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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Canto Madalena (Vila Madalena - São Paulo)



Alguns pequenos lugares parecem nos reservar grandes surpresas. E as surpresas devem ser bem recebidas, acolhidas e apreciadas, ainda que, obviamente, você nunca esteja preparado para elas.


O que esperar de um lugar chamado Canto Madalena? Primeiro, que fique na Vila mais querida da cidade, onde todos os amigos se encontram para conversar, festejar e sabe-se lá mais o quê. Segundo, que fique em um cantinho tranqüilo, longe da agitação que hoje toma conta do outrora pacato bairro. E, terceiro, se der sorte, que ele traga o velho canto e o encanto da Madalena.

O “Canto” surgiu há dez anos num lugarzinho escondido onde outrora havia uma mercearia e que Gilberto Brozinga, o simpático Giba, adquiriu e transformou em um boteco com cara de “casa da vovó”, misturando móveis antigos com peças de arte e toalhas de chita que dão ares alegres e nostálgicos ao lugar.
A casa, em si, já é uma ótima surpresa, com um ambiente totalmente interiorano se espalhando por varanda, sala e quintal, com um charmoso piso hidráulico e que incluem diversas plantas espalhadas pelas paredes e um teto retrátil que faz a felicidade dos freqüentadores em dias ensolarados e nas noites mais quentes.

O jeitão familiar, de interior e de “casa de avó” não é coincidência. A casa é realmente conduzida por uma família inteira, unida e carinhosa. Como Giba é sócio também do Brasileirinho, restaurante no Mercadão, e fica a maior parte do tempo por lá, quem toca a casa atualmente são Tita Lima – sua esposa, Isadora – sua filha, e Marcos – seu irmão. E tocam bem, muito bem.
E vão proporcionando boas surpresas, como o informal e atencioso atendimento dos garçons, a generosidade das caipirinhas e a quantidade infindável de cachaças – a maioria de Minas – que somam mais de 200 rótulos e ocupam não apenas as páginas do cardápio como diversas prateleiras e vitrines espalhadas pelo salão.

Mas as melhores surpresas vêm mesmo da cozinha, onde uma incomum brasilidade ganha sotaque paulistano e nordestino ao mesmo tempo, abrindo espaço ainda para muitas outras regiões do país.
Dali saem grandes pratos que fazem sucesso como a Feijoada (com arroz, couve, farofa e costelinhas) o Arrumadinho (carne-seca desfiada com feijão-de-corda, vinagrete e couve) e o mexidinho mineiro ( pernil, carne-seca, lingüiça toscana, arroz, feijão, queijo branco, ovo e couve), mas também saem petiscos igualmente tentadores, como os ótimos queijos ou a deliciosa porção de acarajés. E ainda tem frango, salmão, picanha, saladas, caldos, sopas, sanduíches etc.
E mais: como uma variação criativa em um já bem favorecido cardápio, Tita Lima cria uma variação diferente de iguarias a cada domingo, homenageando um estado diferente do país a cada vez, no chamado “bufê brasileiro”.

O Canto Madalena é assim, um lugar para relaxar, bater papo, comer coisinhas boas, tomar um ótimo chopp e se abrir para as surpresas que hão de aparecer. Um lugarzinho realmente aconchegante e acolhedor, que mexe com a memória afetiva da gente, convidando a momentos mais alegres, tranqüilos e descontraídos. 

Talvez ali você mergulhe num passado de menino, que ficou esquecido em algum canto secreto da memória, mas que, no fundo, você nunca se esqueceu. Talvez reencontre um bairro apaixonante, que você pensava que não existisse mais, mas que, para sua surpresa, ressurge fascinante como nunca.
E provavelmente, se der sorte, você voltará a encontrar a Vila que você sempre conheceu, uma Madalena que – como você sempre soube – foi feita para você. E quem sabe assim ela, agora mais feliz, resgatará seu violão e voltará a cantar como antes.

Canto Madalena – Rua Medeiros de Albuquerque, 471. Tel: 3813-6814. Horário: Terça a Quinta das 18h à 1h, Sábado das 12h à 1h e Domingo das 12h às 18h.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Dita Cabrita (Pompéia - São Paulo)


Quando eu tinha menos de um ano de idade eu morei na avenida Pompéia. É claro que eu não lembro de nada, mas alguma coisa deve ter ficado, porque tudo ali me traz uma agradável sensação de tranqüilidade e aconchego. 
Mas meus amigos dizem que isso não passa de frescura, pois eles nunca moraram nem perto da Pompéia e sentem exatamente a mesma coisa. Ou seja, o bairro é assim para todo mundo.
De um modo ou de outro, no meio de todos aqueles sobrados, das ruas de paralelepípedos e dos vizinhos que se conhecem, existe um lugarzinho ainda mais acolhedor que os outros: o Dita Cabrita.

O Dita Cabrita nasceu do sonho da Benedita, a Dita, de ter um lugar assim. O nome vem da lembrança da Dita, de uma brincadeira com a Benedita, que não era, nem tinha uma cabrita, mas queria ter.
O site da casa desenrola melhor esta história: quando criança, Benedita de Souza, conhecida como Dita, já ajudava seu pai no balcão de seu bar no Ipiranga. Um dos amigos que freqüentavam a casa sempre brincava com ela, dizendo “Ei, Dita, vou te comprar uma cabrita”. A brincadeira se estendeu por anos e a cabrita não veio, mas ficou na cabeça da Dita.

Então, quando abriu seu bar na Pompéia, sua intenção primeira era fazer um lugar agradável, onde as pessoas pudessem comer e beber bem, mas sem frescuras. Um lugar tranqüilo e arborizado, com jeito de quintal de casa, para receber os amigos, mas ainda com cara de São Paulo.


E conseguiu. Seu bar é, antes de tudo, um quintal. Só que, cercado de bambus, com coberturas discretas e delicadas, guarda-sóis, diversos móveis rústicos trazidos de minas, iluminação cuidadosamente feita com luzes indiretas e velas, várias bananeiras e uma grande jabuticabeira, é provavelmente o quintal mais charmoso do bairro.
As simpáticas mesas de madeira se espalham pelo meio das plantas, pela pequena edificação ao lado da entrada – que abriga uma agradável sala com sofás e outros móveis, além do banheiro – e pela a casinha dos fundos, que acolhe a cozinha e o controle da casa.

Como o público é bem variado, tendendo para as famílias, o cardápio é variadíssimo. Tem um pouco de tudo, desde pratos como a anchova ou a truta grelhada com amêndoas, até espetinhos como os de picanha, queijo coalho, abobrinha, kafta e muitos outros, passando por porções como a de mini-acarajés ou as batatas à milanesa com provolone e bacon, por chopes diferentes e por caipirinhas como a verde-amarela, que leva vodca, limão-rosa, lima-da-pérsia, kiwi e maracujá e a bananeira, com tangerina, gengibre, hortelã e cachaça com aroma de banana.
Contudo, parece que a estrela da casa é mesmo a porção de bolinhos que leva o nome da casa, feitos com massa de polenta, recheado com carne de cabrito e servido acompanhado de molho de hortelã.

Por fim, de tudo que foi dito ou redito sobre o Dita, o que eu não disse diretamente é porque não adianta dizer: é preciso ir até lá e ver ao vivo. O que você vai encontrar? Sem dúvida, uma lugar com jeito de casa de amigos, bom para papear e curtir a vida com alegria e tranquilidade. Um lugarzinho com a cara da Pompéia.



Dita Cabrita - Rua Barão do Bananal, 961 - Pompéia. Tel: 3868-2463. Horário: Terça a Sexta das 17h30 à 0h, Sábado das 12h à 0h e Domingo das 12h às 17h30.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Bar Léo (Centro / SP)



Algumas coisas são de suma importância para o desenvolvimento do país e merecem a atenção e a dedicação de todos na sua fiscalização. Não me refiro aqui a questões banais, como o aumento dos impostos, a falta de segurança, a ausência de hospitais ou o sucateamento das escolas públicas, mas sim a algo mais relevante: o colarinho do chopp.

A coisa toda é tão séria que, após um bar de Blumenau ser multado pelo Inmetro por vender o produto no copo com 60% de líquido e 40% de espuma, o assunto foi parar na pauta do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, que decidiu que “o colarinho do chopp deve ser considerado parte integrante do produto”.
Por via das dúvidas, o pessoal do Bar Léo deixa bem claro: “Aqui o chopp é assim. Se você não gosta não tem problema, na padaria vende cerveja sem colarinho. Basta atravessar a rua”.

