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quinta-feira, 30 de junho de 2011

Cunha - Viagem & Turismo




Hoje posto uma cópia da matéria que fiz para a edição de julho/2011 da revista Viagem & Turismo, que chegou esta semana às bancas. É uma reportagem sobre Cunha com textos bem curto - ao contrário do que o blog costuma apresentar – para caber nas páginas. A parte se serviços, que teve que ser cortada na edição, está concluída aqui. Segue a matéria:


PRESSA ALGUMA
Rústica e serrana, Cunha tem natureza de sobra, gostinho de comida caseira e ritmo de Fusca na subida
Por Pedro Schiavon

A 241 quilômetros da capital paulista, entre as serras do Mar e da Bocaina e nos limites de São Paulo e Rio, a pequenina Cunha é lugar para apreciar lindas paisagens e rodar sem pressa, tanto pelo cenário aprazível quanto pela precariedade das estradas de terra. Não por acaso, o Fusca é o carro predileto de seus 23 mil habitantes, donos de uma frota de 1.300 unidades do veículo.
A cidade que convida à prosa nos faz lembrar do tempo em que tínhamos exatamente isso: tempo. Sem perder a rusticidade, Cunha virou uma alternativa aos destinos de inverno mais concorridos. Não que não exista nenhuma pousada confortável, vide a Barra do Bié e suas camas king-size, mas são os fogões a lenha e o calor humano que melhor resumem a hospitalidade local.
Nas panelas, ingredientes regionais dividem espaço com calóricas receitas mineiras, como pedem os termômetros abaixo dos 5 graus. Se a fórmula soa familiar, é preciso dizer que só Cunha tem tanta tradição na cerâmica noborigama, uma técnica sino-japonesa que deu fama a seu artesanato.

A jornada habitual do visitante começa com um café reforçado de delícias na pousada. A seguir, rume para a Pedra da Macela, onde uma dura caminhada em aclive é recompensada com uma vista absurda de Parati e das baías de Angra e Ilha Grande. Na volta, é praxe a parada na Wollkenburg, cervejaria do alemão Thomas Rau que promove degustações.
Por falar em gelada, Cunha é pródiga em cachoeiras. A Estrada do Monjolo dá acesso às duas mais conhecidas, a do Desterro, com duas quedas e poço para banhos, e a do Pimenta, uma sucessão de cascatas com quase 90 metros de extensão.
Os trekkings merecem um capítulo à parte, tantos são os roteiros. A trilha mais curta, de 50 minutos, passa por três cachoeiras, não requer guia e fica no Parque Estadual da Serra do Mar. A mais longa, chamada de Trilha do Ouro, dura até quatro dias e tem infra de expedição, com pernoites em barracas. Já no percurso batizado de Calçada do Outro, os visitantes caminham por cinco horas em um calçamento de pedras do século 18, então utilizado no transporte do ouro de Minas Gerais a Parati, e retornam no mesmo dia, de jipe.

Mas se há algo que notabiliza Cunha é a cerâmica. Tudo começou em 1975, ano em que o imigrante português Alberto Cidraes convidou a japonesa Mieko Konishi para ensinar a técnica noborigama, na qual o forno atinge 1400ºC. Na cidade, eles obtiveram apoio para montar seus ateliers e atraíram gerações de ceramistas.
Hoje, em datas predefinidas, os artesãos mostram a abertura da fornada ao público, cerimônia que encerra três meses de trabalho. Na técnica do raku, que utiliza um forno menos aquecido, os visitantes observam a peça ainda incandescente ser resfriada com água.
Hora de se recolher a seu chalé? Não antes de comer pipoca na praça. Pode parecer muita coisa para pouco tempo, mas em Cunha o relógio anda bem devagarzinho.



CUNHA (12)
FICAR
Pousada Barra do Bié - chalés aconchegantes com cama king-size, colcha de patchwork, lareira, TV de LCD e DVD. Tem piscina aquecida e massagem. Café da manhã é servido até as 14h. Diárias desde R$ 396. Tel: 3111 1477 http://www.pousadabarradobie.com.br/
Estalagem Shambala - 4 chalés e 7 aptos voltados para um cenário de montanhas e sem TV. Perfeita para quem procura paz e tranqüilidade. Tem sala de meditação, sauna e massagem shiatsu. . Diárias desde R$ 210. Tel:3111-1500 http://www.estalagemshambala.com.br/
Fazenda São Francisco - hotel-fazenda afastado da cidade. Tem lago para pesca, piscina, pedalinho, passeios a cavalo e ordenha de gado. Diárias desde R$ 226. Tel: 3119 6135 http://www.hfsaofrancisco.com.br/
Pousada Dona Felicidade - 5 chalés diferentes, 3 suítes e 1 casa, todos com lareira e uma bela vista para a própria pousada. Tem um campinho de futebol, lago para pesca e um dos melhores restaurantes da cidade. Diárias desde R$ 110. Tel: 3111-1878 http://www.pousadadonafelicidade.com.br/
Pousada Quinta da Serra - todos os chalés exibem varanda voltada para as montanhas. O serviço personalizado e exclusivo inclui quitutes frescos e quentinhos no café-da-manhã. Diárias desde R$ 230. Tel: 9707-7714 http://www.pousadaquintadaserra.com.br/ 



COMER

Quebra-Cangalha - valoriza ingredientes regionais, como truta, shitake e cordeiro, mas o carro-chefe é o leitão pururuca - em porção para duas pessoas. Truta com purê de abóbora e vinho do porto (R$ 30)  Tel:3111-2391 http://www.quebracangalha.com.br/
Villa Favorita - especializado em massas, surpreende até os paladares mais exigentes. Ravióli de cordeiro na manteiga de ervas (R$ 34,00). Tel: 9773-8688.
Dona Felicidade - dentro da pousada, o restaurante serve uma deliciosa e farta comida mineira, além de pratos especiais. Leitoa à pururuca com arroz, feijão, farofa especial e couve (R$ 60 para duas pessoas). Tel: 3111-1878 http://www.pousadadonafelicidade.com.br/
Antigo Caminho do Ouro - Instalado em um antigo posto alfandegário no caminho para Parati, serve massas e frutos do mar criativos e saborosos. Tagliarini ao pesto com nozes (R$ 22). Tel: 9702-4280.
Celeiro Pouso & Rango - uma linda casa entre as montanhas, é mais bar e pousada do que restaurante. Sua caipirinha de limão cravo é imperdível. Arroz de comitiva (R$ 35). Tel: 3111-1481 http://www.celeirodogutto.com.br/
Taberna Coração da Terra - no caminho da Pedra da Macela, substitui carnes e peixes pelo shiitake de cultivo próprio. Tel: 9763-8554
Café e Arte - é o único lugar da cidade que tem chope Wolkenburg. De frente para a igreja, vende doces, salgados e bons caldos. Spacatto – molho de tomate com mussarela de búfala, manjericão e pão italiano (R$ 22 para duas pessoas). Tel: 3111-2521.



CERÂMICA

Atelier do Antigo Matadouro – Tel: 3111-1628
Atelier Mieko e Mario Konishi – Tel: 3111-1468
Atelier Suenaga e Jardineiro – Tel: 3111-1530
Atelier Gallery Tokai – Tel: 3111-1831
Atelier Carvalho Cerâmica – Tel: 3111-2483
Gaia Arte Cerâmica – Tel: 3111-1716.
Grouze Arte Cerâmica – Tel: 3111-2672
Atelier Flávia Santoro – Tel: 3111-8051
Atelier Leí Galvão e Augusto Campos – Tel: 3111-1937
Casa do Oleiro – Tel: 3111-2723

COMPRAR

Fazenda Aracatu - Queijos, coalhadas e sorvetes fabricados com leite de gado Jersey. Geléias da fazenda e produtos de pinhão. Tel: 9604-4796.
Café Capril - Iogurtes, sorvetes, queijos e doces de leite de cabra. Tel: 3111-1679 http://www.cafecapril.com.br/ 
Cervejaria Wolkenburg - Cervejas weiss, fit, dunkel e landbier fabricadas artesanalmente. Tel:9773-4019
Alambique Empório Renzi - Cachaças envelhecidas em tonéis de araucária, bálsamo e amburana,além de algumas frutadas e doces. Tel: 3111-1371

SERVIÇOS
Parque Estadual da Serra do Mar – Tel: 3111-1818
Arthur Roteiros Ecológicos (Trilhas) – Tel: 3111-2224
Cunhatur – Tel: 3111-2634 http://www.cunhatur.com.br/ 

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Antigo Caminho do Ouro (Cunha / SP)



No livro “O Alquimista”, Paulo Coelho conta a saga do jovem pastor Santiago que, após ter um sonho repetido várias vezes, decide partir em uma longa viagem pelo mundo em busca de um tesouro escondido. Ao contrário dele, Gentil Benedito Sampaio, personagem central desta narrativa, sempre soube muito bem onde seu “ouro” estava guardado.

Essa história começa nos tempos do Brasil Colônia, quando o então Caminho dos Guaianás passou a ser utilizado pelos portugueses para transportar o ouro de Minas Gerais até o porto de Parati para então enviá-lo a Portugal. Este caminho foi batizado de Estrada Real, mas ficou conhecido mesmo como o “Caminho do Ouro”. O último posto alfandegário deste caminho foi instalado na Fazenda da Barreira, onde hoje encontramos o restaurante Antigo Caminho do Ouro.


A fazenda pertence à família Sampaio há mais ou menos um século e preserva muitas das características originais, incluindo parte das edificações da alfândega. Do bisavô passou para o avô, depois para o pai e hoje pertence aos irmãos, cujos filhos (pelo menos os mais velhos) já trabalham juntos na casa que, para se tornar um restaurante, teve de sobreviver a diversos entreveros e tentações, que vão desde a venda da fazenda até a crença na “lenda do ouro”, espalhada pela região, que dizia que os antigos funcionários portugueses haviam escondido pepitas durante anos sob o chão da alfândega.



Mas o restaurante não foi fruto apenas de uma idéia. Sabedores da necessidade de trabalhar duro por seus sonhos, os irmãos Gentil, Gentilina (a Tininha), Alda e Gabriela trabalharam – e ainda trabalham – em tudo que for preciso, como na  plantação do copos de leite que fornecem para toda a região. Junte-se a eles Alan, filho do Gentil e, quando preciso, Tiago, filho da Tininha. É de se esperar que chegará a hora do pequeno Eduardo e até do recém-nascido João Pedro ajudarem...
Nos últimos anos, além de tudo isso, todos eles correram atrás, cada um por seu lado, de aperfeiçoar seus conhecimentos na gastronomia e atendimento para a concretização do projeto da família.



E foi nessa que Gentil foi parar em Parati, charmosíssima cidade do litoral fluminense a menos de 30 km de seu restaurante, mas com um acesso muito complicado através de uma estrada linda e muito perigosa.
Em Parati, permaneceu durante anos, ganhando experiência em diversos restaurantes até se tornar uma espécie de “sous-chef” de Dario Rossera, dono e chef do premiadíssimo restaurante Villa Verde. É a ele que Gentil credita todo seu “know how” no preparo de massas e frutos do mar. 



O restaurante Antigo Caminho do Ouro abriu suas portas no início de 2009, próximo a pontos hoje turísticos como a Pedra da Macela, a cervejaria Wolkenburg e a cachoeira do Mato Limpo, com a família toda se revezando no atendimento às mesas, no caixa, nas compras e na cozinha, coordenada pelo Gentil.


E é uma cozinha que já não passa mais despercebida, principalmente pelos turistas. É comum ver o pátio lotado de carros e as mesas cheias de gente que vai atrás não apenas das massas frescas e leves, preparadas no mesmo dia, criativas e bem elaboradas, mas também de todo um contato com a tranquilidade e com a natureza impossíveis de se conseguir nas grandes cidades.




Mesmo se entitulando cozinheiro e recusando o status de “chef”, é fácil perceber o talento de Gentil em pratos como um tagliarini ao pesto com nozes, uma moqueca de peixe, um risoto com rúcula, tomate seco e gorgonzola, um ravióli de abóbora com carne seca e queijo branco e outras maravilhas, tudo servido fartamente e preparado utilizando as hortaliças orgânicas da própria fazenda, carnes produzidas na região e peixes e frutos do mar comprados semanalmente em Parati.



Também é fácil reparar na beleza da região em volta, já que a casa fica sobre uma montanha à beira da estrada Cunha-Parati, cercada por vacas, cavalos, jabuticabeiras e araucárias, no meio da Mata Atlântica e de frente para as plantações de copos de leite.
É fácil perder horas ali curtindo o silêncio da paisagem, beliscando uma porção qualquer de mandioca ou de berinjela e acompanhando tudo isso com um bom vinho, alguma caipirinha ou com a cerveja artesanal fabricada a uns poucos metros dali.
E é mais fácil ainda observar onde está, afinal, o bem mais valioso do Antigo Caminho do Ouro: mais do que qualquer metal ou jóia, ele está na força de uma família unida, esforçada, talentosa, incrivelmente simpática e, claro, muito gentil, que recebe todos os visitantes de braços abertos.



Antigo Caminho do Ouro – Estrada Cunha/Parati, km 64. Tel (12) 9702-4280 / 9768-8512. Horário: Sábados, Domingos e Feriados das 11h às 18h.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Cervejaria Wolkenburg (Cunha / SP)



Caros amigos – cervejeiros ou não: antes de começarem a ler este texto sobre a menor cervejaria do Brasil, certifiquem-se de que há uma geladeira por perto, que há cerveja dentro dela e que não seja qualquer uma (questão de respeito). Vocês vão precisar.


Nossa história começa em Speyer, cidade no sul da Alemanha famosa por sua catedral do século XI, onde Thomas Rau nasceu, cresceu e se formou mestre cervejeiro.
Foi também na Alemanha que ele conheceu Heike, uma brasileira descendente de alemães e austríacos, com quem se casou e que o trouxe ao Brasil por diversas vezes, até se estabelecerem em definitivo na cidade de Cunha, interior de São Paulo.


Encantado com a simpatia e a hospitalidade brasileira, com a natureza e a abundância de espaço encontrada na região, com o clima e a qualidade da água favoráveis e a estratégica localização – entre Rio e São Paulo e próxima a Parati – Thomas resolveu montar ali, em 2003, seu pequeno paraíso.
A Wolkenburg (Castelo nas Nuvens) ocupa uma imensa montanha, na qual após subir uma trilhazinha linda e que parece não ter fim você encontra duas casas brancas até bem grandinhas, mas que se perdem facilmente na imensidão verde da paisagem. Uma delas é a residência da família, a outra, a fábrica.


É neste lugar – que vale a visita mesmo para quem não gosta da bebida – que Thomas produz suas Hausbiere (cervejas artesanais) seguindo as regras da Reinheitsgebot (Nem tente pronunciar. Trata-se de uma lei alemã que garante que as cervejas sejam produzidas somente com produtos naturais, sem aditivos, conservantes ou manobras que minimizem o tempo de produção. A lei foi criada em 1516, enquanto aqui trocávamos ouro por espelhinhos). Ele explica que não é só pelo sabor ou pela certeza de um produto natural. É também uma maneira de valorizar a produção sustentável, dando preferência ao produto local, feito e vendido sem ser exposto a longas viagens e preservando o meio ambiente.


A visita, que passou a ser aberta ao público em 2008, inclui uma longa explicação sobre os processos de maltação da cevada, germinação, ferveção com o lúpulo, refrigeração, fermentação etc. E inclui a aguardada degustação das cervejas da casa: a Fit – leve, de baixo teor alcoólico; a Weiss – de trigo, com médio teor; a Landbier – tipo Indian Pale Ale, avermelhada, de sabor intenso e cremoso; e a Dunkel, escura, criada pelos monges há mais de 600 anos.
Nosso anfitrião diz que, quando tem que trabalhar, prefere a Fit, que por ser mais leve não tira a disposição. A Weiss é a preferida para o almoço. A Landbier é para o final da tarde e, à noite, após o jantar, ele toma a Dunkel. Diariamente. Sempre. E é magro.


Todas elas são naturalmente turvas. É uma opção de Thomas pela não-filtragem do produto final para evitar a retirada de substâncias saborosas e saudáveis. Ele faz questão de recomendar que o fermento remanescente no fundo da garrafa seja ingerido junto com o último copo, agitando cuidadosamente a garrafa antes de servir.


Uma novidade é que nos últimos anos a microcervejaria vem promovendo alguns eventos, que são um motivo a mais para ir até lá. Em abril tem a Fischerfest (a festa do pescador), com trutas e outros peixes; em julho a Bretzelfest, com vários pratos típicos e o irrecusável bretzel feito por dona Frederick – mãe da Heike e sogra do Thomas; e em outubro a Oktoberfest, já conhecido por todos como a festa do chopp.


Outra inovação da Wolkenburg é a produção da Steinbier, uma espécie de cerveja licorosa ou licor de malte, cuja receita é criação do próprio Thomas, ou seja, não existe em nenhum outro lugar do mundo, só lá. Durante a produção, ela é fervida na pedra sob uma temperatura de 300 graus e a produção é de apenas 300 garrafas por ano, vendidas por encomenda em uma lindíssima garrafa de cerâmica – homenagem à tradição da cidade. Se você quiser reservar uma, corra até lá, pois não conheço o destino de 299 delas.

Cervejaria Wolkenburg – Rodovia Cunha-Parati, km 65 + 2km de estrada de terra. Tel (12) 9773-4019. 
Visitas: Sábados, Domingos e Feriados das 10h às 17h.



Pedra da Macela
No mesmo caminho da Wolkenburg, seguindo em frente, fica um dos principais cartões postais de Cunha: a Pedra da Macela, que propicia uma vista panorâmica incrivelmente próxima da baía de Angra dos Reis e da cidade de Parati.


O visual é fantástico, mas exige uma caminhada proporcional. São 2 quilômetros de uma subida íngreme e constante, que judiam um bocado das pernas dos aventureiros, mas com um resultado que, sem dúvida, compensa cada passo.
É preciso, no entanto prestar atenção em duas coisas:
1- Só suba se o céu estiver completamente limpo. Lá em cima costuma ter mais nuvens do que em outros lugares;

2- Embora o caminho para chegar à Pedra passe pelo portão da Wolkenburg, resista. Vá em frente. Este será o seu suado e merecido prêmio na volta.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Celeiro Pouso e Rango (Cunha/SP)



Você pega a estradinha de asfalto em direção às cachoeiras por mais ou menos 1km, passa a ponte e vira à esquerda na estrada de terra. Aí segue contornando a cerca de cedro e vai em frente. Sobe, desce, vira para um lado, depois para outro e sai no asfalto de novo. Aí sobe, sobe, sobe e volta para a terra. Vira de novo, depois mais uma e sobe. Mais asfalto e mais terra. Quando você chega lá no alto, além da paisagem espetacular, você avista uma casa avermelhada. É lá.

Por que é que eu continuo fazendo esse caminho todo tantas e tantas vezes? Pelo bar, pela paisagem, pela caipirinha, pela coalhada seca, pelo bilhar, pelo passeio e pelo Gutto.
Gutto Ferreira é um cara querido por todo mundo. Já foi jogador de vôlei, modelo, peão de boiadeiro e dançarino pelo mundo inteiro.
Dessas andanças, herdou a paixão pela liberdade, pela natureza e pelos animais. Tanto que em meados dos 90, contrariando a lógica de quase todos, trocou tudo isso para adquirir umas terras pra lá de escondidas, a 25 km de Cunha, que já não fica perto de muita coisa.

Em um resumo rápido, criou animais e cultivou alimentos nessa terra, arrendou outra ao lado, transformou-a em pousada e deixou-a por outra, mais próxima, onde pôde finalmente instalar seu projeto do que viria a ser, em 2006, o Celeiro.


O Celeiro é uma casa ampla e envidraçada no alto de uma montanha que fica entre dezenas de outras montanhas. Abriga um bar/restaurante embaixo, a casa do Gutto em cima e, de uns meses para cá, três chalés para hóspedes.
Seus vizinhos mais próximos são alguns sítios a cerca de 1 km dali. Os únicos sons que se ouve são alguns relinchares dos cavalos, mugidos da vizinhança, esporádicos latidos do Nando e as músicas que o Gutto põe pra rolar, no volume que bem entender.
Dentro da casa, algumas mesas, sofás, o balcão do bar e uma mesa de bilhar. Do lado de fora, mais sofás e muitas redes. Na decoração, só peças de muito bom gosto, com destaque para os quadros de dona Agair e as esculturas do Luciano, um dos melhores artistas da cidade.

De dentro da cozinha saem picanha, salmão, macarrão etc, mas a especialidade é o arroz de comitiva, aprendido nas longas tocadas de boiadas e amplamente aperfeiçoado com o acréscimo de vários ingredientes, o que o torna uma espécie de paella caipira.
Confesso que costumo ficar nos petiscos como o frango (caipira, é claro) à passarinho e na incrível coalhada seca que, sei lá por quê, é a melhor que conheço. E tudo servido com um capricho decorativo que impressiona.
O mesmo acontece com a caipirinha de limão cravo com manjericão. Pode ser o açúcar na medida certa, as folhas do manjericão ou até o gelo, mas eu acho que o segredo está no tipo do limão que nasce lá (o Gutto diz que está no jeito de chacoalhar o copo!). O fato é que ela é irresistível.

O termo slow food usado no site explica pouco. É só um toque para você apreciar a comida sem pressa. Mas, mais que isso, é um jeito sutil de avisar que você não vai sair de lá tão cedo, porque aos poucos a casa vai ficando mais cheia e animada.
É ainda um conselho para você tirar o pé do acelerador. Afinal, está com pressa de quê? Escolha uma rede e espere pelo pôr-do-sol. O hoje, ali, deve ser saboreado com toda a tranqüilidade e complacência possíveis.

Uma coisa bacana é que ali você acaba fazendo de tudo um pouco e ao mesmo tempo. Como a maioria dos clientes são amigos e o clima da casa deixa todo mundo à vontade, as turmas se misturam naturalmente e cada hora você está num lugar.
Assim, primeiro você se senta em uma mesa qualquer com seu grupo de amigos. Depois alguém te chama para mostrar alguma coisa nos livros no canto dos sofás. Em seguida você vai até o balcão pedir outra caipirinha e fica “de prosa” com o Gutto. O papo é interrompido para jogar bilhar com alguém que você acabou de conhecer. E por aí vai...
E há ainda uma proposta indecentemente convidativa que é feita a todos uma vez por mês: uma cavalgada na lua cheia, que sai do Celeiro no finzinho da tarde rumo às montanhas, vê a lua nascendo, visita algumas cachoeiras sob o claríssimo céu de Cunha e volta para o jantar.

O Celeiro é, portanto, um lugar aonde você vai e fica. Um lugar de boa comida, boa bebida, boa diversão e muito sossego. Um lugar para encontrar e fazer amigos.
Lembra daquela estradinha do começo da história? Ela pode parecer longa, mas em Cunha tudo é questão de uns 10 minutos. E ela sempre parece mais triste e curta na hora de ir embora.

Celeiro Pouso e Rango – Estrada do Macuco km 4        
Cunha /SP - Tels (12) 3111-1481 / 9741-0724 http://www.celeirodogutto.com.br/ Horário: Sábados, Domingos e Feriados das 11h ao fim da tarde.
Dicas importantes: É melhor ligar antes para ver se está aberto. Se for perguntar o caminho, não pergunte pelo endereço (em Cunha isso é quase inútil), mas sim pelo Celeiro do Gutto, que todo mundo conhece.




A música do vídeo abaixo tem uma história, que se passa na Inglaterra, nos idos de 1967:

Um grupo de pessoas comentava no centro da cidade sobre a “tolice” de um rapaz que vivia isolado em uma colina, longe das pessoas e das coisas da cidade.

Ao ouvir o comentário, quatro rapazes geniais de Liverpool responderam musicalmente que o homem da montanha nunca lhes daria ouvidos, pois ele sabe quem são, na verdade, “os tolos”, pois para ele, onde vive, pode ver as belezas da vida, assistir o pôr-do-sol todos os dias e observar cada volta que o mundo dá.


segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Dona Felicidade (Cunha / SP)



Nem sempre o nome de um lugar serve como referência para aquilo que procuramos.  Em Cunha você encontra caipirinha no Celeiro, cachoeira no Pimenta, cerâmica no Jardineiro e macarrão no Caminho do Ouro. Felicidade, entretanto, é o que você mais encontrará no final da estrada de terra que leva à pousada e restaurante Dona Felicidade.
Os motivos são muitos. O Dona Felicidade nasceu do sonho do casal Almiro Pontes e Maria de Lourdes Lopes Reis – que meia-hora depois de você conhecer serão, para sempre, o Miro e a Lu – que conseguiram trocar, após uma batalha de anos a fio, a insanidade de São Paulo pela tranqüilidade de Cunha.
E este é o primeiro motivo para você ir até lá: Cunha, que por si só, já é um lugarzinho com todos os ingredientes que um bom lugarzinho precisa ter: cultura (são dezenas de ateliers de cerâmica), ecoturismo (já perdi a conta das cachoeiras, parques e mirantes), gastronomia (da boa, com muitas alternativas) e muito sossego e receptividade por todo lado.

Outra razão é o lugar. A pousada/restaurante fica entre as montanhas bem perto da junção das Serras do Mar, da Bocaina e do Quebra-Cangalha, tendo apenas 4 grandes chalés, 3 suítes, as casas dos proprietários, o restaurante, um campinho, a horta e uma infinidade de jardins repletos de flores e frutas.
Como nunca fui hóspede da pousada, pularei esta etapa, embora conheça alguns “freqüentadores” como o Lanes, a Rafaela, o Sílvio e outros que, aparentemente, desistiram do resto do mundo, pois vão para lá em todas as oportunidades que têm. E vamos ao restaurante.
Pois bem, aqui começa o drama. Abro espaço para um aviso importante para não ser posteriormente acusado de nada: se você estiver de regime, não passe nem perto de lá. Se possível, pare a leitura aqui e vá para uma academia. Corra bastante e depois me conte como foi. Mas se você gosta realmente dos prazeres de uma boa mesa, vamos lá.

O restaurante é um galpão bem rústico e bonito, com grandes mesas e um belíssimo deck. Tudo em madeira. A especialidade da casa é a cozinha mineira, bem caipira, do tipo leitão à pururuca com tutu de feijão, couve, torresmo e farofa. As opções são muitas, que vão da rabada com polenta mole até a truta com shitake, passando por galinhadas, moquecas, coelhos e churrascos.
O problema é que o Miro é daqueles caras que nasceu com o dom e a paixão para cozinhar, e tudo que faz, até o mais simples acompanhamento, é maravilhoso. Você já ouviu alguém dizer “nunca comi um arroz tão bom?” Pois eu já. E “é a melhor couve que já comi”? Pois é. Imagine então o feijão, as carnes, os molhos...
Só para dar um exemplo, a farofa, que para nós, leigos, parece a coisa mais simples do mundo, é preparada com três tipos de farinha diferentes, bacon, lingüiça e sabe-se lá mais o quê. E tudo é farto, criado ali ou colhido no pé.

Enquanto o Miro cuida da cozinha, a Lu atende os visitantes. E se ele nasceu com o dom para cozinhar, ela nasceu com a simpatia transbordando por todos os poros. 
Das seis da manhã até a hora que precisar, ela fica correndo pra lá e pra cá, recebendo todos com um grande sorriso e um abraço, servindo as mesas, contando todas as novidades da cidade, indicando lugares legais (mesmo que concorrentes), preparando uma caipirinha de limão-cravo, contando dez mil piadas, oferecendo um doce de leite e, se tiver música, cantando e dançando. E nem pense em ir embora, porque ela não deixa.
Se você for com crianças, tem mais: Murilo, o principezinho da casa, do alto de seus 7 anos de idade, santista roxo, fã de Neymar e Robinho, bom de papo e de garfo, vive “pescando” os clientes do restaurante para ir jogar bola, conhecer os cavalos, passear pelas trilhas da pousada ou simplesmente ficar conversando em turma, nas redes do quiosque.
Daí, como sempre, você se dá conta que chegou lá de tarde e já é noite faz tempo e a coisa continua animada. 
E quando você pensa que acabou, o papo recomeça. As ajudantes vão embora, alguns hóspedes se recolhem e os que sobram vão se juntando aos poucos em uma única grande mesa, junto com o Miro e a Lu, para uma última cerveja, um café, um docinho, uma Juveva e mais uma história e outra piada.
E só quando todo mundo já está caindo de sono você consegue ir embora, triste, contando as horas para voltar.

Dona Felicidade – Estrada da Catióca km 1 – Cunha/SP Tel (12) 3111.1878.




Na parede do restaurante, um grande banner traz o seguinte texto:


Meu nome é Dona Felicidade.
Faço parte da vida daqueles que tem amigos, pois ter amigos é ser Feliz.
Faço parte da vida daqueles que vivem cercados por pessoas como você, pois viver assim é ser Feliz!
Faço parte da vida daqueles que acreditam que ontem é passado, amanhã é futuro e hoje é uma dádiva, pois isso é chamado presente.
Faço parte da vida daqueles que acreditam na força do Amor, que acreditam que para uma história bonita não há ponto final.
Eu sou casada, sabiam?
Sou casada com o Tempo.
Ah…O tempo é lindo!
Ele resolve todos os problemas.
Ele reconstrói corações, ele cura machucados. ele vence a Tristeza…
Juntos, eu e o Tempo tivemos três filhos:
A Amizade, a Sabedoria e o Amor.
A Amizade é a filha mais velha.
Uma menina linda, sincera, alegre.
A Amizade brilha como o sol…
A Amizade une pessoas, pretende nunca ferir, sempre consolar.
A do meio é a Sabedoria…culta, íntegra, sempre foi mais apegada ao Pai, o Tempo.
A Sabedoria e o Tempo andam sempre juntos!
O caçula é o Amor.
Ah! como esse me dá trabalho!
É teimoso, às vezes só quer morar em um lugar…
Eu vivo dizendo: Amor, você foi feito para morar em dois corações, não em apenas um…
O Amor é complexo, mas é lindo, muito lindo!
Quando ele começa a fazer estragos eu chamo logo o pai dele, o Tempo…e aí o Tempo sai fechando todas as feridas que o Amor abriu!
Uma pessoa muito importante me ensinou uma coisa…
Tudo no final sempre dá certo, se ainda não deu, é porque não chegou o final.
Por isso, acredite sempre na minha família!
Acredite no Tempo, na Amizade, na Sabedoria e principalmente no Amor…
Aí, com certeza um dia, eu, a Felicidade, baterei à sua porta!
Tenha Tempo para os Sonhos…
Eles conduzem sua carruagem para as Estrelas!


A Lu, de final, nos deixa ainda a seguinte receita:

Receita cazêra minêra de môi de repôi no ái e oi:

Ingredienti:

*5 denti di ái
*3 cuié di ói
*1 cabeça de repôi
*1 cuié di mastomati
* sá a gosto

Módifazê:

*casca o ái, pica o ái i soca o ái cum sá
*quenta o ói na cassarola
*foga o ái socado no ói quênti
*pica o repôi beeeeemmmm finin
*foga o repôi no ói quênti junto com o ái fogado
*poim a mastomati i mexi cum a cuié pra faze o môi

**Sirva com rôis e meléti