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quarta-feira, 20 de julho de 2011

Ao Mirante (São Vicente / SP)



Eu sou do tempo em que os garotos sonhavam em ser como o Menino do Rio e não como o Bill Gates. Todos queriam ser Juba ou Lula, da Armação Ilimitada, ou o saudoso Pepê, campeão de vôo livre, e não um rico banqueiro ou um poderoso político.
A idéia era ter uma casinha na areia e viver a vida sobre as ondas, surfando, voando de asa delta e pilotando por trilhas desconhecidas, bem longe dos shopping centers, da segurança dos condomínios e das parafernálias eletrônicas modernas. O plano era mergulhar no mundo fisicamente e não virtualmente.

Provavelmente por isso, um dos meus lugares mais queridos nesse mundão sempre foi o morro do Voturuá, na divisa entre Santos e São Vicente, de onde se avista grande parte do litoral, além de uma imensidão de céu e mar que parece não ter fim. Um cenário tão difícil de descrever que fica mais fácil apelar para as fotos do Leandro (www.leandrogomesfoto.com).

É deste lugar que partem as asas e os paragliders que enchem o céu da cidade e que tornam irresistível a tentação de aprender a voar sozinho ou pelo menos pegar uma caroninha num vôo duplo. Ali, curti voar com o Alê, ir ao luau do Baratta com a Marcela, fazer amigos como o Capiau e o Ramon e passar infinitas horas sentado sozinho, curtindo o silêncio e admirando a incansável paisagem. 
Mas ainda faltava alguma coisa ali. Tudo bem que a dificuldade do acesso e a total falta de infra-estrutura davam um charme a mais ao local e impossibilitava que a rampa ficasse muito cheia de gente, mas ela impedia uma permanência maior e mais confortável, o acesso sem carro e o vôo de quem não tivesse uma carona.
A primeira mudança veio há 9 anos, com a inauguração do teleférico que liga a praia do Itararé ao topo do morro, bem ao lado da rampa. O agradável passeio leva pouco mais de 10 minutos para percorrer 560 metros de distância e subir os 170 de altura, passando bem perto da mata que cobre a encosta do morro.
A segunda, veio com uma grande reforma no topo do morro, que cercou áreas perigosas, aumentou o calçamento, instalou bancos e delimitou a rampa de vôo livre para que amigos e turistas não atrapalhem os pilotos.

Por fim, veio, há um ano e meio, a inauguração do “Ao Mirante”, restaurante com jeitão de boteco, especializado em peixes e frutos do mar. Ele preencheu um vazio que ali havia e que era eventualmente preenchido por fracas lanchonetes e barracas que nunca duravam muito tempo. E veio para ficar.
Confesso que nunca provei os pratos, mas a visão deles – muito bonitos e fartos – é tentadora. Por questão de gosto, prefiro ficar nos petiscos, que são muitos. A coisa vai desde as básicas batatas, mandiocas, frangos e bolinhos até as especialidades do mar, como lula, camarão, iscas e caranguejos, passando por porções inesperadas como shimeji e alheiras. Para acompanhar, cervejas, sucos e a bebidas clássicas, além de uma grande e também surpreendente variedade de coquetéis.

A partir daí a opção é sua. Eu vou escolher uma mesa, beliscar alguma coisa, tomar uma caipirinha, ver os paragliders subirem no céu, as asas mergulharem no ar, ver novamente a paisagem e exclamar pela milésima vez: como o mundo é bonito dali de cima!

“No começo, voar dá medo. É estranho ver que é suficiente o desejo de voar. Meu pesado corpo mais-leve-que-o-ar? Como se sustenta? E na hora de descer? E se eu me machucar? E a dor? Percebi que essas inseguranças são incompatíveis com o vôo. Não se pode voar pensando nisso. Não pense. Voe.
Voar serenamente, silenciosamente. Ver de longe as pessoas indo pra lá e para cá, observar o fluxo dos carros, conhecer os tetos das casas. Brinquedos esquecidos no fundo de uma piscina. Lá na frente, um parque de diversões com uma roda-gigante. Será possível ir tão alto? Sim, é possível, mas não é necessário. Não é necessário quebrar nenhum recorde de velocidade, altura, tempo. Só voar.
Acordei. Mas a sensação veio comigo: era preciso voar. Era preciso ser livre. E, com a consciência de um ser flutuante, serenar a liberdade. Continuar voando, mesmo de olhos abertos.” (Volponi)


Ao Mirante – Morro do Voturuá, s/nº - São Vicente/SP. Tel: 3468-0326.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Flutuante Netuno (São Bernardo do Campo/SP)



Nas últimas décadas eu passei pela represa Billings centenas de vezes (talvez milhares), rumo a Santos ou a São Paulo, pela Anchieta ou pela Imigrantes. E sempre me encantei com a beleza da paisagem, com o pôr-do-sol refletido nas águas, com o barquinho que vai, a tardinha que cai etc, etc. Mas nunca parei.

Ou nunca havia parado, até outro dia, quando finalmente criei vergonha na cara e fui conhecer o Riacho Grande. E passei a me perguntar por quê esperei tanto!
A área ocupada atualmente pelo distrito do Riacho Grande é um paraíso cercado pela Mata Atlântica e foi, desde o século XVI, atravessada por caminhos que ligavam o planalto ao litoral, até ser parcialmente inundada para a construção da represa, concluída nos anos 40 e que hoje oferece um visual único, que lembra as paisagens amazônicas ou pantaneiras.

É por aí que começa a história do Flutuante Netuno, embarcação utilizada pela empresa Light para transporte de materiais e funcionários durante a construção da represa e que, a partir de 1976, tornou-se um dos restaurantes mais agradáveis de toda a região.
Criado pelos primos e sócios Márcio Conti e Mauro Teixeira, o pioneiro restaurante foi montado sobre as águas da represa em três galpões flutuantes que serviam de cozinha, copa e salão, e que posteriormente foram substituídos pelo Flutuante Netuno.

O barco de 25 metros de comprimento, 6 metros de altura e 200 toneladas abriga um grande salão interno e um deck em sua cobertura. E fica realmente na água. Para chegar até ele é preciso atravessar uma pequena e balançante ponte.
Pode-se dizer que o salão tem mais cara de restaurante, com várias mesas bem arrumadas e cercado de janelas, enquanto o deck leva mais jeito de boteco, com mesinhas de plástico e apenas uma cerca separando-nos da paisagem.

A especialidade, claro, é peixe. Mas que não vêm dali, apesar de ser comum na região a pesca de tilápias, lambaris, carpas e traíras. Os peixes do Netuno vêm de criadouros (os de água doce) e de Santa Catarina (os de água salgada).
As sensações da casa, isto é, do barco, são o filet de tilápia – que não tem espinho – e o de Panga, ou Pangassu – peixe vietnamita que, pelo visto, começa a cair no gosto brasileiro – além da sua tábua de peixes, composta por porções de pescada, cubos de cação, tiras de badejo e iscas de tilápia, vencedora da última edição do Festival Gastronômico de São Bernardo. E há ainda a casquinha de siri, a manjuba, o lambari, o porquinho, o camarão, a lula, o marisco, o salmão, a paella...

A tranqüila passagem das horas faz com que o cenário vá mudando e o público também. Freqüentado principalmente por famílias, o barco passa a receber também as turmas de amigos que chegam para os finais de tarde e os casaizinhos, que vêm à noite para ouvir MPB (que toca nas noites de sexta e sábado e no domingo durante o dia) e para apreciar o romântico visual noturno da represa.

Uma ótima opção para um programa completo é a seguinte: acorde cedo e vá para o Riacho Grande. Vá passear no antigo Caminho do Mar, cujo parque fica alguns quilômetros depois da chamada “Rota do Peixe”, onde está o Netuno. Ande pelo menos até a Casa de Pedra, construída em 1922 em comemoração à assunção ao trono de D. Pedro II, e que por isso é também chamada de Rancho da Maioridade. Volte e vá ao Flutuante Netuno.

Escolha uma mesinha no deck, peça alguns petiscos, algumas bebidas e prepare-se para esquecer da vida, curtindo a magnífica paisagem e todo o sossego que só um restaurante sobre as águas pode oferecer.


Flutuante Netuno – Antigo Caminho do Mar, Km 35,5 – São Bernardo do Campo /SP. Tel: 4354-9940/4354-9238. Horário: Terça a Quinta das 10h às 18h, Sextas e Sábados das 10h às 2h e Domingos das 10h às 18h.


Um último conselho: Não deixe para ir embora no final da tarde, pois há quatro grandes “estâncias” na região que, nos dias de shows e principalmente no horário das saídas, transformam qualquer paraíso numa visão do inferno.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Bar do Plínio (Casa Verde - São Paulo)



Plínio é um cara que gosta de botecos, de boa comida e de pescaria. Tá, já sei: ele e mais uns 100 milhões de brasileiros. Só que tem alguns detalhes que o diferenciam dos outros 99.999.999.

Primeiro: ele montou o próprio boteco em uma grande casa verde na Casa Verde, onde recebe amigos e desconhecidos com a mesma alegria para um bate-papo regado a cervejas e quitutes variados.
Segundo: o Bar do Plínio é um dos raros (se não for o único) botecos especializados em peixes em São Paulo – e o termo “especializado” empregado aqui não é nenhum exagero, pois as opções são muitas e todas preparadas com tamanho esmero que fica difícil escolher.
Terceiro: Plínio é pescador, filho de pescador, tem “alma” de pescador e vai pessoalmente ao Pantanal várias vezes por ano para pescar os peixes que serve no bar. São pacus, dourados, pintados, traíras, tucunarés etc. Fora os que vêm dos lugares mais diversos, como o pangasius, que aqui já virou pangassu, que vem do Vietnã!

A história começou num momento específico – um agradável fim de tarde do final dos anos 70, quando Plínio ainda trabalhava numa empresa multinacional e resolveu passar um agradável happy hour no Valadares, clássico bar da Lapa, freqüentado por ele naquela época.
A coisa toda lhe pareceu tão boa que ele teve uma idéia: montar seu próprio bar. Se o intuito era ganhar dinheiro, ter um lugar para reunir a turma ou simplesmente não ter que ir embora do bar, não vem ao caso. O fato é que, com a ajuda da esposa Rose, ele montou, em 1980, um dos lugarzinhos mais interessantes e agradáveis da cidade.

Trata-se de um bar de esquina, com mesinhas na calçada, um atendimento pra lá de camarada, decoração com temas de pesca e fotos de convidados, um grande aquário com peixes bem exóticos, chopp e cerveja, sucos dos mais diversos tipos, e porções que não existem em lugar nenhum. Só lá.
E uma grande contribuição para esse clima descontraído está na sua localização, em uma rua tranqüila, de fácil acesso e sem dificuldades para estacionar no bairro da Casa Verde, assim chamado devido a cor da casa-sede do “sítio das moças da casa verde”, que eram – antes que alguém pense mal das meninas – as filhas do Sr. José Arouche de Toledo Rendon, proprietário do lote onde hoje está o bairro inteiro.

Finda a história, passemos à mesa. O bar tem algumas opções “comuns”, como batata frita, bolinhos de bacalhau, tábuas de carnes e de queijos, mandioca etc, mas as “incomuns” é que chamam a atenção.
Algumas delas participaram do concurso Boteco Bohemia, como a de tucunaré com palmito e alcaparras e as inusitadas “U... Quihá do Play” (com Filezinhos de Tilapia enrolados com bacon, provolone e uva passa) e a “Bicho Bão” (uma espécie de guioza com camarão, salmão, palmito, cream cheese), considerada uma das melhores receitas do festival.

Mas a especialidade mesmo são os peixes e frutos do mar, normalmente servidos em “trios” numa canoazinha de madeira e que abastecem um bom número de famintos. Há opções como o “Trio de frutos do mar” (camarão, lula e marisco), “Trio do Pantanal” (pacu, tilápia e dourado) e outros, além dos trios que você mesmo monta escolhendo entre aruanã, tambaqui, anchova negra, salmão, pintado, cação, meca e tantos mais.

A nós, só resta sentar, tomar alguma coisa e provar. E torcer para a pesca ser boa.


“Minha jangada vai sair pro mar, vou trabalhar, meu bem querer. Se Deus quiser, quando eu voltar do mar, um peixe bom eu vou trazer. Meus companheiros também vão voltar e a Deus do céu vamos agradecer”.
(Dorival Caymmi).



Bar do Plínio – R. Bernardino Fanganiello, 458 - Casa Verde – São Paulo. Tel: 3857-0999. Horário: Segunda a Sexta das 15h à 1h, Sábado e Domingo das 11h à 1h.


Para quem quiser se arriscar na cozinha, segue a receita do Bicho Bão do Bar do Plínio, vencedora do Boteco Bohemia 2009:

Ingredientes da massa:
200 g de salmão
100 g de camarão
Palmito
Cream cheese
Cebolinha
Salsinha
Cebola
Pimenta de cheiro
Azeite, sal e pimenta do reino na quantidade que preferir

Modo de preparo:
Picar o salmão, o camarão e o palmito em pedaços bem pequenos. Misturar os temperos e, por último, o cream cheese. Com uma colher, pegar uma pequena porção do recheio e colocar no centro da massa de guioza. Fechar, formando uma trouxinha. Cozinhar no vapor e fritas em óleo quente
Servir com molho de damasco agridoce salpicado com pimenta rosa e molho verde feito com maionese e temperos verdes.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Heinz (Santos/SP)



O simples fato de uma bar existir há 50 anos em uma cidade onde a maioria de seus concorrentes abrem e fecham ininterruptamente numa velocidade impressionante deve ter algum significado. E o significado é óbvio: o Heinz é o melhor bar de Santos. Ponto.
Esse tipo de declaração costuma causar polêmica, afinal, todos têm suas predileções, a cidade é grande, tem dezenas de bons bares e restaurantes e cada casa tem sua especialidade. Mas neste caso, não há o que contestar. O Heinz é especial.

A referência número 1 da casa, aquela que todos se lembram assim que ouvem o nome “Heinz”, é o chopp, considerado desde sabe-se lá quando, o melhor da cidade. O precioso líquido é consumido tão vorazmente em suas mesas que a casa chega a servir quase 10 mil litros por mês. Ele é o primeiro a ser atendido pelos fornecedores. Se não sobra para os outros bares, paciência.
O chopp do Heinz é servido – sempre – na temperatura de 1 grau centígrado, cremoso, em uma taça fininha e bonita chamada Trianon, após passar pelas mãos de um chopeiro com mais de 20 anos de experiência e por uma serpentina de 200 metros.

Mas até ele chegar até ali foi uma longa história, que começou na segunda guerra mundial. Isso mesmo! O bar foi inaugurado em 1960, mas foi em 1939 que o navio alemão Windhuk aportou em Santos com mais de 200 tripulantes, fugindo de um cerco naval inglês e ali permaneceu numa quarentena que durou anos.
Quando o Brasil entrou na guerra, em 1942, muitos desses alemães já estavam integrados à Santos, com muitos amigos na cidade e habituados aos costumes locais. E um deles era Karl-Heinz Misfeld que, anos depois, com a ajuda do amigo e, pouco depois, sócio, José Anastácio dos Santos, montou o Heinz.

Mas o fato de servir o melhor chopp passa a ser só mais um detalhe quando você conhece o resto do cardápio, que oferece porções e pratos alemães, sempre com produtos de primeiríssima qualidade e muito fartas, além de algumas incursões pela cozinha brasileira, também no mesmo nível.
Do lado alemão, você pode se acabar no kassler, no joelho de porco, no lombo com batatas, nos salsichões, nas porções de gorgonzola, parmesão, nas tábuas de frios ou nos canapés, sem se esquecer do steinheger para acompanhar os chopps que, claro, serão muitos.
Do lado mais abrasileirado do cardápio, mergulhe nos caranguejos e nos mariscos, ambos servidos nos finais de semana, na companhia de enormes e caprichadas caipirinhas.

Já se passaram mais de duas décadas que o velho Heinz e seu sócio e amigo José Anastácio se foram, mas nem parece. Os antigos clientes estão todos lá e contam suas histórias com a sensação de que aconteceram ontem, embora com uma dolorida saudade.
A eles fazem companhia os da nova geração, filhos e netos de antigos freqüentadores, além dos novos que vão chegando e se enturmando.

Quem também continua na casa são os garçons. Alguns são até mais novos, mas outros estão ali há décadas, como José Bernardino, o seu Zé, que está lá quase desde a inauguração do bar e que conta histórias engraçadíssimas dos tempos em que o Alexandre e a Mônica ainda eram bebês (desculpe, Alê. Não podia deixar de contar isso...).
Alexandre e Mônica Baum dos Santos são filhos de José Anastácio com a Sra. Osmilda Baum dos Santos e hoje tocam a casa com a amiga e sócia Darci Mercki, nora de Karl-Heinz Misfeld. Os três estão sempre por lá, na mesa 12 do Heinz ou nas casas vizinhas Armazém 29 e Paulistânia Café, outros frutos da parceria.

Não bastasse tudo isso, o Heinz ainda fica na esquina da Pindorama com a Lincoln Feliciano, um dos lugares mais agradáveis da cidade, por onde curiosamente todo mundo passa mesmo não sendo caminho para lugar nenhum e que misteriosamente consegue ser um local tranquilo e agitado ao mesmo tempo.

Minha sugestão é chegar por ali ainda de tarde e, se tiver sol, descolar uma mesinha na varanda e ver a frequência ir mudando aos poucos. Primeiro vem o pessoal mais velho, depois a turma que sai do trabalho e por fim a moçada que invade a rua inteira durante à noite, mantendo um clima cada vez mais festivo e feliz.
O problema é ir embora. A sorte é que o Heinz é um bar eterno, em todos os sentidos. Ele está lá há 50 anos e continuará lá nos próximos 50. E nós também.

Bar Heinz – Rua Lincoln Feliciano, 118 – Santos / SP.     Tel (13) 3286-1875. Horário: Segunda a partir das 17h, Terça a Domingo a partir das 12h.