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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Canto Madalena (Vila Madalena - São Paulo)



Alguns pequenos lugares parecem nos reservar grandes surpresas. E as surpresas devem ser bem recebidas, acolhidas e apreciadas, ainda que, obviamente, você nunca esteja preparado para elas.


O que esperar de um lugar chamado Canto Madalena? Primeiro, que fique na Vila mais querida da cidade, onde todos os amigos se encontram para conversar, festejar e sabe-se lá mais o quê. Segundo, que fique em um cantinho tranqüilo, longe da agitação que hoje toma conta do outrora pacato bairro. E, terceiro, se der sorte, que ele traga o velho canto e o encanto da Madalena.

O “Canto” surgiu há dez anos num lugarzinho escondido onde outrora havia uma mercearia e que Gilberto Brozinga, o simpático Giba, adquiriu e transformou em um boteco com cara de “casa da vovó”, misturando móveis antigos com peças de arte e toalhas de chita que dão ares alegres e nostálgicos ao lugar.
A casa, em si, já é uma ótima surpresa, com um ambiente totalmente interiorano se espalhando por varanda, sala e quintal, com um charmoso piso hidráulico e que incluem diversas plantas espalhadas pelas paredes e um teto retrátil que faz a felicidade dos freqüentadores em dias ensolarados e nas noites mais quentes.

O jeitão familiar, de interior e de “casa de avó” não é coincidência. A casa é realmente conduzida por uma família inteira, unida e carinhosa. Como Giba é sócio também do Brasileirinho, restaurante no Mercadão, e fica a maior parte do tempo por lá, quem toca a casa atualmente são Tita Lima – sua esposa, Isadora – sua filha, e Marcos – seu irmão. E tocam bem, muito bem.
E vão proporcionando boas surpresas, como o informal e atencioso atendimento dos garçons, a generosidade das caipirinhas e a quantidade infindável de cachaças – a maioria de Minas – que somam mais de 200 rótulos e ocupam não apenas as páginas do cardápio como diversas prateleiras e vitrines espalhadas pelo salão.

Mas as melhores surpresas vêm mesmo da cozinha, onde uma incomum brasilidade ganha sotaque paulistano e nordestino ao mesmo tempo, abrindo espaço ainda para muitas outras regiões do país.
Dali saem grandes pratos que fazem sucesso como a Feijoada (com arroz, couve, farofa e costelinhas) o Arrumadinho (carne-seca desfiada com feijão-de-corda, vinagrete e couve) e o mexidinho mineiro ( pernil, carne-seca, lingüiça toscana, arroz, feijão, queijo branco, ovo e couve), mas também saem petiscos igualmente tentadores, como os ótimos queijos ou a deliciosa porção de acarajés. E ainda tem frango, salmão, picanha, saladas, caldos, sopas, sanduíches etc.
E mais: como uma variação criativa em um já bem favorecido cardápio, Tita Lima cria uma variação diferente de iguarias a cada domingo, homenageando um estado diferente do país a cada vez, no chamado “bufê brasileiro”.

O Canto Madalena é assim, um lugar para relaxar, bater papo, comer coisinhas boas, tomar um ótimo chopp e se abrir para as surpresas que hão de aparecer. Um lugarzinho realmente aconchegante e acolhedor, que mexe com a memória afetiva da gente, convidando a momentos mais alegres, tranqüilos e descontraídos. 

Talvez ali você mergulhe num passado de menino, que ficou esquecido em algum canto secreto da memória, mas que, no fundo, você nunca se esqueceu. Talvez reencontre um bairro apaixonante, que você pensava que não existisse mais, mas que, para sua surpresa, ressurge fascinante como nunca.
E provavelmente, se der sorte, você voltará a encontrar a Vila que você sempre conheceu, uma Madalena que – como você sempre soube – foi feita para você. E quem sabe assim ela, agora mais feliz, resgatará seu violão e voltará a cantar como antes.

Canto Madalena – Rua Medeiros de Albuquerque, 471. Tel: 3813-6814. Horário: Terça a Quinta das 18h à 1h, Sábado das 12h à 1h e Domingo das 12h às 18h.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Bar dos Cornos (Jaguaré - São Paulo)



O filósofo cearense Marcondes Falcão Maia, mais conhecido como o cantor Falcão, sabe que a besteira é a base da sabedoria e que esse negócio de chifre é coisa que os outros colocam na sua cabeça. Por isso, numa dessas andanças por São Paulo, foi conhecer o Bar dos Cornos, como comprova sua foto orgulhosamente ostentada na parede do folclórico botequim do Jaguaré.
Pois é. Quando a gente pensa que já viu de tudo nessa vida, aparece uma coisa dessas. Na seara dos bares temáticos que assolam esse mundão, este é o único (pelo menos eu quero crer nisso) a homenagear as vítimas das infidelidades amorosas.


Mas o bar se chama, na verdade, Recanto Nordestino e, mesmo com a fama do exótico apelido, faz justiça a seu nome oficial por alguns motivos. Um deles é porque quando você consegue escapar da agitação das avenidas Jaguaré, Politécnica e Corifeu e subir a ruazinha que leva ao bar, você mergulha em um ambiente cada vez mais tranqüilo até encontrar o boteco, que tem todo o jeito daquelas vendinhas antigas de uma cidadezinha qualquer no sertão do Nordeste.


Outra razão, que é a principal, é porque o forte do cardápio é a típica comida nordestina, daquelas que não é qualquer cabra que encara de frente sem se preocupar com os fundos. Tem jabá na manteiga de garrafa, rãs, feijão de corda, fava com costela de porco, caldo de mocotó e sarapatel. Para os estômagos mais “paulistas”, tem pratos portugueses como alheira, lingüiça portuguesa e bolinhos de bacalhau, além de petiscos tradicionais, como croquetes, batatas e pastéis, com destaque para o “Disco Voador dos Cornos”, um pastel redondo, de carne, queijo e vinagrete. Tudo bem servido, afinal, um dos mandamentos da casa é “onde come um, comem dois”.
E para esquecer a “dor de corno”, a casa oferece as cervejas tradicionais e uma carta com centenas de cachaças, incluindo aí a marca da casa, batizada de “Cachaça dos Cornos”. Tudo isso num cardápio bem simples que traz ainda a singela advertência: “Não servimos mulheres. Quem quiser que traga a sua”.

O apelido do bar surgiu do estranho hábito do Sr. Fernando Pereira, proprietário da casa, de utilizar algumas cabeças de boi e alguns outros chifres na decoração. Como a quantidade de objetos só fazia crescer, o fato chamou a atenção de um freqüentador, que soltou a frase definitiva: “isso aqui está parecendo um bar de cornos!”.
“Seu Fernando” viu nisso uma maneira de chamar a atenção para seu comércio e passou então a ampliar sua decoração. Ela pode ser considerada o que há de mais fino em matéria de grossura: dezenas de chifres, garrafas penduradas, peles de animais e aquelas canecas de chopp que imitam genitais masculinos e femininos. Tudo de uma delicadeza paquidérmica que pode ser observada bem antes de chegar ao local, graças ao “Cornomóvel”, um antigo landau com um imenso par de chifres sobre o capô que fica estacionado na frente do boteco e que eventualmente serve para levar algum cliente mais debilitado em casa (já imaginou chegar em casa assim?).

O Bar dos Cornos foi inaugurado em 1988 na rua Araicás, mas em 2007 mudou-se para o local atual, mais espaçoso, que lhe permitiu abrigar mais mesas e colocar música ao vivo todos os dias. No repertório, é claro, pagode e sertanejo para corno nenhum botar defeito.
A cereja do bolo é o “detector de cornos”, uma gravação com algum tipo de sensor que, assim que as pessoas adentram o recinto, ressoa no alto-falante um “Bem-vindo, amigo corno! Bem-vinda, amiga corna!”.

Se sua intenção for ir a um lugar bonito, provar comidas criativas, tomar bons drinques e paquerar, não passe nem perto de lá. Mas se a idéia for se divertir em um lugar simples e dar boas risadas com os amigos, o Bar dos Cornos pode ser uma ótima pedida. Aproveite.
Afinal, como diz o “poeta” Falcão, “é ganhando que se ganha, é empatando que se empata, e perdendo que se perde. É nascendo que se nasce, é morrendo que se morre, é vivendo que se véve!”.

Bar dos Cornos – Avenida General Mac Arthur, 865 – Jaguaré – São Paulo. Tel: 3766-2969. Horário: Segunda a Sábado das 8h à 1h, Domingo das 10h às 22h.




Embora Falcão seja personagem indispensável desta história, resolvi postar um vídeo dos saudosos Mamonas Assassinas, gravado em Valinhos pelo don Pedrucci, e que também é dedicada ao tema central desta matéria: