quinta-feira, 28 de julho de 2011

Pastel da Maria (Pinheiros – São Paulo)



Olha o pastel! Quem vai querer? Carne, queijo, pizza, calabresa, frango, bauru, quatro queijos, palmito, escarola e camarão! Olha o pastel!

Não, esse chamado tão típico das feiras livres nunca aconteceu. Não na barraca do pastel. Ela é a única barraca de qualquer uma das 900 feiras semanais da cidade que não precisa anunciar seu produto. Todo mundo o conhece. Todo mundo gosta.

Paulistano adora pastel de feira. Por isso já adotou o termo “pastel de feira” como sinônimo de um salgado simples mas especial, acessível, saboroso, com tamanho acima da média e bastante recheio.
Paulistano adora pastel de feira. Tanto que a cidade consome cerca de 9 milhões de pastéis por mês, divididos em uma variedade criativa que chega a envolver centenas de recheios diferentes.
Paulistano adora pastel de feira. A ponto de a prefeitura realizar um concurso anual, cercado de regras e expectativas, para eleger o melhor pastel de feira da cidade.

Esse concurso conta com o voto popular e com a análise de um júri formado por grandes chefs. Ele avalia, além da qualidade da massa e do recheio, detalhes como a higiene da barraca, o uniforme dos funcionários, o asseio na manipulação da comida, o ponto do óleo etc.
E foi exatamente este concurso que, em 2009, elegeu, entre 731 candidatos, o Pastel da Maria, como o melhor de São Paulo. E agora, em 2011, lhe deu o título pela segunda vez.

Maria é Maria Kuniko Yonaha, japonesa que vive em São Paulo desde os 11 anos de idade, quando começou a trabalhar com pastéis na barraca de seus pais, da qual tornou-se dona nos anos 70. Por mais de quarenta anos veio aperfeiçoando cada detalhe de seu negócio, consagrado antes mesmo do concurso pelo público fiel que freqüenta as feiras em Perdizes e Santana (às quartas), no Parque Novo Mundo (aos sábados), na Mooca (aos domingos) e no Pacaembu (terças e quintas).

Como é típico da cultura japonesa, Maria aproveitou o reconhecimento de seu trabalho para investir em mais trabalho. E montou, em parceria com sua filha Érika e o genro Marcos Matsumoto, uma pastelaria com ponto fixo, que fica em uma loja, e não numa barraca itinerante.
A novidade traz uma série de vantagens. As primeiras a chamar a atenção são o atendimento rápido e eficiente – comum nas feiras, mas não em lanchonetes – e a impecável limpeza do local – uma verdadeira obsessão dos funcionários, impossível de se conseguir nas ruas e tão incomum em outras pastelarias por aí.

É fácil observar os tais “pequenos detalhes que fazem uma enorme diferença” para outras casas do ramo, como a réplica da barraca da Maria, onde funciona a cozinha (com tudo preparado na frente dos clientes), a decoração com luminárias em vermelho e branco, a potente coifa que evita que a fumaça vá para o salão, os caprichados aventais dos atendentes, o diferente molho que leva salsinha como ingrediente principal, o conforto das mesinhas etc.

Há ainda outras duas vantagens, que são as que mais me chamam a atenção: Primeiro: o caldo de cana, que forma a dupla perfeita com o pastel, já está ali e, portanto, não é preciso ficar perambulando entre uma barraca e outra com um copo em uma mão e um pastel em outra. Segundo: o horário vai até à noitinha e só fecha no domingo, o que possibilita que você não tenha que escapar do serviço ou ter que acordar mais cedo no sábado para conseguir o seu pastel.

Pois é, não falei do pastel. E precisa? Se paulistano adora pastel de feira e o da Maria é o melhor pastel de feira de São Paulo, acho que ele dispensa maiores detalhes. Fique sabendo então que, além de todas as vantagens que falei, na loja ele é montado na hora e é um pouquinho mais “caprichado” que na feira. Precisa mais?

Pastel da Maria Rua Fradique Coutinho, 580 – Pinheiros. Tel: 2373-7071 

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Ao Mirante (São Vicente / SP)



Eu sou do tempo em que os garotos sonhavam em ser como o Menino do Rio e não como o Bill Gates. Todos queriam ser Juba ou Lula, da Armação Ilimitada, ou o saudoso Pepê, campeão de vôo livre, e não um rico banqueiro ou um poderoso político.
A idéia era ter uma casinha na areia e viver a vida sobre as ondas, surfando, voando de asa delta e pilotando por trilhas desconhecidas, bem longe dos shopping centers, da segurança dos condomínios e das parafernálias eletrônicas modernas. O plano era mergulhar no mundo fisicamente e não virtualmente.

Provavelmente por isso, um dos meus lugares mais queridos nesse mundão sempre foi o morro do Voturuá, na divisa entre Santos e São Vicente, de onde se avista grande parte do litoral, além de uma imensidão de céu e mar que parece não ter fim. Um cenário tão difícil de descrever que fica mais fácil apelar para as fotos do Leandro (www.leandrogomesfoto.com).

É deste lugar que partem as asas e os paragliders que enchem o céu da cidade e que tornam irresistível a tentação de aprender a voar sozinho ou pelo menos pegar uma caroninha num vôo duplo. Ali, curti voar com o Alê, ir ao luau do Baratta com a Marcela, fazer amigos como o Capiau e o Ramon e passar infinitas horas sentado sozinho, curtindo o silêncio e admirando a incansável paisagem. 
Mas ainda faltava alguma coisa ali. Tudo bem que a dificuldade do acesso e a total falta de infra-estrutura davam um charme a mais ao local e impossibilitava que a rampa ficasse muito cheia de gente, mas ela impedia uma permanência maior e mais confortável, o acesso sem carro e o vôo de quem não tivesse uma carona.
A primeira mudança veio há 9 anos, com a inauguração do teleférico que liga a praia do Itararé ao topo do morro, bem ao lado da rampa. O agradável passeio leva pouco mais de 10 minutos para percorrer 560 metros de distância e subir os 170 de altura, passando bem perto da mata que cobre a encosta do morro.
A segunda, veio com uma grande reforma no topo do morro, que cercou áreas perigosas, aumentou o calçamento, instalou bancos e delimitou a rampa de vôo livre para que amigos e turistas não atrapalhem os pilotos.

Por fim, veio, há um ano e meio, a inauguração do “Ao Mirante”, restaurante com jeitão de boteco, especializado em peixes e frutos do mar. Ele preencheu um vazio que ali havia e que era eventualmente preenchido por fracas lanchonetes e barracas que nunca duravam muito tempo. E veio para ficar.
Confesso que nunca provei os pratos, mas a visão deles – muito bonitos e fartos – é tentadora. Por questão de gosto, prefiro ficar nos petiscos, que são muitos. A coisa vai desde as básicas batatas, mandiocas, frangos e bolinhos até as especialidades do mar, como lula, camarão, iscas e caranguejos, passando por porções inesperadas como shimeji e alheiras. Para acompanhar, cervejas, sucos e a bebidas clássicas, além de uma grande e também surpreendente variedade de coquetéis.

A partir daí a opção é sua. Eu vou escolher uma mesa, beliscar alguma coisa, tomar uma caipirinha, ver os paragliders subirem no céu, as asas mergulharem no ar, ver novamente a paisagem e exclamar pela milésima vez: como o mundo é bonito dali de cima!

“No começo, voar dá medo. É estranho ver que é suficiente o desejo de voar. Meu pesado corpo mais-leve-que-o-ar? Como se sustenta? E na hora de descer? E se eu me machucar? E a dor? Percebi que essas inseguranças são incompatíveis com o vôo. Não se pode voar pensando nisso. Não pense. Voe.
Voar serenamente, silenciosamente. Ver de longe as pessoas indo pra lá e para cá, observar o fluxo dos carros, conhecer os tetos das casas. Brinquedos esquecidos no fundo de uma piscina. Lá na frente, um parque de diversões com uma roda-gigante. Será possível ir tão alto? Sim, é possível, mas não é necessário. Não é necessário quebrar nenhum recorde de velocidade, altura, tempo. Só voar.
Acordei. Mas a sensação veio comigo: era preciso voar. Era preciso ser livre. E, com a consciência de um ser flutuante, serenar a liberdade. Continuar voando, mesmo de olhos abertos.” (Volponi)


Ao Mirante – Morro do Voturuá, s/nº - São Vicente/SP. Tel: 3468-0326.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

The Burlesque Takeover / Container Club (Consolação – São Paulo)



"O escândalo do mundo é o que faz a ofensa. E pecar em silêncio não é pecar totalmente”. (Moliére)

A frase do dramaturgo francês serve como um alerta: daqui por diante, mergulharemos na região do Baixo Augusta, em uma exótica homenagem ao mundo do burlesco e ao que esta “Sin City” pode oferecer de mais fascinante, sem cair na tentação ou em apelações baratas.
Estamos falando sobre “The Burlesque Takeover”, um projeto itinerante que na próxima sexta-feira tomará conta do “Cirque du Container”, mega-festa temática promovida periodicamente pelo Container Club.

O projeto, como o nome indica, é uma homenagem ao burlesco, uma apresentação teatral grotesca e exagerada, nascida da “Commedia dell’arte” do século XV – apresentada como uma farsa ou sátira a temas dramáticos ou aos costumes da corte – e que no século XIX ganhou ares mais eróticos com os espetáculos de saloons e cabarés como o Moulin Rouge.

Os responsáveis por isso são Sweetie Bird - estudante de balé, jazz, sapateado americano e com cursos de moda, costura, edição musical e teatro – e Demoiselle Mimi Mi – estudante de história da arte – dançarinas burlescas há anos e que já se transformaram em símbolos paulistanos, se apresentando nas casas mais badaladas da cidade, como CB, Jive, Vegas, Caos, Inferno e outras.
Soma-se a elas um time de feras, como a bailarina Lady Burly, o dançarino Sete de Ouros (único de boylesque do país), a pin-up Dinha Von Boop, a hostess Iz Delicious, os fotógrafos Luminati e Guilherme Nahes, o designer gráfico Junior Azhura e os promoters e agitadores culturais Márcio Custódio, Edson Silva e Flávia Lemos.

Acrescente a tudo isso um local muito bonito e fora do comum: o Container Club, criado no ano passado pelo empresário Magno Azevedo e pelo diretor teatral Rodrigo Pitta, no local que antes abrigava o Bar Leblon.
Com tema apocalíptico e ambiente desenhado pelo diretor de arte Theodoro Cochrane, o clube imita um container que teria sobrado depois do fim do mundo e tem referências da série/filme Twin Peaks.


Além do belo palco espelhado, da iluminação projetada com LED, das pistas de dança, do revestimento em veludo, das paredes cobertas por vegetação e da curiosa decoração com enciclopédias espalhadas, a casa apresenta ainda um incrível bar especializado em mixologia molecular, isto é, com gente especializada em preparar coquetéis diferentes, misturando bebidas e criando novas combinações no limite do equilíbrio de seus componentes.


Em dias normais a casa apresenta projetos como o Meninas do Rock – com DJs mulheres nas pick-ups – e DJs convidados como Eli Iwasa – residente do Hot Hot – e Benjamin Ferreira – de casas como D-Edge e Vegas. Eles bombardeiam seleções de disco, house, acid, grooves, eletrônico, indie, techno e sabe-se lá mais o quê. A proposta é pura diversão, sem afetações.


Se você for – e você vai – participar do The Burlesque Takeover no Cirque du Contêiner, convém dar-lhe mais alguns avisos:

Vá preparado para passar a noite entre pessoas caracterizadas como habitués dos cabarés parisienses da década de 1920;
Vá preparado para ver bailarinas e bailarinos fazerem coreografias numa barra metálica enquanto outra dançar com uma cobra viva ao seu lado;



E quanto aos pecados citados no começo deste texto, não se preocupe: tudo não passa de uma grande farsa. E se você for brasileiro e morar em São Paulo, seus pecados já foram pagos.


The Burlesque Takeover – Tel: 8244-0882. 
Container Club – Rua Bela Cintra, 483. Tel: 4305-0133.

Vá preparado para qualquer coisa, pois a sensação é de que, ali, tudo pode acontecer.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Adega da Esquina (Alto de Pinheiros - São Paulo)



Todo bairro que se preza, do mais luxuoso ao mais humilde e por mais residencial que seja, tem pelo menos três comércios: uma pequena venda onde se compra quase todo tipo de coisa, uma farmácia cujo farmacêutico já cuidou da maioria dos moradores, e um boteco.

Esse boteco tem duas funções básicas: servir de ponto de encontro para os vizinhos e quebrar o galho para uma saidinha rápida de casa sem precisar se locomover até os bairros mais agitados, evitando as perturbações do trânsito, os assaltos e o achaque dos flanelinhas.
Teoricamente, este boteco não precisa ter nada demais. Basta que tenha cerveja gelada, três ou quatro opções de bebidas diferentes e alguns petiscos suficientemente engolíveis para matar a fome. A Adega da Esquina poderia ser só isso, que ninguém ia reclamar. Mas não é só isso.



Na improvável esquina de uma rua que é uma rápida passagem de carros e ônibus com uma outra que liga a uma praça e a um labirinto de ruazinhas, exatamente onde funcionava uma oficina mecânica e, por sorte, bem perto da minha casa, Roberto Pamplona e Carla Pereira montaram, há apenas 4 meses, um dos bares mais simpáticos e interessantes de toda a região.
O local é simples, como um bar/adega deve ser, e com um cardápio bem enxuto, principalmente na parte dos “comes”. Mas quem se importa? O interesse do público é voltado para as cervejas, e é aí que, surpreendentemente, a coisa começa a ficar boa.



A pequena casa esconde uma incrível carta de cervejas importadas, com nomes dos mais variados tipos e procedências, a maioria com preços abaixo da média da cidade. Há desde nomes mais conhecidos como a alemã Erdinger e a irlandesa Guiness até as mais exóticas como a russa Baltika (uma Lager de sabor lupulado), a inglesa Fullers Honey Dew (com adição de mel), a belga Kriek Boon (que é feita através de fermentação espontânea com suco de cereja) e a austríaca Eggenberg Samichlauss que, com seus 14% de teor alcoólico, é considerada a Lager mais forte do mundo.
Bastava isso para a vizinhança já se dar por muito satisfeita, mas, para o simpático casal, era pouco. Então, de dois meses para cá, o bar passou a oferecer música ao vivo - de início uma vez por semana, mas hoje, atendendo aos pedidos dos clientes, o som rola de quinta a sábado.



E quem pensa que o esquema é o tradicional banquinho, violão e cantor desconhecido cantando as músicas de sempre, engana-se completamente. O som é de primeiríssima linha, como o estiloso jazz do Anderson Quevedo Quarteto, a bossa nova e a MPB da Lu Barros ou o jazz para lá de inusitado do FreeKJazz, que interpreta com levada jazzística clássicos do rock de Pink Floyd a Iron Maiden enquanto se espreme entre geladeiras, garrafas e sacos de carvão que formam o fundo do cenário.
Quem toca por lá é o Neymar Pires Trio, que já levou convidados como o Arismar do Espírito Santo. E quem estava botando a casa para dançar nesta semana mesmo era o velho e bom Jai Mahal, pioneiro da Vila Madá e “o homem do reggae” no Brasil, acompanhado pelos excelentes Pacíficos DuBanda e por ninguém menos que Simone Sou, ícone da percussão brasileira, que acompanha o Chico César e já tocou com Itamar Assumpção, Mutantes, Zeca Baleiro, Nando Reis e tantos outros.



E com tudo isso o esquema é de casa de amigos, de festa na esquina, de botequim de vila. Você chega e se enturma com os outros clientes, com os músicos, com os donos. Pede uma cerveja, uns queijinhos, outra cerveja. E depois vai embora cantando, com mais amigos,  mais leve e feliz. A vida é simples. A gente é que complica.

Adega da Esquina – Rua Caminha de Amorim, 409 – Alto de Pinheiros – São Paulo. Tel: 2667-4884 / 2667-7488. Horário: Terça a Sábado das 18h à 1h.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Acarajé da Inês (Vila Medeiros / São Paulo)



Diz a lenda que o acarajé é um alimento sagrado oferecido a Oyá, também conhecida como Yansã, deusa africana que controla ventos, tempestades, relâmpagos e o fogo. Conta-se que, após se unir a Xangô, Yansã foi enviada por ele à terra dos baribas em busca de um preparo que, ingerido, lhe desse o poder de cuspir fogo. Com sua ousadia, a deusa provou do líquido e ganhou o poder.
É daí que vem uma história cheia de simbolismos e também o seu nome, já que na África “je” quer dizer “comer” e “akará” significa “bola da fogo” (e você que achava que era a sensação da pimenta...).


Considerado uma comida sagrada, antes, o acarajé só podia ser feito e servido pelas filhas de Iansã e Xangô, mas por causa da popularização do bolinho em todo o Brasil, hoje é servido por baianas de todas as religiões e até por homens. O interessante, no entanto, é que todos preservam um respeito inabalável pelos rituais que cercam o preparo do quitute, mantendo, inclusive, seu curioso formato oval, moldado na colher de pau e que imita o cágado, animal que é considerado o preferido de Xangô.


Alheio a tudo isso, me preocupo realmente é com o fato de eu adorar acarajé e ter uma dificuldade danada de encontrar boas opções, mesmo numa capital gastronômica como São Paulo. Foi o que me levou a viajar até a Vila Medeiros, onde fica o Acarajé da Inês.
Quase vizinho do famoso Mocotó (do qual falaremos um dia...), o Acarajé da Inês é um oásis de tranqüilidade – ou um pedacinho de Bahia – numa agitada esquina do bairro. É um mergulho no clima baiano que começa do lado de fora, com a pintura da fachada que aproveita o declive da ladeira para imitar o casario típico do Pelourinho, passa pelo “perfume” da comida que não poupa quem passa pela porta e continua em seu interior, num estilo botecão simples, decorado com toalhas de chita, enfeites de palha e folhas de bananeira e com um simpático quiosque coberto de sapé, onde são preparados sucos e coquetéis.

Ali nosso querido acarajé encontra o respeito que merece. Reconhecido como Patrimônio Cultural da Bahia e do Brasil, ele é feito de forma artesanal, com o feijão fradinho triturado à mão e amassado na hora até formar uma massa bem leve, frito no azeite de dendê e bem recheado com vatapá, caruru e camarão seco. Ele chega à mesa quente e crocante em duas opções: unitário ou em porção de dez bolinhos.
Mas apesar do acarajé ser a grande atração da casa, o cardápio desfila uma baianidade sem fim. São abarás, moquecas, bobós e escondidinhos. São cozidos baianos, dobradinhas, mariscadas, baiões, arrumadinhos e sarapatéis. Para quem só quer beliscar, iscas de peixe, lulas, porquinhos e polvos. E para quem não dispensa a sobremesa, cocadas de coco queimado, ambrosias e pudins de tapioca.


A culpa disso tudo é da Sra. Maria Inês dos Santos, a Inês, uma simpatissíssima e tímida senhora baiana que, como tantas outras, veio para São Paulo ganhar a vida e mostrar ao mundo o que é que a Bahia tem. E trabalhando durante dez anos como empregada doméstica, ela sustentou a idéia de – um dia – montar seu restaurante, onde recriaria as delícias da sua terra.
Primeiro, passou a utilizar seus domingos (o único dia livre da semana) para vender acarajés na feira. Depois, passo a passo, passou a fazê-los em um modesto bar bem pertinho de onde se encontra hoje, improvisando em um fogão de duas bocas e vendendo-os como prato feito.


Há alguns poucos anos, com a ajuda da filha Flávia – que trouxe também consigo uma boa experiência no ramo hoteleiro, incluindo aí um aperfeiçoamento na Europa – construiu os alicerces de seu sonho, reformando o ponto escolhido, trabalhando o local e o deixando-o com a cara que tinha em sua imaginação: um local simples, com boa comida, bons amigos e que ajuda a aplacar um pouquinho a saudade da Bahia.


Na vergonhosa época do Brasil colonial, o acarajé era vendido nas ruas da Bahia em tabuleiros que as escravas equilibravam sobre suas cabeças, enquanto iam cantando pregões para atrair a freguesia. Freguesia que até hoje só fez crescer, afinal, além do preço acessível e do sabor delicioso, a simpatia das baianas sempre foi um tempero a mais.
Corajosas, independentes e empreendedoras, essas mulheres foram aos poucos arriando seus tabuleiros, típico hábito africano, que passou a significar também uma luta contra a infâmia da escravidão que imperava no país.
Conta-se que com as vendas da iguaria, muitas delas conseguiram comprar sua própria liberdade. Com o mesmo acarajé, Inês deu vida ao seu sonho. Epa-Hei Oyá!

Acarajé da Inês – Avenida Nossa Senhora do Loreto, 1.144 – Vila Medeiros / SP. Tel: 2982-1243. Horário: Terça a Sábado das 12h às 22h, Domingo das 12h às 17h.






Diz-se também que o nome "acarajé" pode ser uma versão reduzida do pregão cantado pelas escravas, no início do século XIX. O músico Dorival Caymmi reproduziu livremente, em sua música “A Preta do Acarajé”, um deles: "O acará jé ecó olailai ô", que seria o chamado para que o freguês comprar o acarajé.
Abaixo, segue uma animação visual da música, cantada pelo baiano mais baiano da Bahia e por Carmem Miranda: