Quando eu ouvia falar do Bracarense, no Rio de Janeiro, mas ainda não o conhecia, uma coisa não entrava na minha cabeça: como é que numa cidade que pode ser considerada a capital mundial dos botecos, um bar tão pequeno e simples pode conquistar uma legião de adoradores que se aglomeram diariamente à sua porta, sentados em banquinhos, em suas próprias cadeiras de praia ou mesmo em pé, em uma busca apaixonada por seu chopp e seus petiscos?
A resposta que só eu não conhecia é: tudo ali é muito pessoal e informal, atencioso, com bons preços, deliciosos petiscos e tudo de primeiríssima qualidade.
Não sei se a referência é a ideal, mas foi a que me veio à memória (e o pior é que vem com cheiros e gostos) quando comecei a pensar sobre o Bar do Luiz Fernandes, a simpática casa da Zona Norte, desconhecida pela maioria dos paulistanos, mas simplesmente idolatrada por seus frequentadores.
O bar surgiu em 1970, da falência da mercearia da família, sufocada pelos supermercados que chegavam à região e da perspicácia do Sr. Luiz, que viu ali uma oportunidade e transformou a mercearia em um boteco.
E criou “o” Boteco. Não desses que topamos hoje em todos os cantos, sem personalidade e que imitam os botequins de antigamente, e sim daqueles com banquetas de plástico, mesas de lata, garçons simpáticos, cerveja sempre geladíssima, petiscos gostosos e muita, muita história para contar.
Desde sempre comandado pelo próprio Sr. Luiz Fernandes, o bar se chamava, até 2003, Bar do Luiz, quando resolveu acrescentar o sobrenome para não ser confundido com o mais que centenário carioca Bar Luiz. Sempre ao lado dele, Dona Idalina, sua fiel escudeira, é ainda a responsável pela cozinha e suas maravilhas. À frente, transbordando simpatia e recebendo cada cliente como se fosse um amigo de infância, o filho Luiz Eduardo.
Tudo isso numa casinha pequena que foi se espalhando pela simpática rua, primeiro numa reforma que adaptou a garagem ao lado integrando-a jeitosamente à casa e depois na hora que o comércio fecha as portas e suas mesas avançam até o estacionamento das lojas vizinhas. E ainda assim os garçons seguem se esforçando para fazer caber todo mundo, como num coração de mãe. E “salta cerveja estupidamente gelada prum batalhão”.
E batidas. O bar faz dezenove diferentes. Dizem que as preferidas são a de amendoim com licor de cacau e a de morango com vinho, patrimônios sagrados do boteco, feitas pessoalmente pelo Sr. Luiz e exibidas pelas prateleiras acondicionadas em garrafas antigas de leite Paulista.
E caipirinhas! Elas também são preparadas pelo anfitrião em opções diversas como a “Verde e Amarela” (limão e maracujá), a “Velha Guarda” (de limão galego), a “Clássica” (de limão Taiti e lima da Pérsia) e outras como morango, carambola, uva, ameixa, goiaba etc.
Chegamos então ao balcão. Verdadeira instituição botequeira que é, a casa não poderia deixar de ter um balcão de acepipes, separados pela casa entre os “frios” (salames, queijos, salsichões, rosbifes, chouriços etc), os “leves” (pepinos, batatinhas, tomates, rabanetes, ovos de codorna, cogumelos e outros) e os “de peso” (moela, pé de porco, fígados de frango e de boi), curiosamente vendidos por porção ou por unidade, e não por peso.
Só que tudo isso que eu falei até agora são apenas mínimos detalhes, pois o ponto alto da casa é o chamado “petisco de boteco”: bolinhos, pastéis e afins – aquilo que por aí é conhecido como “baixa gastronomia”, mas que aqui pode até ser chamada de “alta gastronomia dentro de um bolinho”.
Um dos exemplos é a “Surpresa de Dona Idalina”, campeão do Boteco Bohemia 2006, concurso que escolhia o melhor petisco da cidade. Trata-se de um bolinho que leva berinjela, carne moída, mussarela, tomate seco e diversos outros ingredientes.
Em 2008, o bar ficou com o segundo lugar no mesmo concurso com o petisco “Delícia Portuguesa”, um bolinho de bacalhau servido de maneira primorosa, cortado ao meio, em uma forminha de cerâmica para ser molhado no azeite e no alho frito com pimenta rosa.
O concurso não existe mais, mas o bar não parou de criar opções. Uma delas é o “Bolinho Maravilha”, preparado com berinjela, lingüiça Blumenau, mussarela e pepino em conserva, sempre servido na companhia da mostarda escura holandesa.
Outra delícia é o “Quarentinha”, criado no ano passado em homenagem aos 40 anos do bar, que é feito com massa de batata, mussarela ralada, tomate seco, manjericão, miolo de alcachofra e aliche!
E quando você pensa que já é mais que suficiente, o Luiz Eduardo começa a descrever detalhadamente o “Brasileirinho”, feito com massa de mandioquinha e com um recheio que mistura o feijão e as carnes da feijoada com muitos temperos, e que ainda não está no cardápio, mas já é servido pela casa e é tão espetacular quanto os outros.
Tudo isso e mais algumas coisas que já devo estar esquecendo dão à sua legião de “fiéis” uma certeza: o Bar do Luiz Fernandes é muito mais que um dos melhores botecos de São Paulo. É uma extensão de suas casas, só que um barman melhor, uma cozinheira melhor e uma turma de amigos que nunca vai te deixar sozinho.
Bar do Luiz Fernandes – Rua Augusto Tolle, 610 – Mandaqui / SP. Tel: 2976-3556. Horário: Terça a Sexta das 15h às 0h, Sábado e Domingo das 11h30 às 18h30.
Como uma colher de chá para nossos leitores, segue abaixo a receita do “Quarentinha”, gentileza dos gentis proprietários:
Quarentinha
Ingredientes para massa:
1 kg de batata holandesa
1 kg de farinha de trigo
1 cebola grande
4 dentes de alho
1 tablete de caldo de galinha
Sal
Ingredientes para o recheio:
Mussarela ralada
Tomate seco picado e temperado
Requeijão
Folhinhas de manjericão
Miolo de alcachofra
Aliche dessalgada e temperada com :cebolinha, alho, pimenta dedo de moça e folhas de loro.
Preparo da massa:
Coloque em uma panela 2 litros de água, as batatas já descascadas, junto com os temperos (alho, sal e um pouco de pimenta do reino).
Deixe cozinhar ate o ponto do garfo entrar na batata com facilidade.
Após cozida as batatas transfira tudo que estava na panela e bata em um processador.
Após bater, em outra panela coloque 5 colheres de sopa de margarina, acrescente a massa e vai despejando devagar a farinha de trigo (não pode parar de mexer se não a massa empelota) até ficar bem homogenia.
O momento certo de parar de mexer é quando a massa solta com facilidade da panela. Em uma travessa espalhe a massa para esfriar.
Montagem da quarentinha:
Pegue um pouco de massa, coloque na palma da mão, faça um formato côncavo, e acrescente os ingredientes: mussarela, requeijão, aliche, tomate seco, manjericão e um pouquinho de orégano.
Feche a massa, como se fosse uma trouxinha e depois vá moldando até ficar num formato oval.
Daí é só empanar, passar no ovo e na farinha de trigo.
Modo de fritar:
De preferência em uma fritadeira elétrica a 150 graus.
A Festa dos 41 Anos
Em 2008, o Bar do Luiz Fernandes levou mais de mil pessoas à Festa da Saideira do Boteco Bohemia. Em 2009, com os ingressos limitados, vários dos melhores bares da cidade saíram do concurso, que deixou de existir.
Foi então que a “família Fernandes” resolveu criar sua própria folia e comemorou os 40 anos do bar em uma imensa festa na Casa das Caldeiras.
E como a coisa toda deu mais que certo, a festa se repetirá no próximo dia 21/5, com a participação de Funk Como Le Gusta, Demônios da Garoa e muito mais.