Brincadeiras à parte, o Bar Léo é uma lenda paulistana. Todo mundo já ouviu falar, mas muitos nunca se aventuraram a ir até lá. E dos que foram, nem todos conseguiram entrar. Mas todos os que conseguiram provocam a inveja dos demais, contando alegre e detalhadamente os prazeres vividos naquelas terras sempre que lhes dão a oportunidade.

O bar foi aberto em 1940 por um alemão chamado Paulo e, como não tinha nem nome nem placa, ficou conhecido como Bar do Alemão. Poucos anos depois, ele foi adquirido pelo Seu Leopoldo, o Léo, que promoveu algumas mudanças na casa e conquistou a clientela da região. E como continuou sem nome, passou a ser chamado de Bar do Léo, e depois, Bar Léo.
A principal mudança que Seu Léo fez na casa foi a inclusão, no cardápio, de refeições típicas alemãs, preparadas por sua esposa e que, de imediato, caíram no gosto dos freqüentadores.

Um desses fregueses era o Sr. Hermes de Rosa, que adquiriu o bar em 1964 e implantou as novidades que faltavam. Primeiro, oficializou o nome do bar como Bar Léo. Depois, passou a servir almoço de segunda a sexta com um cardápio pré-estabelecido. E, por fim, a principal novidade: o chopp servido passou a ser o melhor da cidade, estabelecendo como principal característica o cremoso colarinho – uma novidade na época.

De lá para cá o bar coleciona causos. São histórias do tempo em que não permitia a entrada de homens de camiseta regata nem de moças desacompanhadas. Histórias de quando o cartunista Ferreirinha criou na mesa do bar o logotipo da casa. Histórias do “desamparo” dos clientes do bar durante as férias coletivas dos funcionários, que ocorria no mês de fevereiro e hoje se dá na segunda quinzena de julho. Histórias como a do Sr. Luiz Oliveira, o “Luizinho”, funcionário do Léo há quase 50 anos e que, mesmo aposentado, continua trabalhando lá, mas que hoje só vai e volta de táxi por cortesia da Cícera, filha do Sr. Hermes de Rosa, que comanda a casa desde o falecimento do pai, em 2003.

Pode-se dizer que os pratos fazem sucesso, mas é a fama dos canapés, das porções de frios e dos sanduíches que atravessam as fronteiras. São canapés como o Rococó (de pasta de gorgonzola e copa), o Hackpeter (carne e crua) ou o Blumenau (lingüiça defumada moída). São sanduíches de rosbife caseiro, de queijo prato ou o Polaco, que junta os dois ingredientes e cebola. E são porções de frios diversos, de queijo parmesão, de pepinos com cebolinhas, azeitonas, bolinhos de carne e os famosos bolinhos de bacalhau que, apesar do clamor popular, só são feitos às quartas e sábados.

E, finalmente, o chopp. A Brahma descarrega diariamente caminhões de barris no Bar Léo. Logo que chegam eles são acondicionados em locais refrigerados para não perder suas características originais e antes de chegarem à torneira ainda passam por um pré-resfriador e uma quilométrica serpentina. Por isso e muito mais recebeu da fornecedora o certificado da “Real Academia do Chopp” nas categorias “Diplomata do Chopp”, que é dado ao dono do bar e “Rei do Colarinho”, destinado aos tiradores de chopp.

Somente essas valiosas recompensas levariam tamanha multidão a se deslocar até ali, sob riscos diversos e a quase certeza de não encontrar lugar para sentar, além de ter de acatar seu implacável horário de funcionamento.
Mas ninguém liga. Basta olhar para ver que todo mundo ali está feliz. A vida parece uma grande festa entre as paredes do Léo. E são paredes altivas, vaidosas de sua história e de seu presente, e que exibem com orgulho uma grande coleção de bolachas de chopp e matérias de jornais e revistas sobre o bar, incluindo uma reportagem que o saudoso jornalista norte-americano David Drew Zingg fez para a “Playboy”, na qual elege o Bar Léo como um dos cinco melhores do mundo.

É de Zingg também um texto do qual me lembrei, publicada há quase cinqüenta anos pela extinta revista “Realidade” onde ele conta por que resolveu morar no Brasil. Em sua fala, o jornalista revela com um “olhar estrangeiro” um Brasil que muitos brasileiros não conseguem ver:
"Cheguei à conclusão de que existe algo simples, mas muito forte - um tipo de cola humana indestrutível - que junta numa idéia só este grande país. Ao olhar para um brasileiro, sinto que ele tem a absoluta certeza do que é. E acredito que essa certeza vem do fato dele ter sido muito amado, desde muito cedo e durante muito tempo.
Para mim o Brasil é um país habitado por pessoas que têm sido muito amadas e que têm capacidade de transmitir esse amor. Aqui se encontra o amor à vida que impede o derramamento de sangue, que mantém as pessoas vivas, no verdadeiro sentido da palavra.
Como estrangeiro, vejo sempre o carinho enchendo as ruas. Às vezes é um menino e uma menina, ou dois meninos, ou uma moça e uma velha, ou um homem e uma mulher. Mas seja o que for, há muitos, o suficiente para fazer a alma cantar."

Bar Léo – Rua Aurora, 100 – Centro / SP. Tel: 3221-0247. Horário: Segunda a Sexta das 10h às 20h30, Sábado das 10h às 17h.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Heinz (Santos/SP)



O simples fato de uma bar existir há 50 anos em uma cidade onde a maioria de seus concorrentes abrem e fecham ininterruptamente numa velocidade impressionante deve ter algum significado. E o significado é óbvio: o Heinz é o melhor bar de Santos. Ponto.
Esse tipo de declaração costuma causar polêmica, afinal, todos têm suas predileções, a cidade é grande, tem dezenas de bons bares e restaurantes e cada casa tem sua especialidade. Mas neste caso, não há o que contestar. O Heinz é especial.

A referência número 1 da casa, aquela que todos se lembram assim que ouvem o nome “Heinz”, é o chopp, considerado desde sabe-se lá quando, o melhor da cidade. O precioso líquido é consumido tão vorazmente em suas mesas que a casa chega a servir quase 10 mil litros por mês. Ele é o primeiro a ser atendido pelos fornecedores. Se não sobra para os outros bares, paciência.
O chopp do Heinz é servido – sempre – na temperatura de 1 grau centígrado, cremoso, em uma taça fininha e bonita chamada Trianon, após passar pelas mãos de um chopeiro com mais de 20 anos de experiência e por uma serpentina de 200 metros.

Mas até ele chegar até ali foi uma longa história, que começou na segunda guerra mundial. Isso mesmo! O bar foi inaugurado em 1960, mas foi em 1939 que o navio alemão Windhuk aportou em Santos com mais de 200 tripulantes, fugindo de um cerco naval inglês e ali permaneceu numa quarentena que durou anos.
Quando o Brasil entrou na guerra, em 1942, muitos desses alemães já estavam integrados à Santos, com muitos amigos na cidade e habituados aos costumes locais. E um deles era Karl-Heinz Misfeld que, anos depois, com a ajuda do amigo e, pouco depois, sócio, José Anastácio dos Santos, montou o Heinz.

Mas o fato de servir o melhor chopp passa a ser só mais um detalhe quando você conhece o resto do cardápio, que oferece porções e pratos alemães, sempre com produtos de primeiríssima qualidade e muito fartas, além de algumas incursões pela cozinha brasileira, também no mesmo nível.
Do lado alemão, você pode se acabar no kassler, no joelho de porco, no lombo com batatas, nos salsichões, nas porções de gorgonzola, parmesão, nas tábuas de frios ou nos canapés, sem se esquecer do steinheger para acompanhar os chopps que, claro, serão muitos.
Do lado mais abrasileirado do cardápio, mergulhe nos caranguejos e nos mariscos, ambos servidos nos finais de semana, na companhia de enormes e caprichadas caipirinhas.

Já se passaram mais de duas décadas que o velho Heinz e seu sócio e amigo José Anastácio se foram, mas nem parece. Os antigos clientes estão todos lá e contam suas histórias com a sensação de que aconteceram ontem, embora com uma dolorida saudade.
A eles fazem companhia os da nova geração, filhos e netos de antigos freqüentadores, além dos novos que vão chegando e se enturmando.

Quem também continua na casa são os garçons. Alguns são até mais novos, mas outros estão ali há décadas, como José Bernardino, o seu Zé, que está lá quase desde a inauguração do bar e que conta histórias engraçadíssimas dos tempos em que o Alexandre e a Mônica ainda eram bebês (desculpe, Alê. Não podia deixar de contar isso...).
Alexandre e Mônica Baum dos Santos são filhos de José Anastácio com a Sra. Osmilda Baum dos Santos e hoje tocam a casa com a amiga e sócia Darci Mercki, nora de Karl-Heinz Misfeld. Os três estão sempre por lá, na mesa 12 do Heinz ou nas casas vizinhas Armazém 29 e Paulistânia Café, outros frutos da parceria.

Não bastasse tudo isso, o Heinz ainda fica na esquina da Pindorama com a Lincoln Feliciano, um dos lugares mais agradáveis da cidade, por onde curiosamente todo mundo passa mesmo não sendo caminho para lugar nenhum e que misteriosamente consegue ser um local tranquilo e agitado ao mesmo tempo.

Minha sugestão é chegar por ali ainda de tarde e, se tiver sol, descolar uma mesinha na varanda e ver a frequência ir mudando aos poucos. Primeiro vem o pessoal mais velho, depois a turma que sai do trabalho e por fim a moçada que invade a rua inteira durante à noite, mantendo um clima cada vez mais festivo e feliz.
O problema é ir embora. A sorte é que o Heinz é um bar eterno, em todos os sentidos. Ele está lá há 50 anos e continuará lá nos próximos 50. E nós também.

Bar Heinz – Rua Lincoln Feliciano, 118 – Santos / SP.     Tel (13) 3286-1875. Horário: Segunda a partir das 17h, Terça a Domingo a partir das 12h.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Tiro Liro (Pompéia – São Paulo)



Tudo que eu queria era um lugar tranquilo, com alma de boteco antigo. Que fosse bom como os melhores bares da cidade, com bom atendimento, chopp de primeira, ótimas porções e um balcão de acepipes de preferência com vários tipos de queijo. Que fosse bonito mas não fosse grande e que ficasse num bairro gostoso, longe da badalação. É pedir demais?

Não, não é. O Tiro Liro é assim. Escondido entre as ladeiras e precipícios da Pompéia, a casa é como aquelas jóias raras que parecem ter sido feitas por encomenda.
O bar é uma criação dos irmãos Antonio Carlos (mais conhecido como Toninho) e Sérgio Bastos, que não apenas estão no ramo há mais de 40 anos, como são responsáveis pela paternidade de outras duas casas de grande credibilidade: o Dona Felicidade e o Pé Pra Fora.

A linhagem é antiga. Sérgio e Toninho são filhos de dona Felicidade e do Sr. Manoel Bastos que, nos anos 70, montaram uma mercearia na Pompéia que, ainda em suas mãos, viria a se tornar o conhecidíssimo Pé Pra Fora.
Com a falta do Sr. Manoel, o “Pé”, que ficou famoso pelo bolinho de bacalhau feito por dona Felicidade, foi vendido nos anos 90, quando a família montou, na Lapa, a casa cujo nome homenageia sua matriarca.
A nova casa, mais com jeitão de restaurante, rapidamente também adquiriu sua fama, principalmente devido aos pratos portugueses à base de bacalhau e alheiras, além do famoso pudim “desmaiado”, mais uma criação de Felicidade Bastos.

Veio então, em 2002, o Tiro Liro, inspirado nos clássicos botequins cariocas, em sua maioria também descendentes de famílias portuguesas.
O novo bar foi montado em um casarão de esquina onde funcionava uma mercearia e que há anos vinha sendo cortejado pelos dois irmãos. Como diz a letra do “Tiro Liro”, “juntaram-se os dois à esquina, a tocar a concertina, a dançar do sólido”.
Assim que comprada, a casa recebeu uma reforma quase completa, mas que não a descaracterizou. Ganhou enormes janelas e belos armários, mas manteve o piso original, que está lá há quase 50 anos.

No nostálgico salão do Tiro Liro, o carro chefe é o chopp de colarinho cremoso, embora o seu “clube do whisky” tenha uma clientela fiel. Na parte das comidinhas, as especialidades portuguesas como as alheiras se destacam, mas há ótimas opções como a tábua de picanha, as linguiças recheadas, o pastel de carne com gorgonzola e até ostras.
Há também um belo balcão de petiscos com queijos e embutidos de primeira qualidade, vendidos a peso e que costumam agradar mais aos menos famintos.
E é claro que as especialidades de Felicidade Bastos – o bolinho de bacalhau criado no Pé Pra Fora e o “desmaiado” do Dona Felicidade – estão lá, acompanhados ainda de uma deliciosa torta cujas fatias só são oferecidas às sextas-feiras.

Mas muito mais do que a boa comida e a bebida correta, o que conta no Tiro Liro é o lugar em si.
Tranquilão, com a cara do bairro, o bar faz com que o bate-papo com os garçons e o clima de camaradagem entre os fregueses seja tão natural e espontâneo que todo mundo que vai, volta, pois já é considerado por todos como mais um membro da turma.

Tiro Liro – Rua Cotoxó, 1185 – Pompéia / São Paulo Telefone: 3868-3551 – Horário: Segunda a Sexta das 17h à 1h e Sábado das 12h às 19h.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Elídio Bar (Mooca / São Paulo)



A Mooca é o bairro mais bairrista que existe e carrega no sotaque o cantado dos primeiros imigrantes italianos e a ginga de Adoniran. Quem mora lá, antes de ser paulistano, é mooquense. E nunca se muda. No máximo, troca de quarteirão.
Todo mooquense tem um segundo time (o primeiro é o Juventus) e se orgulha até mesmo do gol sofrido pelo moleque travesso, considerado o mais belo da carreira de Pelé.

Exageros à parte, é nesse ambiente que vamos encontrar o Elídio Bar, o mais tradicional do bairro e um daqueles lugarzinhos muito especiais, que nos surpreendem e nos encantam.
Quem dá nome ao bar é Elídio Raimondi, um simpático senhor nascido e criado numa das tantas tradicionais famílias italianas da região, de onde herdou três características facilmente observáveis: a vocação para o comércio, o talento para a cozinha e a paixão pelo futebol.

O bar surgiu de uma mercearia, criada no final dos anos 50 pelo pai do ‘seu’ Elídio no mesmo imóvel que está até hoje, na qual ele ajudou desde menino e acabou por se tornar um dos maiores inovadores dessa botecolândia em que São Paulo se transformou.
Foi nessa mercearia que ele resolveu criar seu próprio modo de cortar a mortadela, de preparar as alheiras, de misturar frutas nas batidas e, principalmente, de servir os petiscos: tudo à vontade, por quilo e no balcão, como ninguém fazia até então e como nos habituamos a ver hoje em tantos “botecos chiques” por aí.

A inovação caiu imediatamente nas graças da clientela e a casa da família Raimondi foi se tornando mais bar e menos mercearia até que, nos anos 70, aquele que já era conhecido na Mooca como “bar do Elídio” se tornou oficialmente o Elidio Bar.
De lá para cá, o tal balcão só fez se guarnecer ainda mais, oferecendo hoje mais de cem diferentes delícias da chamada “comida de botequim”, onde além da grande variedade de queijos e embutidos encontramos clássicos dessa “baixa gastronomia”, como roll-mops (sardinha curtida enrolada), morcilla, jiló frito, moela de frango e polvo ao vinagrete.

Mas as atrações do bar não param no balcão de acepipes. Há o chopp (Brahma, excelente, tirado de uma chopeira alemã), os coquetéis clássicos (destaque para o caju amigo) e, principalmente, as homenagens ao futebol.
Ocorre que Elídio é, desde pequenino, fanático por futebol. Palmeirense mas amante do futebol-arte de modo geral, ele ostenta um infinito acervo de fotos, publicações, souvenires, bolas, chuteiras, camisetas autografadas e outras relíquias.

Como as recordações já não cabiam nas forradas paredes do bar, a casa ganhou há alguns anos um segundo andar, que se transformou em uma espécie de “museu do futebol” particular, onde repousa uma coleção histórica sobre ídolos do esporte e onde cada objeto guarda uma história para contar.
E o que ainda não couber no acervo do bar, cabe nas lembranças do ‘seu’ Elídio. Grande conhecedor da história do esporte bretão, dono de um estilo narrativo todo especial, de uma simpatia ímpar e de uma memória de elefante, ele é, para muitos, a maior atração da casa.

“Faz tempo eu vinha procurando uma desculpa para não vir até aqui. Sabia que eu ia gostar. Alguma coisa em mim sabia. A briga agora vai ser para me tirarem daqui”. (Charles Bukowski)

Elídio Bar - Rua Isabel Dias, 57 - Mooca – São Paulo
Tel: 2966-5805. Horários: Terça, Quinta e Sexta a partir das 16h30, Quarta das 11h30 às 15h e das 16h30 à 1h30, Sábado das 11h30 à 1h30 e Domingo das 11h30 às 18h.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Dois Irmãos (Campo Belo / São Paulo)



Vamos falar sobre uma trabalhadora muito especial: a chopeira mais antiga de São Paulo, ainda em atividade. Ela não fica em nenhum dos bares considerados “clássicos” da cidade nem escondida em algum boteco do centro sendo cultuada em alguma espécie de “balcão-altar”.
Ao contrário. Ela fica em um bar descontraído e receptivo no Campo Belo, sem qualquer ornamento ou destaque, dividindo espaço com duas réplicas e trabalhando diariamente, de lua a lua, há 52 anos. E tem muita história pra contar...

A história da casa – e sua vocação – vem da década de 20, quando um ex-gerente da Brahma comprou o imóvel e montou uma vendinha para ganhar seu sustento e poder beber em paz com os amigos.
Após décadas de despojamento, a venda foi adquirida, em 1958, pelos irmãos portugueses Manoel e José Souza Dias. Eles a transformaram em um bar, batizando a casa com o nome atual e instalando atrás de seu balcão a valente chopeira, adquirida do clássico Joan Sehn.
Já nesta época o bar ganhou fama pelo excelente chopp, que até hoje é cuidadosa e lentamente tirado de uma única torneira e servido em uma tulipa de vidro bem fininho. Fato que obrigou os proprietários a adquirirem duas réplicas de sua relíquia, feitas sob encomenda.
Como a chopeira não é automática, o chopp ainda passa por um processo artesanal para ser servido. O que explica sua surpreendente leveza.

A casa ficou conhecida também por algumas excentricidades, como o fato de não ter telefone e pela presença de uma grande mesa redonda à qual só podiam se sentar os clientes mais assíduos que, em sua grande maioria, sempre foram os moradores do bairro.
Só que, como aparentemente os homens costumam viver menos do que chopeiras, os dois irmãos vieram a falecer, um no final do século passado e outro no início deste. Com isso, o bar entrou em decadência e o bairro em grande aflição.
O Dois Irmãos dá a impressão de ser precisamente um “ponto de encontro”, onde os amigos do bairro combinaram há anos atrás de se encontrar todos os dias após o trabalho. A coisa toda é tão natural que os próprios freqüentadores parecem não se dar conta disso. É automático. Mas por que não seria assim?
Por isso, com seu declínio e com o receio de que o bar fechasse suas portas definitivamente, quatro ex-clientes (hoje são só dois: o Chicão e o Boy, como são conhecidos) assumiram o estabelecimento e promoveram algumas reformas que se faziam necessárias.

Nessa reforma, a casa foi bem ampliada. A grande mesa foi substituída por outras menores, também redondas e de tamanhos diversos, como é o costume do bar.
A casa ganhou também um grande ambiente totalmente ao ar livre, fechado para a rua, como um grande quintal de casa, que talvez seja o único ambiente interno na cidade onde é permitido fumar.
E ganhou ainda algumas novidades no cardápio, como a porção de pernil e ótimos sanduíches de frios feitos com qualidade e sem frescuras.
Mas manteve detalhes fundamentais, como seu piso hidráulico original, sua aparência autenticamente antiga, seu jeitão meio chique / meio boteco de bairro e seu eterno clima de confraternização entre amigos.

Dois Irmãos – R. Demóstenes, 55 – Campo Belo – S.Paulo Tel: 5093-1927
Funcionamento: Segunda a Sexta a partir das 17h, Sábado à partir das 12h e Domingo das 12h às 20h.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Velho Rabo (Pompéia – São Paulo)



Fui atraído pelo nome – ou pela troca dele. Passei ali em frente durante anos e os dois bares da esquina da Caraíbas com a Desembargador do Vale me chamavam a atenção, mas nunca parei. Até que o “Rabo de Galo” deixou de existir e surgiu, em seu lugar, o “Velho Rabo”.
Resolvi conhecer. Da calçada eu ouvi – “Sai um rabo!” – e logo depois – “Sai um rabo escuro!”
Você entraria? Eu entrei. Entrei e mal sentei o rabo na cadeira já chegou um rabo, isto é, um chopp claro, trazido e devidamente esclarecido pelo Giba, o garçom que não apenas coleciona pins o bottons, como ostenta alegoricamente boa parte da coleção sobre o uniforme.

Aí descobri que alguns malucos registraram o nome lá no Ceará e a casa vinha tendo problemas com isso. Então, para mudar sem mudar muito, virou Velho Rabo.
Descobri também que os dois bares da esquina – este e o Botequim – são dos mesmos donos, o Daniel Mantovani, seu pai Ercílio e seu irmão Maurício, que são donos também do Boteco São Paulo, na avenida Pompéia, a menos de um quilômetro dali.
E descobri, ainda, que o cardápio é espetacular e presta homenagem (oportuna, mas creditada) a diversos bares da cidade. Assim, você pode pedir ali a “Alheira do Bar do Elídio”, o “Escondidinho do Lapinha”, as “Lascas de pernil do Bar do Justo”, os “Canapés do Bar Léo” ou o “Sanduba de mortadela do Bar do Mané”.

Há também criativas adaptações elaboradas pela casa, como o “Escondidão do Rabo” (no bom sentido), um enorme escondidinho que, além dos habituais carne seca, queijo e purê de mandioca, leva abóbora; o “Estadinho do Rabo” (tudo bem...), uma adaptação do lanche de pernil do Estadão servido como petisco; o “Rabo Quente”(!!!...), uns belos bolinhos de carne apimentados e o Caldinho (esse não leva o sufixo “do rabo”, graças a Deus), que é servido acompanhado de um “gorózinho”.
Uma sacada interessante do bar é servir a picanha ainda crua (opção) para cada um deixar no rechaud o tempo que achar melhor – o que é uma crueldade com as mesas vizinhas, atingidas pelo provocador aroma da carne. E a porção é pra lá de generosa...

E não dá pra deixar de falar das rabudinhas. Ah... as rabudinhas!... Elas são um tipo de bruschetas caprichadíssimas, com diversas coberturas diferentes, todas muito tentadoras. Bruschetas, rabudinhas, enfim...
E se você quiser homenagear a casa, peça o mais tradicional dos coquetéis, formado pela simples mistura de pinga com vermute e aprenda: a palavra coquetel vem do inglês “cocktail”, que significa...rabo de galo.


Velho Rabo – Rua Caraíbas 605, Pompéia, São Paulo. 
Tel: 3801-4464
Funcionamento: Terça a Sexta das 17h à 1h, Sábado das 12h à 1h e Domingo das 12h às 22h.


A origem do “coktail”
Como tudo que começa na mesa de um boteco, ninguém registrou nada e cada um tem uma versão diferente diferente da história. Fui checar na wikipédia e piorou a coisa. As versões são as mais desencontradasmas, pelo menos, curiosas e engraçadas. Seguem algumas delas:  

1-   O escritor e bon vivant londrino Dr. Johnson. Ele teria comparado a "pecaminosa" mistura de vinhos com destilados fortes aos cavalos de sangue misturado, sem raça definida, que, no interior da Inglaterra, tinham a ponta do rabo cortada (em inglês, cocked tails).
2-   O termo vem das rinhas de galo que ocorriam na região do Mississipi, nos EUA, onde penas retiradas do galo vencedor eram usadas para mexer os drinques dos apostadores vencedores.
3-   O drink espetacular teria sido preparado e batizado por uma linda jovem mexicana chamada Coctel.
4-   Na época da lei seca era de costume dos americanos beber Vermute com Vodka. O famoso Rabo de Galo que no Brasil é elaborado com vermute e cachaça.
5-   Na guerra da independência americana, uma taberneira chamada Betsy Flanagan, viúva de um soldado revolucionário, teria roubado as penas do rabo de um galo do inimigo para decorar os drinques que servia em sua taberna.
Particularmente, acho esta última a mais plausível. E você?