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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Adega Gaúcho (Bela Vista – São Paulo)



Em Portugal, há um antigo bordão que diz: “no dia de São Martinho, vai à adega e prova o vinho”.
Fui fuçar a história de São Martinho e descobri que ele nunca teve nada a ver com o vinho. O que ocorre é que nas terras lusas os vinhos começam a ser produzidos entre setembro e outubro e o dia de São Martinho – 11 de novembro – fica no período no qual já se deve começar a verificar o resultado da produção.

Como essa história toda parece não ter lá muito sentido e menos sentido ainda teria você esperar até novembro para tomar vinho, vá assim que puder conhecer a Adega Gaúcho, que fica bem no meio da cidade e é um lugar, no mínimo, inesperado.
Posso dizer que, à primeira vista, mesmo se eu passasse diariamente na porta, é provável que eu nunca entrasse. Entrei por recomendação da Elaine e do Creso, que freqüentam a casa há muito tempo e sempre contam maravilhas sobre ela.

Aí descobri que a adega foi criada há 33 anos no bairro da Bela Vista pelo Sr. Álvaro Renato e seu cunhado, cuja parte foi comprada pelo então sócio após a sua morte.
Como bom gaúcho, o Sr. Álvaro sempre foi um apreciador de vinhos e um grande conhecedor dos produtos da região. E na sua adega, sempre deu prioridade aos produtos da sua terra.
A Adega Gaúcho nasceu, cresceu e viveu como adega mesmo mas, por insistência da clientela que se amontoava em volta do balcão, em 2001 ela ganhou algumas mesas feitas com os próprios barris de vinho e umas banquetas de madeira. O curioso é que o Sr. Álvaro lembra da data exata por causa do ataque às torres gêmeas!

Freqüentada pelos antigos moradores do Bexiga, pelos universitários da região, por senhores engravatados de outros cantos da cidade e pelos grupos mais improváveis (como o pessoal do “Vermes de Jacob”, um motoclube de roqueiros evangélicos!), a casa conquista pela simplicidade – coisa rara em lugares especializados em vinho, que tendem a ser... digamos, um tanto esnobes.
Evitando as marcas importadas e caras, o Sr. Álvaro oferece ali cerca de 30 a 40 vinhos, todos nacionais, de diversos tipos e produtores diferentes.
Mas a estrela mesmo é o vinho da casa, mais barato, porém muito gostoso. Ele é produzido em Caxias do Sul e trazido nos próprios barris, sendo vendido em taças, jarras ou mesmo envasados para viagem. É ele que é largamente consumido por todos, normalmente acompanhado de um queijo, de um salame e de muitas, muitas histórias.

Uma delas quem me conta é o Paulo Pedroso, antigo freqüentador, que relata o dia em que um dos clientes passou por lá no final do trabalho e, cansado, acabou exagerando no vinho e dormiu no balcão. Ao acordar, começou a tirar a roupa enquanto todos observavam atônitos. Quando começou a desabotoar a calça alguém deu um grito e ele se assustou, explicando-se imediatamente: “Pensei que já estava em casa...”
Entre tantas histórias, aproveite tudo com moderação, mas aproveite. Afinal, como nos lembra o escritor Fernando Sabino, “Cristo não consagrou a água, o leite ou a coca-cola. Consagrou o pão e o vinho, como alimentos do corpo e do espírito”.

Adega Gaúcho – R. Humaitá 291 – Bela Vista / São Paulo. Tel: 3112-0613. Horário: Segunda a Sexta das 8h às 22h; Sábado das 8h às 20h.


Na saideira, ainda me contam a história do mineirinho em uma degustação de vinhos, que é mais ou menos assim:
- Hummm... 
- Hummm... 
- Eca!!! 
- Eca?! Quem falou Eca? 
- Fui eu, sô! O senhor num acha que esse vinho tá com um gostim estranho? 
- Que é isso?! Ele lembra frutas secas adamascadas, com leve toque de trufas brancas, revelando um retrogosto persistente, mas sutil, que enevoa as papilas e lembranças tropicais atávicas... 
- Puta que pariu sô! E o senhor cheirou isso tudo aí no copo?! 
- Claro! Sou um enólogo laureado. E o senhor? 
- Se besta, eu não! Sou isso não senhor!! Mas que isso aqui ta me cheirando iguarzinho à minha egüinha Gertrudes depois da chuva, isso tá! 
- Ai, que heresia! Valei-me São Mouton Rothschild! 
- O senhor me desculpe, mas eu vi o senhor sacudindo o copo e enfiando o narigão lá dentro. O senhor está gripado, é? 
- Não, meu amigo, são técnicas internacionais de degustação entende? Caso queira, posso ser seu mestre na arte enológica. O senhor aprenderá como segurar a garrafa, sacar a rolha, escolher a taça, deitar o vinho e, então... 
- E intão moiá o biscoito, né? Tô fora, seu frutinha adamascada! 
- O querido não entendeu. O que eu quero é introduzi-lo no... 
- Mais num vai introduzi mais é nunca! Desafasta, coisa ruim! 
- Calma! O senhor precisa conhecer nosso grupo de degustação. Hoje, por exemplo, vamos apreciar uns franceses jovens... 
- Hã-hã... Eu sabia que tinha francês nessa história lazarenta... 
- O senhor poderia começar com um Beaujolais! 
- Num beijo lê, nem beijo lá! Eu sô é home, safardana! 
- Então, que tal um mais encorpado? 
- Óia lá, ocê tá brincano com fogo... 
- Ou, então, um suave fresco! 
- Seu moço, tome tento, que a minha mão já está coçando, de vontade de meter um tapa na sua cara desavergonhada! 
- Já sei: iniciemos com um brut, curto e duro. O senhor vai gostar! 
- Num vô não, fio de um cão! Mas num vô, memo! Num é questão de tamanho e firmeza, não, seu fióte de brabuleta. Meu negócio é outro... 
- Então, vejamos, que tal um aveludado e escorregadio? 
- E que tal a mão no pédovido, hein, seu fióte de Belzebu? 
- Pra que esse nervosismo todo? Já sei, o senhor prefere um duro e macio, acertei? 
- Eu é qui vô acertá um tapão nas suas venta, cão sarnento! Engulidô de rôia! 
- Mole e redondo, com bouquet forte? 

- Agora, ocê pulô o corguim! E é um... e é dois... e é treis! Num corre, não, fiodaputa! Vorta aqui que eu te arrebento, sua bicha fedorenta!... 


Por fim, um pouco do gaúcho mais famoso do mundo:



quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Maripili (Santo Amaro – São Paulo/SP)



Se você gosta de conhecer outras culturas e provar pratos e petiscos autênticos de diversos países, você tem duas opções: viajar pelo mundo ou morar em São Paulo.
Só que esta segunda opção traz algumas armadilhas, como no caso da cozinha espanhola. Aos mais desavisados é possível acreditar que todo espanhol é rico e só come lagosta e paella.

Graças ao Dario Taibo, essa minha ignorância pôde ser superada. Dario é paulista, filho de galegos e morou dez anos em Madrid, onde provou diariamente dos pequenos prazeres do país.
Quando voltou, trouxe arraigada a idéia de reproduzir aqui exatamente o que mais apreciava por lá – a comida simples do dia a dia e os saborosos petiscos servidos nas tabernas hibéricas.
Assim nasceu o Maripili – diminutivo de “Maria Del Pilar”, nome pra lá de comum entre os espanhóis – uma autêntica “tasca” despretenciosa que serve “tapas”, pratos simples e bebidas em uma casinha propositalmente instalada em um pedaço tranqüilo de Santo Amaro, longe do agitado circuito gastronômico paulistano.

Com o intuito de manter a informalidade e a intimidade com os clientes, montou o salão com apenas seis mesas e um balcão com algumas banquetas, do que o Christian e a Karina dão conta com muita agilidade e simpatia.
Para deixar claro o objetivo da casa, decorou tudo com referências à Espanha, mas com o devido cuidado de não transformá-lo em um espaço temático.
Primeira boa surpresa: a aparente simplicidade e o despojamento da casa escondem uma cozinha estrelada e afinadíssima. Capitaneada pelo chef Luiz Macedo, que já atuou em conceituados restaurantes da cidade, ela oferece sabores premiados e que retratam, de maneira fiel, a cultura gastronômica da Espanha.
O exíguo cardápio estampa apenas dois pratos principais: a picante dobradinha e o rabo de boi cozido no vinho tinto guarnecido de pimentão, berinjela e tomate assados ao azeite, carros-chefe da casa. Mas, uma lousa na parede e outra do lado de fora mostram as sugestões do dia, que são diversas. Mas nem é preciso chegar a elas.

Como se trata mais de um bar do que propriamente um restaurante, os petiscos são ótimos, com muitos frios de alta qualidade e vários embutidos, como o fuet, o chorizo e a sobrassada – todos deliciosos – que são entregues diariamente por um senhor espanhol.
Há ainda diversas “tapas”, como o gazpacho (sopa fria à base de tomate), o revuelto de setas (um tipo de omelete com shitake), o pisto (molho grosso de tomate com pimentão) ou a tortilla de batata, uma das mais pedidas.
E tudo sem fazer concessões ao gosto local ou “abrasileirando” pratos. O que, em nome da tipicidade, também faz um grande bem ao cenário gastronômico de São Paulo.
Para acompanhar tudo isso, uma bela carta de vinhos, com opções em taças e garrafas de vinhos espanhóis, franceses, argentinos e portugueses, entre outros.

E aí, mais uma agradável surpresa. Dario Taibo é também um conceituado enólogo e diretor da “Sociedade da Mesa”, ou “Sociedade do livre exercício dos prazeres da mesa”, um clube de amantes do vinho.
Falando em nome do clube, Taibo é também um dos poucos a dizer todas as verdades sobre o vinho e a tentar “desmitificar” seu consumo, fazendo com que possamos apreciá-los sem “frescuras” ou “endeusamentos”.
Com isso, assim como todo o cardápio, a carta de vinhos do Maripili é simples e direta. Boa e honesta. É, tanto nas opções como nos preços, uma das melhores alternativas da cidade.

Maripili – R. Alexandre Dumas, 1.152, Santo Amaro, S.Paulo.Tel: 5181-4422.
Horário: Terça a Sexta das 12h às 22h, Sábado das 12h às 16h e das 19h às 22h, Domingo das 12h às 16h.


Como não falei em doces, reproduzo aqui a matéria feita pela Jovem Pan com o chef Luiz Macedo e o preparo da Natilia, única sobremesa da casa: