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quarta-feira, 6 de julho de 2011

Adega da Esquina (Alto de Pinheiros - São Paulo)



Todo bairro que se preza, do mais luxuoso ao mais humilde e por mais residencial que seja, tem pelo menos três comércios: uma pequena venda onde se compra quase todo tipo de coisa, uma farmácia cujo farmacêutico já cuidou da maioria dos moradores, e um boteco.

Esse boteco tem duas funções básicas: servir de ponto de encontro para os vizinhos e quebrar o galho para uma saidinha rápida de casa sem precisar se locomover até os bairros mais agitados, evitando as perturbações do trânsito, os assaltos e o achaque dos flanelinhas.
Teoricamente, este boteco não precisa ter nada demais. Basta que tenha cerveja gelada, três ou quatro opções de bebidas diferentes e alguns petiscos suficientemente engolíveis para matar a fome. A Adega da Esquina poderia ser só isso, que ninguém ia reclamar. Mas não é só isso.



Na improvável esquina de uma rua que é uma rápida passagem de carros e ônibus com uma outra que liga a uma praça e a um labirinto de ruazinhas, exatamente onde funcionava uma oficina mecânica e, por sorte, bem perto da minha casa, Roberto Pamplona e Carla Pereira montaram, há apenas 4 meses, um dos bares mais simpáticos e interessantes de toda a região.
O local é simples, como um bar/adega deve ser, e com um cardápio bem enxuto, principalmente na parte dos “comes”. Mas quem se importa? O interesse do público é voltado para as cervejas, e é aí que, surpreendentemente, a coisa começa a ficar boa.



A pequena casa esconde uma incrível carta de cervejas importadas, com nomes dos mais variados tipos e procedências, a maioria com preços abaixo da média da cidade. Há desde nomes mais conhecidos como a alemã Erdinger e a irlandesa Guiness até as mais exóticas como a russa Baltika (uma Lager de sabor lupulado), a inglesa Fullers Honey Dew (com adição de mel), a belga Kriek Boon (que é feita através de fermentação espontânea com suco de cereja) e a austríaca Eggenberg Samichlauss que, com seus 14% de teor alcoólico, é considerada a Lager mais forte do mundo.
Bastava isso para a vizinhança já se dar por muito satisfeita, mas, para o simpático casal, era pouco. Então, de dois meses para cá, o bar passou a oferecer música ao vivo - de início uma vez por semana, mas hoje, atendendo aos pedidos dos clientes, o som rola de quinta a sábado.



E quem pensa que o esquema é o tradicional banquinho, violão e cantor desconhecido cantando as músicas de sempre, engana-se completamente. O som é de primeiríssima linha, como o estiloso jazz do Anderson Quevedo Quarteto, a bossa nova e a MPB da Lu Barros ou o jazz para lá de inusitado do FreeKJazz, que interpreta com levada jazzística clássicos do rock de Pink Floyd a Iron Maiden enquanto se espreme entre geladeiras, garrafas e sacos de carvão que formam o fundo do cenário.
Quem toca por lá é o Neymar Pires Trio, que já levou convidados como o Arismar do Espírito Santo. E quem estava botando a casa para dançar nesta semana mesmo era o velho e bom Jai Mahal, pioneiro da Vila Madá e “o homem do reggae” no Brasil, acompanhado pelos excelentes Pacíficos DuBanda e por ninguém menos que Simone Sou, ícone da percussão brasileira, que acompanha o Chico César e já tocou com Itamar Assumpção, Mutantes, Zeca Baleiro, Nando Reis e tantos outros.



E com tudo isso o esquema é de casa de amigos, de festa na esquina, de botequim de vila. Você chega e se enturma com os outros clientes, com os músicos, com os donos. Pede uma cerveja, uns queijinhos, outra cerveja. E depois vai embora cantando, com mais amigos,  mais leve e feliz. A vida é simples. A gente é que complica.

Adega da Esquina – Rua Caminha de Amorim, 409 – Alto de Pinheiros – São Paulo. Tel: 2667-4884 / 2667-7488. Horário: Terça a Sábado das 18h à 1h.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Bar dos Cornos (Jaguaré - São Paulo)



O filósofo cearense Marcondes Falcão Maia, mais conhecido como o cantor Falcão, sabe que a besteira é a base da sabedoria e que esse negócio de chifre é coisa que os outros colocam na sua cabeça. Por isso, numa dessas andanças por São Paulo, foi conhecer o Bar dos Cornos, como comprova sua foto orgulhosamente ostentada na parede do folclórico botequim do Jaguaré.
Pois é. Quando a gente pensa que já viu de tudo nessa vida, aparece uma coisa dessas. Na seara dos bares temáticos que assolam esse mundão, este é o único (pelo menos eu quero crer nisso) a homenagear as vítimas das infidelidades amorosas.


Mas o bar se chama, na verdade, Recanto Nordestino e, mesmo com a fama do exótico apelido, faz justiça a seu nome oficial por alguns motivos. Um deles é porque quando você consegue escapar da agitação das avenidas Jaguaré, Politécnica e Corifeu e subir a ruazinha que leva ao bar, você mergulha em um ambiente cada vez mais tranqüilo até encontrar o boteco, que tem todo o jeito daquelas vendinhas antigas de uma cidadezinha qualquer no sertão do Nordeste.


Outra razão, que é a principal, é porque o forte do cardápio é a típica comida nordestina, daquelas que não é qualquer cabra que encara de frente sem se preocupar com os fundos. Tem jabá na manteiga de garrafa, rãs, feijão de corda, fava com costela de porco, caldo de mocotó e sarapatel. Para os estômagos mais “paulistas”, tem pratos portugueses como alheira, lingüiça portuguesa e bolinhos de bacalhau, além de petiscos tradicionais, como croquetes, batatas e pastéis, com destaque para o “Disco Voador dos Cornos”, um pastel redondo, de carne, queijo e vinagrete. Tudo bem servido, afinal, um dos mandamentos da casa é “onde come um, comem dois”.
E para esquecer a “dor de corno”, a casa oferece as cervejas tradicionais e uma carta com centenas de cachaças, incluindo aí a marca da casa, batizada de “Cachaça dos Cornos”. Tudo isso num cardápio bem simples que traz ainda a singela advertência: “Não servimos mulheres. Quem quiser que traga a sua”.

O apelido do bar surgiu do estranho hábito do Sr. Fernando Pereira, proprietário da casa, de utilizar algumas cabeças de boi e alguns outros chifres na decoração. Como a quantidade de objetos só fazia crescer, o fato chamou a atenção de um freqüentador, que soltou a frase definitiva: “isso aqui está parecendo um bar de cornos!”.
“Seu Fernando” viu nisso uma maneira de chamar a atenção para seu comércio e passou então a ampliar sua decoração. Ela pode ser considerada o que há de mais fino em matéria de grossura: dezenas de chifres, garrafas penduradas, peles de animais e aquelas canecas de chopp que imitam genitais masculinos e femininos. Tudo de uma delicadeza paquidérmica que pode ser observada bem antes de chegar ao local, graças ao “Cornomóvel”, um antigo landau com um imenso par de chifres sobre o capô que fica estacionado na frente do boteco e que eventualmente serve para levar algum cliente mais debilitado em casa (já imaginou chegar em casa assim?).

O Bar dos Cornos foi inaugurado em 1988 na rua Araicás, mas em 2007 mudou-se para o local atual, mais espaçoso, que lhe permitiu abrigar mais mesas e colocar música ao vivo todos os dias. No repertório, é claro, pagode e sertanejo para corno nenhum botar defeito.
A cereja do bolo é o “detector de cornos”, uma gravação com algum tipo de sensor que, assim que as pessoas adentram o recinto, ressoa no alto-falante um “Bem-vindo, amigo corno! Bem-vinda, amiga corna!”.

Se sua intenção for ir a um lugar bonito, provar comidas criativas, tomar bons drinques e paquerar, não passe nem perto de lá. Mas se a idéia for se divertir em um lugar simples e dar boas risadas com os amigos, o Bar dos Cornos pode ser uma ótima pedida. Aproveite.
Afinal, como diz o “poeta” Falcão, “é ganhando que se ganha, é empatando que se empata, e perdendo que se perde. É nascendo que se nasce, é morrendo que se morre, é vivendo que se véve!”.

Bar dos Cornos – Avenida General Mac Arthur, 865 – Jaguaré – São Paulo. Tel: 3766-2969. Horário: Segunda a Sábado das 8h à 1h, Domingo das 10h às 22h.




Embora Falcão seja personagem indispensável desta história, resolvi postar um vídeo dos saudosos Mamonas Assassinas, gravado em Valinhos pelo don Pedrucci, e que também é dedicada ao tema central desta matéria:


terça-feira, 19 de abril de 2011

Portella (Bela Vista / SP)



“Se um dia meu coração for consultado para saber se andou errado, será difícil negar”.
Não, meu caro Paulinho da Viola, não é em homenagem à Majestade do Samba. Trata-se, sim, de um boteco bem paulistano, em um dos bairros mais típicos dessa terra dos temporais (ex-garoa). Mas acho que você iria apreciar.

Como aí em Madureira, aqui não falta tradição. O bar foi fundado em 1969 e desde então caiu nas graças da boemia da cidade, que o toma todas as noites, graças à sua simplicidade, ao bom atendimento e, claro, à cerveja sempre gelada e à comida boa.
Comida ótima, aliás, que tem origem baiana, com muita carne de sol, jabá desfiado, purê de abóbora, feijão de corda, baião de dois, dendê e pimenta. Quem sabe é até uma influência desconhecida das “Baianinhas de Oswaldo Cruz”, um dos tantos blocos que formou sua escola lá pela década de 20.

Há também muitos outros petiscos igualmente bons, como a casquinha de siri (uma das mais famosas da cidade), o frango à passarinho que a Piera nunca deixa passar, o Portadella (uma empanada de mortadela com pistache que já ganhou até prêmios por aí) e o “Vai-Vai” (com carne seca, purê de abóbora e um exclusivo molho de pimenta), homenagem à escola de samba quase vizinha.
Pois é. Também aqui não falta o samba, já que o bar fica bem pertinho da Vai-Vai que, como a sua Portela, é a maior campeã da cidade. E também por que de vez em quando a música toma conta do bar, numa empolgação que você precisa ver. Dá até para ouvir de longe um “Portela, Portela... o samba trazendo alvorada, meu coração conquistou...”

 “Porém – ai, porém – há um caso diferente, que marcou um breve tempo”: o famoso e caudaloso azul e branco daí não está aqui. Tudo aqui é em cores quentes, com paredes amarelas e ocres e toldos vermelhos. É assim há 42 anos. desde a inauguração, e assim ficará, como manda a tradição baiana.
Tampouco sua águia – mais famoso abre-alas do país, se faz presente. O espaço da casa é todo preenchido pelas garrafas, fitas, palhas, cordas e cabaças penduradas por todos os cantos. E tão preenchido que não sobra espaço para mais nada.

Em vista dessa falta de espaço e como se a comida baiana não fosse suficiente para botarmos fogo pelas ventas, as donas da casa deram um jeito e anexaram mais um espaço à casa, onde montaram uma senhora cachaçaria.
Ela fica num espaço um pouco mais aconchegante e apresenta uma carta com mais de 300 tipos da bebida, onde fazem sucesso algumas opções mais docinhas, como a Kariri com mel (da Bahia, claro) e opções um pouco mais comportadas, como as caipirinhas e a batida de coco queimado.

Aí é preciso ter cuidado ou então saímos com a música trocada. E “chama por Cartola, chama por Candeia, chama Paulo da Portela, chama Ventura João da Gente e Claudionor, chama por mano Heitor, chama Ismael, Noel e Sinhô, chama Pixinguinha, chama”.
Mas como você mesmo diz, é bom “para aliviar o peso das palavras, que ninguém é de pedra”.

Portella – Rua Sebastião Soares de Faria, 49 a 61 – Bela Vista / SP. Tel: 3262-2794. Horário: Segunda a Sexta a partir das 17h, Sábado a partir das 13h.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Bar do Luiz Fernandes (Mandaqui / SP)



Quando eu ouvia falar do Bracarense, no Rio de Janeiro, mas ainda não o conhecia, uma coisa não entrava na minha cabeça: como é que numa cidade que pode ser considerada a capital mundial dos botecos, um bar tão pequeno e simples pode conquistar uma legião de adoradores que se aglomeram diariamente à sua porta, sentados em banquinhos, em suas próprias cadeiras de praia ou mesmo em pé, em uma busca apaixonada por seu chopp e seus petiscos?

A resposta que só eu não conhecia é: tudo ali é muito pessoal e informal, atencioso, com bons preços, deliciosos petiscos e tudo de primeiríssima qualidade.
Não sei se a referência é a ideal, mas foi a que me veio à memória (e o pior é que vem com cheiros e gostos) quando comecei a pensar sobre o Bar do Luiz Fernandes, a simpática casa da Zona Norte, desconhecida pela maioria dos paulistanos, mas simplesmente idolatrada por seus frequentadores.
O bar surgiu em 1970, da falência da mercearia da família, sufocada pelos supermercados que chegavam à região e da perspicácia do Sr. Luiz,  que viu ali uma oportunidade e transformou a mercearia em um boteco.

E criou “o” Boteco. Não desses que topamos hoje em todos os cantos, sem personalidade e que imitam os botequins de antigamente, e sim daqueles com banquetas de plástico, mesas de lata, garçons simpáticos, cerveja sempre geladíssima, petiscos gostosos e muita, muita história para contar.
Desde sempre comandado pelo próprio Sr. Luiz Fernandes, o bar se chamava, até 2003, Bar do Luiz, quando resolveu acrescentar o sobrenome para não ser confundido com o mais que centenário carioca Bar Luiz. Sempre ao lado dele, Dona Idalina, sua fiel escudeira, é ainda a responsável pela cozinha e suas maravilhas. À frente, transbordando simpatia e recebendo cada cliente como se fosse um amigo de infância, o filho Luiz Eduardo.
Tudo isso numa casinha pequena que foi se espalhando pela simpática rua, primeiro numa reforma que adaptou a garagem ao lado integrando-a jeitosamente à casa e depois na hora que o comércio fecha as portas e suas mesas avançam até o estacionamento das lojas vizinhas. E ainda assim os garçons seguem se esforçando para fazer caber todo mundo, como num coração de mãe. E “salta cerveja estupidamente gelada prum batalhão”.

E batidas. O bar faz dezenove diferentes. Dizem que as preferidas são a de amendoim com licor de cacau e a de morango com vinho, patrimônios sagrados do boteco, feitas pessoalmente pelo Sr. Luiz e exibidas pelas prateleiras acondicionadas em garrafas antigas de leite Paulista.
E caipirinhas! Elas também são preparadas pelo anfitrião em opções diversas como a “Verde e Amarela” (limão e maracujá), a “Velha Guarda” (de limão galego), a “Clássica” (de limão Taiti e lima da Pérsia) e outras como morango, carambola, uva, ameixa, goiaba etc.

Chegamos então ao balcão. Verdadeira instituição botequeira que é, a casa não poderia deixar de ter um balcão de acepipes, separados pela casa entre os “frios” (salames, queijos, salsichões, rosbifes, chouriços etc), os “leves” (pepinos, batatinhas, tomates, rabanetes, ovos de codorna, cogumelos e outros) e os “de peso” (moela, pé de porco, fígados de frango e de boi), curiosamente vendidos por porção ou por unidade, e não por peso.
Só que tudo isso que eu falei até agora são apenas mínimos detalhes, pois o ponto alto da casa é o chamado “petisco de boteco”: bolinhos, pastéis e afins – aquilo que por aí é conhecido como “baixa gastronomia”, mas que aqui pode até ser chamada de “alta gastronomia dentro de um bolinho”.

Um dos exemplos é a “Surpresa de Dona Idalina”, campeão do Boteco Bohemia 2006, concurso que escolhia o melhor petisco da cidade. Trata-se de um bolinho que leva berinjela, carne moída, mussarela, tomate seco e diversos outros ingredientes.
Em 2008, o bar ficou com o segundo lugar no mesmo concurso com o petisco “Delícia Portuguesa”, um bolinho de bacalhau servido de maneira primorosa, cortado ao meio, em uma forminha de cerâmica para ser molhado no azeite e no alho frito com pimenta rosa.

O concurso não existe mais, mas o bar não parou de criar opções. Uma delas é o “Bolinho Maravilha”, preparado com berinjela, lingüiça Blumenau, mussarela e pepino em conserva, sempre servido na companhia da mostarda escura holandesa.
Outra delícia é o “Quarentinha”, criado no ano passado em homenagem aos 40 anos do bar, que é feito com massa de batata, mussarela ralada, tomate seco, manjericão, miolo de alcachofra e aliche!
E quando você pensa que já é mais que suficiente, o Luiz Eduardo começa a descrever detalhadamente o “Brasileirinho”, feito com massa de mandioquinha e com um recheio que mistura o feijão e as carnes da feijoada com muitos temperos, e que ainda não está no cardápio, mas já é servido pela casa e é tão espetacular quanto os outros.

Tudo isso e mais algumas coisas que já devo estar esquecendo dão à sua legião de “fiéis” uma certeza: o Bar do Luiz Fernandes é muito mais que um dos melhores botecos de São Paulo. É uma extensão de suas casas, só que um barman melhor, uma cozinheira melhor e uma turma de amigos que nunca vai te deixar sozinho.

Bar do Luiz Fernandes – Rua Augusto Tolle, 610 – Mandaqui / SP. Tel: 2976-3556. Horário: Terça a Sexta das 15h às 0h, Sábado e Domingo das 11h30 às 18h30.




Como uma colher de chá para nossos leitores, segue abaixo a receita do “Quarentinha”, gentileza dos gentis proprietários:

Quarentinha 

Ingredientes para massa: 

1 kg de batata holandesa 
1 kg de farinha de trigo 
1 cebola grande 
4 dentes de alho 
1 tablete de caldo de galinha 
Sal 

Ingredientes para o recheio: 

Mussarela ralada 
Tomate seco picado e temperado 
Requeijão 
Folhinhas de manjericão 
Miolo de alcachofra 
Aliche dessalgada e temperada com :cebolinha, alho, pimenta dedo de moça e folhas de loro. 


Preparo da massa: 

Coloque em uma panela 2 litros de água, as batatas já descascadas, junto com os temperos (alho, sal e um pouco de pimenta do reino).
Deixe cozinhar ate o ponto do garfo entrar na batata com facilidade.
Após cozida as batatas transfira tudo que estava na panela e bata em um processador.
Após bater, em outra panela coloque 5 colheres de sopa de margarina, acrescente a massa e vai despejando devagar a farinha de trigo (não pode parar de mexer se não a massa empelota) até ficar bem homogenia.
O momento certo de parar de mexer é quando a massa solta com facilidade da panela. Em uma travessa espalhe a massa para esfriar.

Montagem da quarentinha: 

Pegue um pouco de massa, coloque na palma da mão, faça um formato côncavo, e acrescente os ingredientes: mussarela, requeijão, aliche, tomate seco, manjericão e um pouquinho de orégano.
Feche a massa, como se fosse uma trouxinha e depois vá moldando até ficar num formato oval.
Daí é só empanar, passar no ovo e na farinha de trigo.

Modo de fritar: 

De preferência em uma fritadeira elétrica a 150 graus.



A Festa dos 41 Anos

Em 2008, o Bar do Luiz Fernandes levou mais de mil pessoas à Festa da Saideira do Boteco Bohemia. Em 2009, com os ingressos limitados, vários dos melhores bares da cidade saíram do concurso, que deixou de existir.

Foi então que a “família Fernandes” resolveu criar sua própria folia e comemorou os 40 anos do bar em uma imensa festa na Casa das Caldeiras. 

E como a coisa toda deu mais que certo, a festa se repetirá no próximo dia 21/5, com a participação de Funk Como Le Gusta, Demônios da Garoa e muito mais.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Botequim do Hugo (Itaim Bibi – São Paulo)



São Paulo é um imenso coração, dentro do qual pulsam milhões e milhões de pequenos corações, cada um deles com uma história incrível a ser contada. Uma delas começa assim:
Início do século XX. A região onde hoje se encontra o bairro do Itaim é uma grande várzea dividida em chácaras pertencentes aos herdeiros do general Leopoldo Couto de Magalhães – entre eles seu filho homônimo apelidado de “Bibi”, devido ao hábito de usar bonés de bico.

É ele quem dá início, já na década de 20, ao loteamento das terras, dividindo-as em pequenos lotes de 500 metros quadrados, uniformizados no padrão 10m x 50m, que são vendidos principalmente a comerciantes italianos e portugueses.
Um desses novos moradores é Marcelino Cabral, imigrante português que vê ali uma oportunidade de um futuro melhor. Em 1927 ele monta sua casa nos fundos do terreno e cria, na parte da frente, a Mercearia São José.
A Mercearia São José é uma venda de secos e molhados instalada na minúscula garagem que fica na entrada do terreno do Sr. Marcelino, de frente para a rua Pedroso Alvarenga, uma rua de terra onde seus filhos brincam enquanto crescem ajudando o pai na venda.

Anos 60. O Itaim Bibi é um bairro tranqüilo onde todos se conhecem. Nas tardes de domingo, as famílias ficam com cadeiras nas calçadas enquanto as crianças brincam na rua, sem medo de roubos ou atropelamentos.
Já que ninguém chamava a mercearia por seu nome mesmo e sim pelo de seu dono, ela agora se chama Empório Cabral. Na frente dele, Hugo e Emiliana, netos do Sr. Marcelino, brincam na rua.

Pulemos de repente para o século XXI. O Itaim Bibi se transformou em um bairro agitadíssimo, com prédios imensos, carros importados e um sem-fim de bares chiques que fazem da região uma das mais caras e disputadas da cidade.
As casas sumiram, dando a impressão de que o bairro simplesmente desapareceu e colocaram outro no lugar. Os arranha-céus, as grandes redes de supermercados, as farmácias e as grifes da moda deixam claro que tudo no Itaim mudou.

Ou quase tudo. No meio desse turbilhão de modernidade encontra-se, quase camuflada, a casa da família Cabral e a velha mercearia, agora com o nome de Botequim do Hugo e tocada, há 25 anos, por Hugo e Emiliana, os netos do Sr. Marcelino.
No legítimo e minúsculo botequim, o tempo parou. O bar conserva, a duras penas, sua fachada original, com paredes amarelas e um portão de grade ao lado, que dá num pequeno quintal que leva à casa da família, mas que virou espaço para mais algumas mesas.

As paredes internas e o quase centenário armário que guardava os produtos da mercearia hoje hospedam uma infinidade de lembranças, instrumentos, rádios antigos, copos, lampiões, bonecos, quadros, cornetas, revistas, berrantes, fotografias e sabe-se lá mais o quê ou quantas coisas, tudo misturado, formando um conjunto caótico onde é possível passar horas – talvez dias – descobrindo novidades.
Espremidos atrás do balcão ou circulando entre as mesas e potes de tremoços, salsichas e paçocas, Hugo e Emiliana, tocam sozinhos o atendimento aos fiéis clientes, que são muitos e muito amigos, quase da família – ou pelo menos se sentem assim.
Entre antigos freqüentadores de cabelos grisalhos e jovens que deixam o trabalho no fim do dia, suas vinte e poucas cadeiras lotam de segunda a sexta (a casa não abre nos finais de semana, como nos velhos tempos) com gente em busca de um bom bate-papo, cerveja gelada e os deliciosos pastéis, caprichosamente preparados pelos outros familiares, que se encarregam da cozinha da casa.

Outras opções? Apenas o trivial bom e barato de qualquer mercearia dos tempos idos, como algumas poucas bebidas, sanduíches de mortadela ou carne moída e porções de salame, queijos ou azeitonas.
Tudo devidamente separado entre “secos” e “molhados” em um cardápio caprichosamente escrito a mão! E tudo devidamente oposto aos “molhos de tamarindo neozelandês com raspas de trufas brancas italianas e toques de avelãs da Prússia” que infestam a região.
Enfim, o Botequim do Hugo é um lugar diferente. Um bar muito hospitaleiro e carinhoso, com jeitinho de antigamente, gostinho de casa de família e um fortíssimo cheiro de saudade no ar.

Botequim do Hugo – Pedroso Alvarenga, 1014 – Itaim Bibi Tel 3079-6090 – Horário: Segunda a Sexta das 16h às 22h.


Coloco abaixo um vídeo surpreendente, gravado do jeito que deu por Felipe Machado, de uma improvisadíssima canja do cantor / músico / multinacional / clandestino Manu Chao, em pleno Botequim do Hugo:


segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Empanadas (Vila Madalena / São Paulo)



Comecemos 2011 com um clássico. Tá bom, tá bom... o Empanadas não é mais um lugarzinho propriamente dito. Mas ele é um dos grandes exemplos de um lugarzinho que virou um lugarzão, mas manteve todas as suas características de...lugarzinho.
O Empanadas nasceu “Martin Fierro” em 1980, da improvável sociedade entre um argentino, o Hugo, e um chileno, o Reinaldo. Coisas da Vila. O bar era um pequeno salão, com um balcão e algumas mesinhas de lata.
Este salão, que é hoje apenas uma parte do bar, continua lá e, exceto pelas mesas que agora são de madeira, ele é exatamente como era, com seus posters de filmes, o ônibus pintado a mão pelo Chocante e as fotos de novos e antigos freqüentadores.

Cult desde sempre, o bar logo atraiu os estudantes da USP, os jornalistas, os alternativos em geral e, principalmente, a turma do cinema, chegando a ter parcerias com a Tatu Filmes e a Filme Brasil, numa época em que na Madalena só haviam ele, o Sujinho e muita tranqüilidade.
É dessa época que vem a maioria dos posters e até um Kikito, ganho por Mario Mazzetti no festival de Gramado e que acabou indo morar na estante do bar, “para ficar exposto em lugar público”.

Destes longínquos tempos trago lembranças tão doidas que chego a pensar que joguei fora as memórias e guardei as alucinações.
Uma delas é de que sempre que eu queria encontrar o Erick e o Morto, numa época em que os celulares não existiam (nossa! Estou ficando velho!), ligava primeiro para o Empanadas e só depois para as casas deles.
Outra delas é do Glauco, saudoso “pai” do Geraldão, assassinado há 10 meses. No final dos 80 / início dos 90 ele vivia por ali, tomando cerveja, rodeado de amigos e usando o bar como inspiração para muitos de seus personagens.
E ainda outra, inesquecível, ocorreu no dia do impeachment do até então presidente Collor, quando o bar, lotado, acompanhou voto a voto a decisão pela TV. E a multidão, emocionada e de mãos dadas, chorou e cantou junto o Hino Nacional! A comoção foi tamanha que cada um dos presentes ganhou uma cerveja por conta da casa.

Foi também mais ou menos nessa época que o bar mudou de mãos, sendo assumido por quatro funcionários da casa: o Robson, o Léo, o Rafael e o Santos, e de nome, passando a se chamar oficialmente “Empanadas Bar”, como já era conhecido por todo mundo, mesmo.
Aí o que era bom ficou melhor. De lá pra cá o bar só fez crescer em fama e em tamanho, engolindo a assistência técnica e a farmácia que ficavam ao lado e ganhando espaço para a clientela que já não cabia em suas mesas.

Acostumados com o trabalho da casa e com o contato com o público, os quatro sócios tornaram-se muito mais do que donos de bar. Tornaram-se amigos próximos tanto dos garçons quanto dos clientes.
O clima familiar entre os funcionários é tão grande que, além de muitos deles serem mesmo irmãos, vários resolveram ser pais quase ao mesmo tempo, formando uma legião de crianças que em dias mais festivos aparece por lá. E aos clientes mais chegados cabe sempre perguntar ao Messias, ao Ricardo, ao Dunga e ao Val como vão o Gustavo, a Giovana, a Lavínia e o Ravi. E por aí vai.

Faltou falar das empanadas propriamente ditas. São deliciosas. Tem de carne, frango, queijo, palmito, espinafre, calabresa, carne seca, Romeu e Julieta, Roquefort etc. São feitas do mesmo jeito há décadas, de um modo que a massa fica fina e macia sem estourar. Já tentamos fazer em casa e não deu certo. Já tentei descolar a receita, também sem sucesso.
Com o tempo aprendi que comer lá é muito melhor. Assim, dá para provar as bolachas de provolone e parabenizar o Dunga pela São Silvestre. Dá para curtir o estilo e o papo meio neohippie dos frequentadores e saber os detalhes da última ida do Robson a Pernambuco. Dá para experimentar as caipirinhas e “secar” o Corinthians do Messias.
O Empanadas é assim. Uma grande confraria. A Vila como ela era.
Empanadas - Rua Wisard 489 - Vila Madalena / São Paulo Tel: 3032-2116 - Funcionamento: Segunda a Sexta das 12h às 2h, Sábado das 13h às 3h e Domingo das 13h à 1h.


Como uma lembrança do Glauco, copio aqui uma história de Los 3 Amigos, feita com o Laerte e o Angeli, em que ele presta uma homenagem à Vila Madalena e ao próprio Empanadas:

 

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Bar do Toninho (Santos / SP)



De vez em quando dá saudade de Santos. E quando tento matá-la, as primeiras coisas que me vêm à cabeça são a praia, claro, o calor, que só agora voltou para Sampa e, curiosamente, o Bar do Toninho. 
E normalmente vem tudo junto, pois uma das coisas que mais gostávamos de fazer quando morávamos lá era ir à praia e ficar nela até a hora que a fome deixasse e depois parar para comer no Toninho. Então...
“Ainda bem que eu trouxe até meu guarda-sol. Tenho toda a tarde, tenho a vida inteira...” A música não sai da cabeça. Como não tenho pressa e a fome ainda não é tanta, dá tempo de passar em casa para tomar um banho e aí sim, ir para o bar pronto para passar algumas horas ali, já relaxado, de bermuda e chinelo, tomando cerveja, devorando bolinhos e pastéis, vendo o tranqüilo agito do bairro do Embaré e encontrando os conhecidos que passam o tempo todo para lá e para cá.

O “Toninho” é, de certo modo, o melhor lugar de Santos. Sei que choverá pedradas por causa disso, mas fazer o quê? É verdade. É o bar que a cidade inteira conhece e freqüenta, mesmo sem notar. Quase todo mundo fala mal, mas quase ninguém sai de lá. 
A equação é simples: boteco totalmente despojado, com mesas de plástico + garçons ágeis e amigos, que conhecem a maioria dos clientes pelo nome + bebidas sempre geladas + pastéis maravilhosos de carne, camarão, siri, queijo, palmito, carne-seca, bacalhau e sei lá mais quantos, um melhor que o outro e que praticamente não têm ar dentro, só massa e recheio. Meu preferido é o de camarão. Ou será o de carne?
Para começar, o Bar do Toninho é, de longe, o bar mais democrático que eu conheço. Tem o pessoal que chega cedinho para tomar café com leite e comer um pão com manteiga, tem a turma que passa de maiô e chinelo para comer uns pastéis na volta da praia, tem a turma do happy hour, os que chegam mais produzidos antes ou depois da balada, os que passam só para comer alguma coisa e ficam na paquera, as turmas de amigos, os turistas, os que vêm para assistir o jogo, etc.
Os jogos são um caso à parte. O Toninho, que é palmeirense e está sempre lá, tratou de espalhar uns periquitos pela decoração do bar. Quem também estão sempre lá são seus filhos, o Toni e o Jaime, que é são-paulino roxo. Como a grande maioria do público é santista e corinthiano deve existir até no céu (o inferno é lotado), o bar sempre se transforma em um estádio multicolorido, e dos mais animados e lotados.

Os garçons participam de tudo. O Paulo, santista, mal tem tempo de ver o que acontece enquanto grita os números das senhas na “loteria” por uma mesa para a multidão que aguarda lá fora. O Odair, flamenguista, seca todos os outros times ao mesmo tempo. 
E tantos outros, sempre simpáticos, atenciosos e “no espírito do bar”. Entre eles, bons amigos que sumiram por aí, como o Eliel,que foi trabalhar em algum lugar de São Vicente, o Beto, que há pouco tempo encontramos no “Viva Vinhos” e os gêmeos Crispim e Crispiniano, sósias do Robinho (serão trigêmeos?), que, ao que parece, montaram seu próprio bar no Guarujá.
A história do Toninho é das mais tradicionais e se confunde com tantas outras de descendentes de portugueses que, com muito trabalho, alcançaram o sucesso no comércio: Antonio Almeida Cardoso, o Toninho, trabalhou alguns anos no Lanches Praia, a menos de um quilômetro dali.

Quando seus colegas resolveram sair de lá para tocar o Carioca, um clássico da cidade, ele resolveu seguir seu próprio caminho, passando pelo Caracu e a Casa Calçada, até montar seu minúsculo boteco atrás da igreja do Embaré, em 1987.

O lugar, que ficava na passagem de muitos e na parada de poucos era pequeno, meio escuro, com apenas quatro ou cinco mesas e um único banheiro para homens e algumas corajosas mulheres. Porém, os bolinhos e os pastéis já eram os melhores da cidade, o que fazia com que muita gente, mesmo receosa, fosse conhecer o bar.

Mesmo reconhecendo que tudo no bar melhorou muito com o novo endereço, Toninho ainda se emociona ao lembrar do antigo ponto. “Não dá pra dizer que não sinto saudades. Significava muito para mim. Era o começo da realização de um sonho”, afirma.


Dessa época, quem conta histórias saborosas são a Piera e o Rubinho, amigos que também subiram a serra, mas que moravam na esquina, a uns 20 metros do bar, separados por um prédio e uma ruazinha.

Uma destas histórias fala de um “Banho da Dorotéia”, tradicionalíssimo evento da cidade que antecedia o Carnaval, no qual a cidade inteira se vestia de mulher e que, como tantas outras tradições santistas, a Prefeitura conseguiu acabar.

Ocorreu neste dia que um grande grupo de foliões resolveu se “concentrar” justamente no Toninho e, como tinha mais gente do que bar, o pessoal foi se espalhando. 

Cerveja vai, batidinha vem, mais gente chegando, menos bar sobrando e quando eles deram por si havia diversas “Dorotéias” no quintal e até mesmo dentro de casa, já enturmados e instalados pelos sofás. O jeito foi entrar no clima e curtir a festa.
Foi também neste período que surgiu o subtítulo “o Rei do Bolinho de Bacalhau”. Será? Admito que é o carro-chefe da casa, mas a substituição da alcunha por “Rei dos Pastéis”, para mim, seria muito justa. Tem muito pastel bom por aí, mas eu prefiro, sempre, os de lá.

Veio então 2001 e, com 14 anos de funcionamento e clientela formada, surgiu a oportunidade de ocupar o lugar de um antigo restaurante a dois quarteirões dali.
 O bar se mudou então para a esquina que ocupa hoje. E o sucesso foi automático e estrondoso. Do dia para a noite, o cruzamento da Epitácio Pessoa com a Oswaldo Cochrane se tornou o lugar mais agitado da cidade, abarrotado de gente de terça a domingo.  O barzinho de 4 mesas passou a ter 80 nos horários de maior movimento. As poucas dezenas de freqüentadores passaram a ser milhares.
Mas, o atendimento, os bolinhos, as caipirinhas, as porções, as cervejas e os pastéis permanecem exatamente os mesmos. “Então, deixe viver, deixe ficar, deixe estar como está”.

Bar do Toninho – Av. Epitácio Pessoa 241 – Santos/SP 
Tel (13) 3932-4818.
Horário: Terça a Domingo e feriados das 9h às 3h.