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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Madhu (Consolação - São Paulo)



Pode existir alguma coisa mais esquisita que um fast-food indiano na rua Augusta? E mesmo que as intenções de nosso blog sempre sejam a de fugir de tudo que lembre um fast-food, eu tinha que falar de lá. Por quê? Simples: porque é muito bom.




Na verdade, de fast-food o Madhu só tem a aparência e o esquema de trabalho, além de um pouco da rapidez. Como nas lanchonetes, as opções são oferecidas em 12 opções de combos que incluem o prato principal e os acompanhamentos que você escolhe em um cardápio muito detalhado e pacientemente explicado pela simpática Joselane. Metade deles leva frango ou carne e a outra metade é vegetariana. Também como nas lanchonetes, paga-se antes, busca-se o prato em bandejas de plástico e o leva para uma mesinha simples. E as semelhanças terminam aí. 


O Madhu, cujo nome indiano significa Néctar, é uma invenção de seis sócios que, saudosos da culinária do sul da Índia, resolveram montar, em São Paulo, um restaurante especializado nos produtos daquela região que fosse discreto, prático, bom e barato. 

Ao contrário da maioria dos restaurantes indianos na cidade, que investem alto na decoração ostensiva, no serviço cheio de pomposos clichês e, conseqüentemente, em preços altíssimos e injustificáveis, o Madhu se preocupa mesmo é com a comida. 


Da cozinha comandada por Gopal Pandaram saem pratos simples, mas muito bem elaborados, como o beef madhu - tirinhas de carne temperadas com cebola, garam masala (mix de especiarias), açafrão e coentro em pó, acompanhados de mezhukupuratti (cubos de batata cozida e temperada), snacks cutlet (um tipo de croquete de carne com hortelã) ou salada thoram, servida quente, à base de repolho e leite de coco – ou o chicken biryani, porção de arroz com especiarias, pedaços de frango e castanhas-de-caju, mais uma de duas opções de guarnição: snack vada (composto de quatro bolinhos de lentilha, fritos e bem sequinhos, que lembram bastante o faláfel) ou a salada raita, que mescla tomate, cebola, hortelã e iogurte – além de muitas opções vegetarianas, como os Dosas – um grande crepe recheado com batata condimentada ou com queijo. 

Na parte líquida, além de refirgerantes e cervejas, é possível provar bebidas típicas como os lassis gelados (feitos com iogurtes, frutas e condimentos), chai (chá preto com leite e condimentos). Na sobremesa, mais sabores exóticos, como o Gulab Jamun – bolinhas de trigo e leite fritas e depois assadas em calda de rapadura. Tudo feito artesanalmente, simples, saboroso e saudável – e, creia, aprender os nomes não é tão difícil assim.


O site da casa ensina que a culinária indiana ensina que o ato de comer deve ser um processo consciente que proporcione a integração do ser como um todo. Na Índia se come com as mãos, pois na medicina Ayurvédica a digestão não começa na boca, mas nas pontas dos dedos, quando a energia sutil dos alimentos entra em harmonia com a nossa própria energia. 

Para os indianos, sabores equilibrados geram sentimentos equilibrados, o que explica o uso de uma infinidade de especiarias (aquelas que os portugueses cruzavam o mundo para ir buscar, quando acertavam o caminho), que têm também a função de facilitar a digestão e combater bactérias e outros males. 





E o grande barato de viver em São Paulo é poder observar coisas assim, vendo todas as etnias, todas as religiões e todas as exóticas tribos da Augusta juntas num pedacinho de mundo, curtindo um cinema de arte, fazendo compras tanto nas galerias quanto nos camelôs, devorando as coxinhas do boteco da esquina e – por que não? – provando uma ótima comida indiana em um fast-food. Globalização é isso aí.




Madhu – Rua Augusta, 1422. Tel: 3262-5535. Horário: Segunda a Quarta das 12h às 22h30, Quinta das 12h às 23h30, Sexta das 12h à 0h, Sábado das 13h à 1h e Domingo das 13h às 22h30.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

The Burlesque Takeover / Container Club (Consolação – São Paulo)



"O escândalo do mundo é o que faz a ofensa. E pecar em silêncio não é pecar totalmente”. (Moliére)

A frase do dramaturgo francês serve como um alerta: daqui por diante, mergulharemos na região do Baixo Augusta, em uma exótica homenagem ao mundo do burlesco e ao que esta “Sin City” pode oferecer de mais fascinante, sem cair na tentação ou em apelações baratas.
Estamos falando sobre “The Burlesque Takeover”, um projeto itinerante que na próxima sexta-feira tomará conta do “Cirque du Container”, mega-festa temática promovida periodicamente pelo Container Club.

O projeto, como o nome indica, é uma homenagem ao burlesco, uma apresentação teatral grotesca e exagerada, nascida da “Commedia dell’arte” do século XV – apresentada como uma farsa ou sátira a temas dramáticos ou aos costumes da corte – e que no século XIX ganhou ares mais eróticos com os espetáculos de saloons e cabarés como o Moulin Rouge.

Os responsáveis por isso são Sweetie Bird - estudante de balé, jazz, sapateado americano e com cursos de moda, costura, edição musical e teatro – e Demoiselle Mimi Mi – estudante de história da arte – dançarinas burlescas há anos e que já se transformaram em símbolos paulistanos, se apresentando nas casas mais badaladas da cidade, como CB, Jive, Vegas, Caos, Inferno e outras.
Soma-se a elas um time de feras, como a bailarina Lady Burly, o dançarino Sete de Ouros (único de boylesque do país), a pin-up Dinha Von Boop, a hostess Iz Delicious, os fotógrafos Luminati e Guilherme Nahes, o designer gráfico Junior Azhura e os promoters e agitadores culturais Márcio Custódio, Edson Silva e Flávia Lemos.

Acrescente a tudo isso um local muito bonito e fora do comum: o Container Club, criado no ano passado pelo empresário Magno Azevedo e pelo diretor teatral Rodrigo Pitta, no local que antes abrigava o Bar Leblon.
Com tema apocalíptico e ambiente desenhado pelo diretor de arte Theodoro Cochrane, o clube imita um container que teria sobrado depois do fim do mundo e tem referências da série/filme Twin Peaks.


Além do belo palco espelhado, da iluminação projetada com LED, das pistas de dança, do revestimento em veludo, das paredes cobertas por vegetação e da curiosa decoração com enciclopédias espalhadas, a casa apresenta ainda um incrível bar especializado em mixologia molecular, isto é, com gente especializada em preparar coquetéis diferentes, misturando bebidas e criando novas combinações no limite do equilíbrio de seus componentes.


Em dias normais a casa apresenta projetos como o Meninas do Rock – com DJs mulheres nas pick-ups – e DJs convidados como Eli Iwasa – residente do Hot Hot – e Benjamin Ferreira – de casas como D-Edge e Vegas. Eles bombardeiam seleções de disco, house, acid, grooves, eletrônico, indie, techno e sabe-se lá mais o quê. A proposta é pura diversão, sem afetações.


Se você for – e você vai – participar do The Burlesque Takeover no Cirque du Contêiner, convém dar-lhe mais alguns avisos:

Vá preparado para passar a noite entre pessoas caracterizadas como habitués dos cabarés parisienses da década de 1920;
Vá preparado para ver bailarinas e bailarinos fazerem coreografias numa barra metálica enquanto outra dançar com uma cobra viva ao seu lado;



E quanto aos pecados citados no começo deste texto, não se preocupe: tudo não passa de uma grande farsa. E se você for brasileiro e morar em São Paulo, seus pecados já foram pagos.


The Burlesque Takeover – Tel: 8244-0882. 
Container Club – Rua Bela Cintra, 483. Tel: 4305-0133.

Vá preparado para qualquer coisa, pois a sensação é de que, ali, tudo pode acontecer.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Rose Velt (Consolação / SP)



Um clima de caberet toma os ares da Praça. Atores, dramaturgos, intelectuais, estudantes e artistas de todos os tipos tomam cerveja, celebram a vida e causam uma agitação incomum na casa com as luzes coloridas. Chama a atenção de quem passa a quantidade de gente bonita, descolada e provocante – em todos os sentidos.

Trata-se do Rose Velt, bar criado há pouco mais de um ano pelos sócios Miguel Uchoa, Fábio Delduque, Sérgio Campanelli, Carlos de Oliveira, Rodolfo Vazquez e Ivam Cabral em parceria com “eles” – Os Satyros – grupo teatral diretamente responsável pelo renascimento da Praça Roosevelt e pelo ar de luxúria que domina o ambiente.

Com sua intensa programação de peças alternativas que, além dos Satyros, inclui uma penca de outros grupos, a Roosevelt se tornou o quartel general do teatro alternativo em São Paulo. Seu ar vanguardista não só envolve as salas de espetáculo, como gerou um ambiente freqüentado por gente que não está ali só para paquerar, discutir e tomar cerveja, mas sim para trocar idéias com uma turma que pensa e interfere de verdade na cidade.
Esse entorno é formado por mesinhas dos cafés dos próprios teatros, livrarias, o Papo, Pinga e Petisco (bar vizinho) e o Rose Velt, abrasileirado trocadilho com o nome da praça.

O bar é lindo. Méritos do artista plástico Fábio Delduque, um dos sócios, que sabe como poucos utilizar o estilo “luxo do lixo”, transpondo o ambiente da rua para dentro do bar, formando uma galeria urbana totalmente estranha e interessante, trash e chique.
As paredes do bar reproduzem um chão, com meio-fio, faixa de pedestres, ladrilhos hidráulicos das ruas de São Paulo, paralelepípedos, tampas de bueiros e restos de calçada da própria praça, formando uma verdadeira arqueologia metropolitana retratando o antigo, o presente e o novo, que virá com a revitalização da praça.

O pé-direito de 4,5 metros de altura cobertos de espumas de estúdio e placas de metal soma na decoração, mas contribui principalmente para a acústica da casa, já que tudo isso acontece sob um prédio residencial.
No meio de tudo, mesas vintage misturadas com outras de alumínio, cadeiras de fibra e de madeira, além de dois sofás – um preto revestido de veludo com estampas de pele de zebra e outro feito sobre um pneu de trator com almofada impressa com a calçada da cidade – disputadíssimos pelos casais e/ou turmas.

Tem ainda, claro, um palco com cortinas de veludo vermelho, estrategicamente posicionado para ser visto de qualquer canto do bar, onde rolam recitais de poesia, saraus à moda antiga e alguns pocket shows de gente bem conhecida na roda.
E tem, por fim, a iluminação, que reforça o clima dramático da casa com eletrocalhas, refletores de teatro, luminárias de bola e outras presas ao forro de veludo nas cores vinho, rosa e verde.
Tudo isso somado pode parecer uma gigantesca ode à cafonice, mas acredite, não é. Tudo é colocado com critério único e um inacreditável bom gosto, deixando o bar, realmente, muito estiloso, moderno e bonito.

Na parte gastronômica e botequeira, embora se autoproclame restaurante, a casa tem uma nítida pegada de bar. O pequeno cardápio oferece interessantes opções de comida italiana (!!!) como tagliatelli ao pesto ou lasagna romagnola, além de alguns petiscos simples e gostosos, como amendoins, castanhas, amêndoas, avelãs etc, mais comumente atacados pelo público que vai crescendo e esvaziando os baldes/geladeiras, onde ficam as cervejas, enquanto na sala de espetáculo ao lado os anfitriões concluem sua “Trilogia Libertina”, inspirada no Marquês de Sade.

A música convida: “Venha provar o vinho. Venha escutar a banda. Venha tocar sua corneta. Comece a celebrar. Venha por esse caminho. Sua mesa está à espera...”
Nesse mix maluco que homenageia a comida italiana e a bebida brasileira, não há batidas com vodka, nem drinques clássicos. Em compensação, há mais de cem tipos de cachaças, que são celebradas por todos e usadas, inclusive, nas caipirinhas.

Lá fora a lua vai ficando cada vez mais alta e a madrugada cada vez mais fria. No salão do Rose Velt, é hora de alguém subir ao palco. O ambiente está cada vez mais animado e quente.
“O quanto é bom ficar sentado sozinho em seu quarto? Venha ouvir a música tocar. A vida é um cabaret, velho amigo. Venha ao caberet.”

Rose Velt – Praça Franklin Roosevelt, 124 – Consolação. Tel: 3129-5498. Horário: Terça a quinta das 20h às 0h30, Sexta e Sábado das 20h às 2h30 e Domingo das 19h às 23h30.


Para sentir o clima do bar, segue um vídeo da cantora Lia Cordoni, gravado em um dos clássicos saraus do Rose Velt:


segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Astronete Bar (Consolação - São Paulo)



Encare a coisa da seguinte maneira: você não faz parte da multidão que vai passar horas na estrada neste Carnaval. Também não está entre os que gostam de pular com marchinhas e axés nos clubes por aí. E nem entre os que querem ficar no sofá vendo desfile na televisão.
Comemore. Você está entre os poucos que podem aproveitar um dos melhores carnavais que existem: o do Astronete, com muito rock, soul, indie, punk, new wave e nenhuma – absolutamente nenhuma – música de Carnaval.

O Astronete é um dos clubes mais descolados da badalada região da Consolação / Baixo Augusta. E não por pouco. Ali, uma discreta portinha com cortinas vermelhas dá passagem a um mundo fantástico (e estranho), onde esconde-se um espaço dividido entre bar, lounge e uma pista com palco, onde costumam se amontoar um pouco mais de 200 pessoas. Tudo decorado de um jeito meio retrô e com diversos cartazes de filmes um pouco cult, um pouco trash, um muito diferentes.
Em alguns dias é mais balada, em outros é mais bar, com eventos variados e um cardápio incomum aos clubes da região, incluindo aí até opções como os chopes Braumeister e Guiness.




Sobre os eventos, é difícil dar uma noção exata, ou mesmo próxima, do que rola por lá. Mas vou tentar dar alguns exemplos:
Quase toda semana tem “Cinetrash Astronete”, com projeção de filmes de diretores meio “marginais” como Dario Argento ou Zé do Caixão, que fazem parte de um acervo monumental de 1.200 filmes pra lá de alternativos dos donos da casa. É provável que você não conheça o que estará passando. É bem possível que você nunca tenha nem ouvido falar. Mas é certeza que você nunca esquecerá.



De vez em quando tem o “Super Bazar de Discos”, feito em conjunto com a Big Papa Records, com dezenas de expositores de discos de vinil, troca de LPs, discotecagem rolando e tudo mais, ou a “Astronete Boutique”, que vende roupas novas e usadas de marcas modernosas como À Dor Amores, By Boogie e Bella & Me.
E tem o “Neuman’s Cocktail”, um evento mensal inspirado simplesmente na revista MAD(!!), com camisetas, revistas antigas, chaveiros e até músicas ligadas ao tema!

Isso sem falar das festas como a Monster Club, com de rock, eletro e indie e talvez a mais cheia de todas, a Ácido Plástico, que homenageia a piradíssima casa dos anos 80, ou ainda uma festa calcada num rock mais eletrônico e que leva o singelo nome “P#rra!!!”.



Esse insano caldeirão de idéias sai das mentes borbulhantes de Cláudio Medusa e Noemi Santana, sua esposa.
Medusa é um DJ de rock daqueles que não encontramos mais por aí. Ele curte o gênero desde garoto a ponto de se tornar um grande colecionador, com cerca de 5 mil LPs, quase todos de rock. É ele quem seleciona das catacumbas as “pérolas esquecidas” que tanto animam os fiéis frequentadores da casa.
Noemi é bartender, hostess e, principalmente, animadora do bar. Com seus vestidos sessentistas e muitas plumas, ela recebe os clientes lembrando que estão dentro de um universo diferente. Ali o clima é de pin ups dançando sensualmente no palco, vitrolas analógicas, groove, rock n’roll e diversão.




Se você já se animou, grave a programação de Carnaval:
Sexta é noite de Shakesville SP!, com soul music, boogaloo e rock ‘n roll vindo direto dos vinis.
No sábado tem Discotexxx, festa com hits e novidades do rock, punk e disco.
No domingo, uma edição especial de Viva El Roque, festa itinerante que já passou por Jive, CB e Inferno e que lota a casa com muitos rocks, punks e grooves das décadas de 60 as 90.
Segundona é vez da Veneno, com muito groove, soul, funk, latin, brasa, disco e hip-hop, além de alguns filmes malucos rolando no telão.




Na terça o inferninho da Mathias Ayres fecha as portas. Lá não é Carnaval, esqueceu? É dia, então, de tirar a fantasia e curtir as últimas horas de sossego na cidade.

Astronete Bar – R. Matias Ayres 183 – Consolação/S.Paulo – Tel: 3151-4568.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Papo, Pinga e Petisco (Consolação – São Paulo)



O céu é cheio de uivos, latidos e fúria dos cães da praça Roosevelt, avisa o Jarbas Capusso Filho. Mas se você quer conhecer São Paulo, vá correndo pra lá. Chegue à noitinha, levando um pouquinho de dinheiro e muita tranqüilidade. A promessa de uma noite diferente e muito interessante certamente será cumprida.


Se eu escrevesse isso há 10 anos atrás iam querer me internar num hospício. E com razão. A praça Roosevelt era o resumo da degradação da cidade grande, totalmente dominada por trombadinhas, pontos de tráfico, prostituição e muito, muito lixo.



A “retomada das calçadas” começou em 2000, quando “Os Satyros” chegaram com seus atores cheios de idéias, motivação e luxúria. Alguns teatros que já estavam no pedaço, como o Studio 184, o N.Ex.T, o Espaço Cenográfico e até mesmo o Arena revigoraram-se. E abriram espaço para a vinda do Teatro X, do Teatro do Ator e da Cia do Feijão, até culminar com a chegada da troupe dos Parlapatões. 



Graças a todos eles, passear na Roosevelt numa noite de sexta-feira é testemunhar um processo inacreditável de transformação. O entra-e-sai dos teatros, as mesinhas na calçada e as rodas de bate-papo formam o novo cenário. 



É no meio desse turbilhão de manifestações artísticas que vamos encontrar, finalmente, o “Papo, Pinga e Petisco”, um barzinho aconchegante e descolado, rústico e harmonioso, com algumas poucas mesinhas na calçada e repleto de histórias pra contar.





Um aviso de antemão: quando você atravessa a pequena porta de entrada do bar, você sai em outra época, como num túnel do tempo. É verdade! Não se trata de um bar temático ou forçadamente decorado para lembrar velhos tempos. Nada disso. Você vai parar num período da história paulistana onde tudo é mais “humano”, as mesas são de madeira e cada uma de um estilo e tamanho, os objetos antigos espalhados por todos os cantos estão à venda mas também fazem parte da casa e a música vem de “long-plays” meticulosamente escolhidos “para tocar o que nenhum outro lugar toca”. 



A estranha simbiose entre os artistas, estudantes, jornalistas, senhoras e malucos em geral somada a infinidade de quinquilharias, discos e livros usados, geladeiras antigas e uma cultuada mesa de bilhar dão uma agradável sensação de conforto e aconchego. Some-se a isso, ainda, a “pessoalidade” com que o casal Doca e Arlete recebem os client... quer dizer, os amigos.





“Tudo no ‘PPP’ tem um cheiro, um gosto e uma história”, explica alguém que eu não sei quem é, mas que já faz parte da conversa. É verdade. E quanta história... 



Há 50 anos era inaugurada ali, por Djalma Ferreira, autor de grandes sucessos e dono da boate Drink, em Copacabana, a boate Djalma, que viria a ser uma das mais influentes casas noturnas da cidade, lançando diversos artistas, como Jair Rodrigues, como “crooner”. 



Pouco tempo depois, comprada por Luiz Vassalo e Paulo Kaloubek, a boate de apenas 250 metros quadrados consolidou um elenco fantástico de artistas e foi palco de um evento até hoje célebre e invejável: o primeiro show de Elis Regina em São Paulo, acompanhada de Silvio César, em 1964.



Aquele tempo se foi, mas o espírito do lugar permaneceu. Nos anos 90, Doca comprou o ponto e o transformou em uma loja de usados e antiguidades e quando, em 2004, resolveu abrir o bar, o PPP já era uma mistura perfeita entre a noite badalada e o estilo retrô das duas casas que fizeram a história do lugar. Aí foi só uma questão de abrir a porta e deixar o povo entrar.





E o povo entrou. E como entrou. Tanto que só consegui conhecer o bar na terceira tentativa, porque está sempre lotado. Mas valeu a espera, pelo menos pela grande variedade das tais pingas (para todos os gostos: das clássicas mineiras às suaves de frutas), pelo patê de gorgonzola (um dos tais petiscos) e pelo papo descontraído e cultural com o Ronildo, que a pouco tempo ocupa algumas horas de sua noite como garçom e outras do dia como webdesigner. 



Agora que o nome você já decorou (se quiser, pode chamar de PPP ou “Bar do Doca”, a gente entende), programe-se para fazer o roteiro completo: confira uma das tantas peças em cartaz nos teatros da região e aproveite para sugar a cultura da Roosevelt num lugar diferente, em boa companhia e, claro, com muito papo, pinga e petisco.



Papo, Pinga e Petisco – Praça Franklin Roosevelt 118, Consolação, SP. Tel. 3815-7200.
Horário: Segunda a Quinta das 18h às 0h30. Sextas e Sábados das 18h às 2h30.




Em homenagem à praça e ao seu público, segue um documentário feito pelos Satyros sobre a 10ª edição das Satyrianas (2009). O evento, que anualmente promove 78 horas ininterruptas de teatro e festa na Praça Roosevelt, é daquelas coisas que só acontecem em São Paulo: