacomã, o botequim tem jeitão de pub, destacado pela iluminação baixa e pela grande oferta de cervejas do mundo todo.
O jeito é ressaltado também pelo velho e bom rock and roll que sai de suas caixas de som, já que Luiz Antonio Sampaio, o Magrão, é roqueiro de carteirinha e no seu aparelho de som só toca coisas como Stones, Led, Beatles, Floyd, Hendrix e afins.



Mas o bar não é bem um pub, pois é aberto, com algumas mesas dentro e outras na calçada e alguns degraus onde o povo se amontoa quando a casa está cheia, o que acontece quase todos os dias.
A decoração também não parece com nada, mas é muito bacana. A casa é completamente abarrotada de quinquilharias doadas pelos freqüentadores. São coisas como instrumentos musicais, luvas de boxe, sapatos de palhaço, pratos e pranchas de surf, com destaque para a múmia pendurada no teto – herdada de um Halloween – e para os relógios parados atrás do balcão, marcando 5 minutos para as 5 horas, horário em que o bar abre suas portas, pontualmente, durante a semana.


Outra peculiaridade é que o bar é meio vizinho / meio anexo à Cantina do Magrão, que obviamente é do mesmo dono. Ocorre que, com a existência do bar desde 1995, Mônica, esposa do Magrão, começou a usar a cozinha durante o dia para fazer massas frescas e vender na rotisseria que abriu ao lado. Só que a clientela, que em boa parte era formada por freqüentadores do bar, pedia uma cerveja, sentava para conversar e acabava por comer a massa ali mesmo, em mesas improvisadas na calçada.
Como uma coisa leva à outra, a rotisseria virou cantina em 2000 e passou a funcionar ao lado do bar. Oficialmente, são casas distintas, mas como a informalidade impera no pedaço, é comum os fregueses estarem em um e pedirem coisas do outro.


Diga-se de passagem, mesmo o bar tendo ótimas opções de petiscos, incluído aí diferentes tipos de escondidinhos, é muito difícil resistir ao raviolli di nonno, feito com massa verde de espinafre e recheio de vitela, ou ao pavoni, que leva damasco e queijo brie.
Mas como Zappa disse que o que importa é a cerveja, concentremo-nos no boteco. Ali tem cerveja para qualquer um se esbaldar e tentar avaliar as qualidades de cada país. Há coisas como a francesa Bière du Désert, a belga Kasteel Rouge, a irlandesa Guiness, a tcheca Primátor, a Holandesa Urthel, a alemã Warsteiner e dezenas de outras.

A idéia é a seguinte: sente-se, experimente e embarque numa viagem de país em país através das cervejas. Se você vai aprender alguma coisa sobre esses lugares, não sei. Se vai ter grandes lembranças de viagem, é pouco provável. Mas que será uma maneira bem divertida de dar a volta ao mundo, lá isso será.


Bar do Magrão - R.Agostinho Gomes, 2988 - Ipiranga/SP. Tel: 2061.6649. Horário: De Terça a Sexta das 16h55 à 0h, Sábado das 12h à 0h e Domingo das 12h às 22h.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Cervejaria Wolkenburg (Cunha / SP)



Caros amigos – cervejeiros ou não: antes de começarem a ler este texto sobre a menor cervejaria do Brasil, certifiquem-se de que há uma geladeira por perto, que há cerveja dentro dela e que não seja qualquer uma (questão de respeito). Vocês vão precisar.


Nossa história começa em Speyer, cidade no sul da Alemanha famosa por sua catedral do século XI, onde Thomas Rau nasceu, cresceu e se formou mestre cervejeiro.
Foi também na Alemanha que ele conheceu Heike, uma brasileira descendente de alemães e austríacos, com quem se casou e que o trouxe ao Brasil por diversas vezes, até se estabelecerem em definitivo na cidade de Cunha, interior de São Paulo.


Encantado com a simpatia e a hospitalidade brasileira, com a natureza e a abundância de espaço encontrada na região, com o clima e a qualidade da água favoráveis e a estratégica localização – entre Rio e São Paulo e próxima a Parati – Thomas resolveu montar ali, em 2003, seu pequeno paraíso.
A Wolkenburg (Castelo nas Nuvens) ocupa uma imensa montanha, na qual após subir uma trilhazinha linda e que parece não ter fim você encontra duas casas brancas até bem grandinhas, mas que se perdem facilmente na imensidão verde da paisagem. Uma delas é a residência da família, a outra, a fábrica.


É neste lugar – que vale a visita mesmo para quem não gosta da bebida – que Thomas produz suas Hausbiere (cervejas artesanais) seguindo as regras da Reinheitsgebot (Nem tente pronunciar. Trata-se de uma lei alemã que garante que as cervejas sejam produzidas somente com produtos naturais, sem aditivos, conservantes ou manobras que minimizem o tempo de produção. A lei foi criada em 1516, enquanto aqui trocávamos ouro por espelhinhos). Ele explica que não é só pelo sabor ou pela certeza de um produto natural. É também uma maneira de valorizar a produção sustentável, dando preferência ao produto local, feito e vendido sem ser exposto a longas viagens e preservando o meio ambiente.


A visita, que passou a ser aberta ao público em 2008, inclui uma longa explicação sobre os processos de maltação da cevada, germinação, ferveção com o lúpulo, refrigeração, fermentação etc. E inclui a aguardada degustação das cervejas da casa: a Fit – leve, de baixo teor alcoólico; a Weiss – de trigo, com médio teor; a Landbier – tipo Indian Pale Ale, avermelhada, de sabor intenso e cremoso; e a Dunkel, escura, criada pelos monges há mais de 600 anos.
Nosso anfitrião diz que, quando tem que trabalhar, prefere a Fit, que por ser mais leve não tira a disposição. A Weiss é a preferida para o almoço. A Landbier é para o final da tarde e, à noite, após o jantar, ele toma a Dunkel. Diariamente. Sempre. E é magro.


Todas elas são naturalmente turvas. É uma opção de Thomas pela não-filtragem do produto final para evitar a retirada de substâncias saborosas e saudáveis. Ele faz questão de recomendar que o fermento remanescente no fundo da garrafa seja ingerido junto com o último copo, agitando cuidadosamente a garrafa antes de servir.


Uma novidade é que nos últimos anos a microcervejaria vem promovendo alguns eventos, que são um motivo a mais para ir até lá. Em abril tem a Fischerfest (a festa do pescador), com trutas e outros peixes; em julho a Bretzelfest, com vários pratos típicos e o irrecusável bretzel feito por dona Frederick – mãe da Heike e sogra do Thomas; e em outubro a Oktoberfest, já conhecido por todos como a festa do chopp.


Outra inovação da Wolkenburg é a produção da Steinbier, uma espécie de cerveja licorosa ou licor de malte, cuja receita é criação do próprio Thomas, ou seja, não existe em nenhum outro lugar do mundo, só lá. Durante a produção, ela é fervida na pedra sob uma temperatura de 300 graus e a produção é de apenas 300 garrafas por ano, vendidas por encomenda em uma lindíssima garrafa de cerâmica – homenagem à tradição da cidade. Se você quiser reservar uma, corra até lá, pois não conheço o destino de 299 delas.

Cervejaria Wolkenburg – Rodovia Cunha-Parati, km 65 + 2km de estrada de terra. Tel (12) 9773-4019. 
Visitas: Sábados, Domingos e Feriados das 10h às 17h.



Pedra da Macela
No mesmo caminho da Wolkenburg, seguindo em frente, fica um dos principais cartões postais de Cunha: a Pedra da Macela, que propicia uma vista panorâmica incrivelmente próxima da baía de Angra dos Reis e da cidade de Parati.


O visual é fantástico, mas exige uma caminhada proporcional. São 2 quilômetros de uma subida íngreme e constante, que judiam um bocado das pernas dos aventureiros, mas com um resultado que, sem dúvida, compensa cada passo.
É preciso, no entanto prestar atenção em duas coisas:
1- Só suba se o céu estiver completamente limpo. Lá em cima costuma ter mais nuvens do que em outros lugares;

2- Embora o caminho para chegar à Pedra passe pelo portão da Wolkenburg, resista. Vá em frente. Este será o seu suado e merecido prêmio na volta.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Finnegan’s Pub (Pinheiros / São Paulo)



Sempre nutri uma imensa simpatia pelos irlandeses. Um povo cuja população é metade da de São Paulo, que vive numa ilha linda gelada e chuvosa e que adora curtir a vida cantando, tocando, dançando, tomando cerveja e provocando os ingleses merece respeito.
E Mais. O país de nomes como James Joyce, Bram Stocker, Cranberries, Daniel Day Lewis, Bernard Shaw, Samuel Beckett, Bob Geldof, Oscar Wilde e, claro, o U2, merece quase uma devoção.

É claro que essa simpatia aumentou quando os senhores Mario Fuchs e Frank Philips montaram em São Paulo, nos idos de 1988, o Finnegan’s Pub.
O Finnegan’s é o mais antigo e autêntico pub da cidade. Isso significa um monte de coisa, desde que é um típico bar fechado no velho estilo do Reino-Unido até que é um cantinho no qual todos se sentem muito bem, acompanhados pelos amigos para curtir um showzinho desconhecido e bom, beber um Jameson ou uma Guiness e jogar conversa fora.

É também um ponto de encontro casual, reduto de estrangeiros e de brasileiros que viveram na Europa ou simplesmente apreciam a atmosfera familiar e aconchegante, o atendimento informal e as tradições da ilha dos Leprechauns.
E é ainda um sinônimo de pioneirismo na noite paulistana, anfitrião que foi das primeiras festas em homenagem a St. Patrick e do Bloomsday – evento literário ligado a obra “Ulysses”, de James Joyce. Foi também o Finnegan’s que introduziu a culinária irlandesa e – principalmente – a cerveja Guiness no cardápio da cidade.

Quem sabe disso melhor do que ninguém é meu caro amigo André, que teve a sorte (ou azar) de há 15 anos ir morar a uns 50 passos do pub e que, como muitos, transformou o casarão da esquina da Cristiano Viana com a Artur de Azevedo em seu segundo lar.
E como tantos outros guarda, como ele mesmo diz, “no alforje da memória, histórias infinitas, das mais variadas cores, de doces e acros sabores, algumas publicáveis outras nem tanto”, colecionadas no célebre balcão do pub. São histórias como as que acontecem diariamente, ao som do rock, do blues e da mágica gaita de fole que enevoa seus ares diariamente.

O nome da casa vem de “Finnegans Wake”, ousadíssima obra de James Joyce, cujo título esconde alguns sentidos: Finn é um ancestral mitológico dos irlandeses, lembra a canção popular à respeito de um certo Finnegan, o qual falece de tanto beber uísque e, em seu velório, desperta ao sentir o cheiro da bebida.

Se depois de tudo isso você ainda precisa de um empurrãozinho extra para ir até lá, saiba que na próxima quinta-feira, dia 17, é dia de St. Patrick, o padroeiro da Irlanda. É a data mais aclamada da ilha, quando famílias e grupos de amigos saem amigos com pinturas e fantasias, em uma espécie de carnaval, embalados pelas bandas e pelas músicas folclóricas do país.
E é claro que o Finnegan’s fará sua festa, com muitas apresentações de gaitas de fole e o tradicional chopp verde, servido apenas nesta ocasião do ano. É uma homenagem ao santo, aos amigos e a todos os irlandeses que fazem questão de festejar e curtir cada minuto.
Afinal, dizia o irlandês Oscar Wilde, “a vida é importante demais para ser levada tão a sério”.

Finnegan’s Pub – Rua Cristiano Viana, 358 – Pinheiros / São Paulo. Tel: 3062-3232. Horário: Segunda a Sexta a partir das 18h, Sábado a partir das 19h.



Algumas curiosidades:
- Saint Patrick foi um missionário que levou o catolicismo aos irlandeses. É considerado o fundador da Igreja Católica no país.
- O tradicional trevo de três folhas era usado para explicar a Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo, ao povo irlandês. Hoje ele faz parte da herança do país, inclusive por sua cor, o verde.
- A representação da bandeira irlandesa tem o verde, como os católicos, o laranja, como os protestantes e o branco, simbolizando a paz entre os credos.
- Não há cobras na Irlanda. Diz a lenda que St. Patrick expulsou todas da ilha e elas nunca mais voltaram. Já os céticos atribuem a ausência do animal ao clima gelado.
- A lei do país proíbe que o comércio distribua sacolinhas de plástico. Quem não tiver bolsas ou mochilas precisa pagar pela sacola ou carregar as compras nas mãos.
- Chicago, nos Estados Unidos, abriga uma das maiores colônias irlandesas do mundo. No dia de St. Patrick, o rio da cidade é tingido de verde e o Chicago Bulls, time em que jogou o mito Michael Jordan, joga de uniforme verde.

- A Guiness, que já se tornou um dos símbolos do país, é a sexta maior cervejaria do mundo, e foi fundada em 1759, há exatos 252 anos.
- Em 1961, mergulhadores descobriram garrafas de Guiness num navio naufragado em 1869. Conta-se que ainda era bebível e tinha uma boa espuma.
- O copo utilizado para o consumo de Guiness é chamado “Pint”. O pint foi criado na Europa e tem 568ml.
- Há 50 cervejarias Guiness espalhadas pelo mundo. Porém, todas as Guiness vendidas no Brasil vêm da cervejaria original St. James Gate, em Dublin.

- Esta é clássica do espírito irlandês: 
Em boa parte de Dublin, as casas seguem o estilo georgiano. São todas muito parecidas, exceto pelas portas, cada uma de uma cor.
A explicação é simples: conta-se que, quando o príncipe Albert, da Inglaterra, faleceu, em 1861, a rainha Vitória foi passar alguns dias na Irlanda, para se restabelecer.
A rainha ordenou então, que todas as portas fossem pintadas de preto ou exibissem bandeiras pretas, em sinal de luto. No dia seguinte, a cidade amanheceu com centenas de portas vermelhas, amarelas, verdes, azuis, laranja etc. Tudo, menos preto.
E como o amor dos irlandeses pela família real inglesa não mudou muito nestes 150 anos, a Irlanda continua ostentando suas portas, cada dia mais coloridas.




Segue abaixo um vídeo da última passagem dos irlandeses do U2 por São Paulo. Vale lembrar que no mês que vem eles estarão novamente por aqui:


terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Empório Sagarana (Vila Romana – São Paulo)



O site da casa descreve com perfeição: “Sagarana é uma pausa. Uma passagem no tempo-espaço. Um portal. Desprenda-se da miríade de compromissos que São Paulo te impõe. Sagarana tem seu próprio tempo e você vai se sentir bem nele. Desencane do medo e do stress da cidade grande. No Sagarana todo mundo é amigo, companheiro, colega, parceiro. Sagarana é um pequeno, quase secreto endereço em São Paulo. Uma esquina sem tempo nem espaço, onde as pessoas podem exercitar o prazer de ser gente de novo”.
Veja bem, meu caro João Guimarães Rosa, e perdoe-me o pastiche: você zarpou dessa sagarana há mais de 40 anos e portanto, seja lá onde você anda, não faz a menor idéia do que seja um site e isso nunca lhe fez a menor falta. “As coisas mudam no devagar depressa dos tempos”, mesmo. Mas o que interessa é que desse tal empório você ia gostar e muito porque, ele sim, estava fazendo uma falta que só.
O danado fica num lugar que para encontrar tem que sair buscando. Ele abre no comecinho da noite, num trecho escuro e quieto da Vila Romana, e a gente passa e vê num relance tão ligeiro, que só depois vê que tinha visto. Vê uma luzinha amarelada e convidativa saindo de uma pequena casinha de esquina e tem a sensação embolada de que aquilo não era para estar ali, mas na paisagem das fazendas e dos vaqueiros das Gerais.

Antes que você fique entediado e pegue a saudadear, vou descrever o lugar: uma casa composta de uma única sala com um balcão de madeira da boa dividindo ela quase ao meio. Do lado menor ficam os donos da casa com as geladeiras e uma bancada que serve de cozinha, de onde saem maldades mineiras como uns pescados defumados, queijos, cervejas e cachaças, tudo tinhosamente servido, cada um de um jeito, cada qual no seu copo.
Do outro lado do balcão é o espaço para os amigos, com meia dúzia de mesas lindamente rústicas e algumas banquetas de ferro, onde dá para se aboletar e folhear livros de culinária mineira, de arte barroca e até o seu Sagarana. Na volta toda, prateleiras de peroba com tentadores potes de geléia, queijo, mel, mantas e garrafas de cachaça forram as paredes, pintadas de amarelo. 
Um Chico, um Caetano e um Milton saindo baixinho das caixas de som completam a bucólica atmosfera de um armazém isolado em uma cidadezinha qualquer. E tudo isso num espaço tão pequeno que o banheiro fica do lado de fora, alguns degraus abaixo do nível da rua.

A idéia disso tudo é do Paulo e da Priscila. Ele, artista plástico e grande sabedor das artes cachacísticas. Ela, pedagoga e mestra no preparo dos petiscos. Os dois mineiros dos bons, como você, mas de Alfenas, um bocadinho mais perto daqui.
Lembra quando você saiu mundão afora sempre levando as Minas Gerais encaramujadas dentro de ti? Pois eles matutaram um jeito de trazê-las para cá num tamanho um pouco maior, de um jeitinho que coubesse o casal e mais umas duas dúzias de amigos bem espremidos dentro. 
O causo é que eles já estavam aqui há uns anos e começou a doer aquela dor que só a saudade dói, aquela preguiça que essa pressa sem caminho de São Paulo dá, principalmente em quem não brotou dela. Mas você já tinha ensinado que “a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

Então, para nossa sorte e para não fazer desfeita a gente tão importante, o simpatissíssimo casal mandou vir as mineirices devidamente embrulhadas e engarrafadas. E para não cair na tentação de sair pelo mundo, trouxe o mundo todo para cá, dentro de garrafas de cerveja. Nem sei quantas são. Na verdade, nem eles. No cardápio tem umas 80, de tudo que é canto do mundo, mas sempre tem umas que não chegam e outras que chegam sem ser devidamente apresentadas no cardápio.
E é isso, João. Como você sabe, a vida é muito discordada. Tem partes. Tem artes. Tem as neblinas ‘de São Paulo’. Tem as caras todas do Cão e as vertentes do viver. E esteja onde você estiver, apareça quando quiser. 
A casa está aberta desde o ano passado e vai continuar assim, daquele jeito que você sempre soube contar como ninguém, sempre pronta a receber os amigos queridos. Afinal, como afirmam o Paulo e a Priscila, as cachaças, as cervejas, os petiscos e as tortas “são apenas uma desculpa para a gente fazer o que mais gosta: voltar a ser gente”.

Empório Sagarana – Rua Marco Aurélio 883, Vila Romana, São Paulo. Tel. 3539-6560. 
Horário: Segunda e Terça das 17h às 22h, Quarta das 17h às 23h e Quinta a Sábado das 17h à 1h.



Para vocês, um pouquinho do velho João:


Consciência Cósmica (Guimarães Rosa)

 
Já não é preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram minha fronte.
E as vagas do sofrimento me arrastaram
para o centro remoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim...
 
Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem de deixar escorrer a força dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado...
 
Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
E deveria rir, se me restasse o riso,
das tormentas que pouparam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo de meu corpo...

sábado, 4 de dezembro de 2010

Frangó (Freguesia do Ó – São Paulo)



- Aquilo que é coxinha! – disse o Renato, tentando convencer o resto da turma, já devidamente instalada em um boteco do outro lado da cidade, a fechar a conta, levantar da mesa, entrar no carro e despencar até a Freguesia do Ó.
- Mas nós acabamos de chegar! E dá mais de 10 quilômetros até chegar lá...
- Vocês não entendem porque vocês não conhecem. Cada coxinha vale pelo menos 1 quilômetro... e a pé!
- Senta aí! Semana que vem nós vamos. Já deixamos combinado aqui. No dia de sempre, na hora de sempre, só que lá no tal do Frangão.
- É Frangó, com o ó da Freguesia!
- Tá bom, no Frangóóó.

Mas o Renato não desistiu. Estava com fome. Quase sonhando com as coxinhas e só falava nisso. Começou descrevendo o caminho:
- Depois que você sai da avenida e sobe a ruazinha, chega numa pracinha que parece cidadezinha do interior. É o largo da Matriz, uma graça, com a igreja no meio e tal. E quase sempre tem uns eventos meio estranhos, tipo quermesse e umas coisas assim. Nem parece São Paulo...
- Sei...
- A gente logo vê o bar porque sempre tem um monte de gente em volta, mas tem lugar. Parece que não, mas sempre tem, porque é um casarão do século 19 que parece um labirinto onde você sobe, desce, vira, anda e tem sempre mais uma salinha e um salão. Aí você senta e espera as coxinhas, que vem sempre no ponto, sequinhas, crocantes...
- Que saco! Pára com isso!
- Eu tô com fome...
- Pede alguma coisa pra comer!
- Será que eles entregam aqui? Duvido! – E de qualquer jeito, lá é melhor, por causa das cervejas. Eu já falei das cervejas? Eles não têm cardápio. Têm uma Bíblia de cervejas! De tudo quanto é canto. O legal é que tem uns pacotes de degustação, tipo você paga tanto e tem direito a tantas cervejas diferentes. Aí você pega uma da Bélgica, outra do Japão, uma holandesa...
- Eu vou dar uma na orelha dele!...

Foi nisso que chegou o Paulo, o último que estava faltando, atrasado, e que já tinha ido com o Renato pras bandas da Freguesia uns dois anos antes.
- Tô contando pra eles do Frangó – disse o Renato, dando a deixa para o Paulo continuar.
- Fui lá faz uns 10 dias – disse o Paulo – Tá muito caro! Fui tomando as cervejas, uma branca italiana, uma preta irlandesa, uma bock dinamarquesa, e quando vi estava duro!
- Você podia ter ficado nas nacionais...
- E quem resiste?
- Tá vendo? Decidido! Não vale a pena. É melhor ficarmos por aqui...
- Peraí! Quem disse que não vale a pena? Eu só disse que não dá pra ir todo dia porque, realmente, eles andam exagerando um pouco. Mas sempre que dá, eu volto. E tem as coxinhas...
- Droga! Você tinha que lembrar das coxinhas?
- Mas não dá para esquecer das coxinhas...
- Tudo bem, mas vocês só falam das malditas coxinhas! Não tem outra coisa pra comer lá?
- Sei lá. Deve ter. Tem uma lista enorme no cardápio, mas eu nunca li. A gente chega e pede as coxinhas. Depois, um ou outro pede o cardápio pra ver o que tem, olha daqui, olha de lá e pede mais coxinha. Eu nem olho...
- Chega! – disse o Renato – eu desisto. Vocês venceram. Tô passando mal. Vou embora para casa. Estou morrendo de fome e agora não consigo comer mais nada, muito menos coxinha, a não ser aquelas. Vou fazer um miojo, pedir uma pizza, conhecer novos amigos, mas aqui eu não fico.
- E se a gente fosse para outro lugar?

Todo mundo se olhou em silêncio. Pediram a conta. Levantaram e se amontoaram quietos no carro do Paulo. Meia hora depois estavam na Freguesia do Ó. Entraram ainda meio quietos. Todo mundo olhando para o Renato. Iam satisfazê-lo e ele ia ficar devendo essa para a turma. Ou então iam matá-lo.
Sumiram dentro do bar e, pelo visto, a coisa foi longe. O garçom não parava de buscar cerveja. Começaram nas nacionais para economizar, mas acabaram intercalando umas gringas entre elas. 
A última notícia que tive é que a conversa tinha esquentado de novo e que iam ficar só mais um pouquinho, pois tinham acabado de pedir mais coxinhas.

Frangó – Largo da Matriz de Nossa Senhora do Ó, 168, Freguesia do Ó, São Paulo - Tel: 3932-4818. 
Horário: Terça a Quinta das 11h à Oh, Sexta e Sábado das 11h às 1h30 e Domingo das 11h às 22h.


Receita da Coxinha


Meu conselho é que você vá até o bar, a menos que você seja realmente muito bom na cozinha. Do contrário, por mais que tente, não ficará igual. Mas vamos lá:


A receita é de Maria Brunhara Piccolo, mulher de Valdecyr e mãe de Cassio, sócios do boteco. Ao contrário da maioria das coxinhas, a do Frangó não leva ovo na hora de empanar. A massa, úmida, já adere à farinha de rosca. Com isso, o quitute fica dourado, crocante e sequinho.

INGREDIENTES:

Massa
900 ml de água filtrada
1/4 de xícara de óleo de soja
6 cubos (cerca de 60 g) de caldo de galinha
650 g de farinha de trigo especial

Recheio e acabamento
900 g de peito de frango cozido e finamente picado
1 cebola pequena bem picada
1/4 de xícara de salsinha bem picada
Sal e pimenta-do-reino
900 g de requeijão cremoso (catupiry)
500 g de farinha de rosca (para empanar)
1 litro de óleo (ou mais, se necessário, para fritar)

MODO DE PREPARO:

Massa
Numa panela grande, coloque a água junto com o óleo de soja e o caldo de galinha e leve ao fogo. Assim que ferver, sem desligar o fogo, vá colocando aos poucos a farinha de trigo peneirada, continuando a mexer até que a massa se solte do fundo da panela e esteja suficientemente cozida e lisa (cerca de dez minutos). Reserve e deixe esfriar só até que seja possível pegá-la com as mãos.

Recheio e acabamento
Tempere o frango picado com a cebola, a salsinha, o sal e a pimenta-do-reino a gosto. Pegue pequenas porções de massa (cerca de uma colher de sopa ou 30 gramas) e abra na palma da mão. Recheie com meia colher (sobremesa) de catupiry e uma colher (sobremesa) de peito de frango temperado. Feche a massa sobre o recheio e modele-a em formato de coxinha. Tente modelar a massa fininha, sem remendos, puxando o bico da coxinha e fechando bem para que ela não abra enquanto frita. Coloque a farinha de rosca numa tigela e passe por ela as coxinhas uma a uma. Numa panela funda, coloque o óleo e aqueça. Dependendo do tamanho da panela, junte mais óleo, de modo que as coxinhas fiquem submersas. Frite-as aos poucos, até estarem crocantes e douradas. Escorra bem e coloque-as sobre papel absorvente antes de servir.

Dica: para obter os 900 gramas de carne já cozida e limpa, calcule cerca de três peitos médios com osso e pele. Cozinhe em água salgada até ficarem macios. Tire os ossos e a pele e pique.