Mostrando postagens com marcador * Comida Baiana. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador * Comida Baiana. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Patuá (Bela Vista - São Paulo)



“Nem tudo está perdido. Algumas coisas ainda nem foram achadas” (Millôr Fernandes)
São Paulo é uma cidade cheia de caprichos e preciosidades escondidas por aí. São lugarzinhos que pouca gente conhece e que pretendem continuar assim, pois é a única forma possível de manter seus encantos, seu atendimento tão pessoal e agradável.

Um desses lugares é o Patuá, que não é um restaurante nem um bar, mas sim a casa da Sra. Hélia Januária Bispo, mais conhecida por todos como Bá, uma simpatissíssima baiana que recebe a todos com os braços abertos, um turbante na cabeça e um inabalável e encantador sorriso no rosto. Ela é a anfitriã, a cozinheira e a amiga que você acabou de ganhar.
Hélia nasceu em Amargosa, cidadezinha vizinha a Salvador, e lá foi escolhida pela avó para aprender a arte do acarajé. A forma de se fazer acarajé é tradicionalmente passada de mãe para filha, mas no seu caso, foi de avó para neta, mesmo.

O acarajé é considerado, pelo candomblé, um alimento sagrado oferecido aos Orixás. Tem ainda sua importância histórica na cultura da Bahia, a ponto do ofício de “baiana do acarajé” ser considerado patrimônio cultural brasileiro.
E é claro que a menina Hélia custou a entender a importância de seu ofício, como você fica sabendo através das deliciosas histórias que ela conta com toda paciência e graça, revelando incríveis travessuras infantis e as consequentes broncas levadas, como na vez em que, aos 14 anos de idade, largou o tabuleiro na rua para seguir atrás do trio elétrico.

Crescida, experiente no ofício e buscando mudanças em sua vida, Bá desembarcou em São Paulo em 1989, e montou sua barraca de acarajé na rua 13 de Maio, no tradicionalmente italiano Bixiga. Ali, trabalhou por 12 anos e conquistou amigos e clientes fiéis.
Foi em 2001 que, com problemas para conseguir a licença para trabalhar na rua, ela mudou-se para uma casa do bairro e instalou no porão seu pequeno estabelecimento, freqüentado inicialmente pelos amigos, depois pelos amigos dos amigos e então pelos novos amigos que foi fazendo pela cidade.

Na frente do velho sobrado não há qualquer sinal de que ali funcione um restaurante. Após tocar a campainha e ser recebido pela própria Bá, você entra em sua casa, atravessa a sala, a cozinha e desce uma escada que leva a um charmoso quintal anexo ao porão de teto baixo e dividido em três ambientes, sendo dois com mesas à sua escolha e outro com almofadas espalhadas pelo chão.
Por todo lado, cores e mais cores, fotos, imagens de orixás e abadás do Ilê Ayê. Um espaço acolhedor, com objetos típicos, bordados e artesanatos, onde um delicioso e suave som de Dorival Caymmi e Gal Costa completa o clima de Bahia.
Cabe no máximo umas 15 pessoas, mas Bá evita essa “lotação”, para que possa receber cada um com atenção e carinho únicos. Por isso não divulga o endereço e para ir até lá é preciso ligar e agendar diretamente com ela, com uma certa antecedência.

Passadas essas etapas, é hora de finalmente atacar os acarajés. Eles são perfeitos e grandes, feitos de um modo que desmente qualquer fama de preguiça baiana, com a massa de feijão-fradinho batida exaustivamente e depois frita no azeite de dendê.
O restante do cardápio é narrado pela própria Bá, enquanto puxa um papo atrás do outro. E tudo é muito tentador. Mas é aí que você volta a lembrar do Millôr, que malandramente alerta que “o problema de resistir a uma tentação é que você nunca sabe quando terá outra chance”. E então segue em frente.

Tem a mandioca frita na manteiga de garrafa, o escondidinho de carne seca, o arrumadinho (um tipo de cuscuz meio seco misturado com carne-seca, queijo-coalho e feijão-fradinho), a sugestão da baiana (carne-de-sol com farofa e abóbora cozidas na manteiga de garrafa), bobó de camarão (com arroz e farofa de dendê com amendoim e castanha de caju) e um bocadinho mais.
Quase tudo foi aprendido em casa, prestando atenção e aperfeiçoando dia após dia. Quase tudo leva azeite de dendê, que deixa a casa com um típico perfume no ar. Quase tudo leva leite de coco, que Bá rala na hora. Quase tudo fica ótimo com a pimenta da casa, que é saborosa e forte, mas não daquelas que, como diz a anfitriã, “ardem até o juízo”. E tudo faz você se sentir em casa.

Bá era o apelido carinhosamente dado pelas crianças às suas amas de leite – mulheres, normalmente negras, que ajudavam com seu leite na amamentação dos bebês e que normalmente acabavam por se tornar um tipo de mães de criação daquelas crianças.
Hélia Januária Bispo ganhou seu apelido de um cliente que virou amigo e escreveu a ela uma carta de agradecimento, na qual a chamava pela primeira vez pelo nome que, emocionada, resolveu adotar. Ela não teve filhos, mas é a Bá de muitos sobrinhos e incontáveis amigos com quem compartilha, diariamente, todo o axé de seu Patuá.

Patuá – Tel: 3115-0513.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Acarajé da Inês (Vila Medeiros / São Paulo)



Diz a lenda que o acarajé é um alimento sagrado oferecido a Oyá, também conhecida como Yansã, deusa africana que controla ventos, tempestades, relâmpagos e o fogo. Conta-se que, após se unir a Xangô, Yansã foi enviada por ele à terra dos baribas em busca de um preparo que, ingerido, lhe desse o poder de cuspir fogo. Com sua ousadia, a deusa provou do líquido e ganhou o poder.
É daí que vem uma história cheia de simbolismos e também o seu nome, já que na África “je” quer dizer “comer” e “akará” significa “bola da fogo” (e você que achava que era a sensação da pimenta...).


Considerado uma comida sagrada, antes, o acarajé só podia ser feito e servido pelas filhas de Iansã e Xangô, mas por causa da popularização do bolinho em todo o Brasil, hoje é servido por baianas de todas as religiões e até por homens. O interessante, no entanto, é que todos preservam um respeito inabalável pelos rituais que cercam o preparo do quitute, mantendo, inclusive, seu curioso formato oval, moldado na colher de pau e que imita o cágado, animal que é considerado o preferido de Xangô.


Alheio a tudo isso, me preocupo realmente é com o fato de eu adorar acarajé e ter uma dificuldade danada de encontrar boas opções, mesmo numa capital gastronômica como São Paulo. Foi o que me levou a viajar até a Vila Medeiros, onde fica o Acarajé da Inês.
Quase vizinho do famoso Mocotó (do qual falaremos um dia...), o Acarajé da Inês é um oásis de tranqüilidade – ou um pedacinho de Bahia – numa agitada esquina do bairro. É um mergulho no clima baiano que começa do lado de fora, com a pintura da fachada que aproveita o declive da ladeira para imitar o casario típico do Pelourinho, passa pelo “perfume” da comida que não poupa quem passa pela porta e continua em seu interior, num estilo botecão simples, decorado com toalhas de chita, enfeites de palha e folhas de bananeira e com um simpático quiosque coberto de sapé, onde são preparados sucos e coquetéis.

Ali nosso querido acarajé encontra o respeito que merece. Reconhecido como Patrimônio Cultural da Bahia e do Brasil, ele é feito de forma artesanal, com o feijão fradinho triturado à mão e amassado na hora até formar uma massa bem leve, frito no azeite de dendê e bem recheado com vatapá, caruru e camarão seco. Ele chega à mesa quente e crocante em duas opções: unitário ou em porção de dez bolinhos.
Mas apesar do acarajé ser a grande atração da casa, o cardápio desfila uma baianidade sem fim. São abarás, moquecas, bobós e escondidinhos. São cozidos baianos, dobradinhas, mariscadas, baiões, arrumadinhos e sarapatéis. Para quem só quer beliscar, iscas de peixe, lulas, porquinhos e polvos. E para quem não dispensa a sobremesa, cocadas de coco queimado, ambrosias e pudins de tapioca.


A culpa disso tudo é da Sra. Maria Inês dos Santos, a Inês, uma simpatissíssima e tímida senhora baiana que, como tantas outras, veio para São Paulo ganhar a vida e mostrar ao mundo o que é que a Bahia tem. E trabalhando durante dez anos como empregada doméstica, ela sustentou a idéia de – um dia – montar seu restaurante, onde recriaria as delícias da sua terra.
Primeiro, passou a utilizar seus domingos (o único dia livre da semana) para vender acarajés na feira. Depois, passo a passo, passou a fazê-los em um modesto bar bem pertinho de onde se encontra hoje, improvisando em um fogão de duas bocas e vendendo-os como prato feito.


Há alguns poucos anos, com a ajuda da filha Flávia – que trouxe também consigo uma boa experiência no ramo hoteleiro, incluindo aí um aperfeiçoamento na Europa – construiu os alicerces de seu sonho, reformando o ponto escolhido, trabalhando o local e o deixando-o com a cara que tinha em sua imaginação: um local simples, com boa comida, bons amigos e que ajuda a aplacar um pouquinho a saudade da Bahia.


Na vergonhosa época do Brasil colonial, o acarajé era vendido nas ruas da Bahia em tabuleiros que as escravas equilibravam sobre suas cabeças, enquanto iam cantando pregões para atrair a freguesia. Freguesia que até hoje só fez crescer, afinal, além do preço acessível e do sabor delicioso, a simpatia das baianas sempre foi um tempero a mais.
Corajosas, independentes e empreendedoras, essas mulheres foram aos poucos arriando seus tabuleiros, típico hábito africano, que passou a significar também uma luta contra a infâmia da escravidão que imperava no país.
Conta-se que com as vendas da iguaria, muitas delas conseguiram comprar sua própria liberdade. Com o mesmo acarajé, Inês deu vida ao seu sonho. Epa-Hei Oyá!

Acarajé da Inês – Avenida Nossa Senhora do Loreto, 1.144 – Vila Medeiros / SP. Tel: 2982-1243. Horário: Terça a Sábado das 12h às 22h, Domingo das 12h às 17h.






Diz-se também que o nome "acarajé" pode ser uma versão reduzida do pregão cantado pelas escravas, no início do século XIX. O músico Dorival Caymmi reproduziu livremente, em sua música “A Preta do Acarajé”, um deles: "O acará jé ecó olailai ô", que seria o chamado para que o freguês comprar o acarajé.
Abaixo, segue uma animação visual da música, cantada pelo baiano mais baiano da Bahia e por Carmem Miranda: