sábado, 4 de dezembro de 2010

Frangó (Freguesia do Ó – São Paulo)



- Aquilo que é coxinha! – disse o Renato, tentando convencer o resto da turma, já devidamente instalada em um boteco do outro lado da cidade, a fechar a conta, levantar da mesa, entrar no carro e despencar até a Freguesia do Ó.
- Mas nós acabamos de chegar! E dá mais de 10 quilômetros até chegar lá...
- Vocês não entendem porque vocês não conhecem. Cada coxinha vale pelo menos 1 quilômetro... e a pé!
- Senta aí! Semana que vem nós vamos. Já deixamos combinado aqui. No dia de sempre, na hora de sempre, só que lá no tal do Frangão.
- É Frangó, com o ó da Freguesia!
- Tá bom, no Frangóóó.

Mas o Renato não desistiu. Estava com fome. Quase sonhando com as coxinhas e só falava nisso. Começou descrevendo o caminho:
- Depois que você sai da avenida e sobe a ruazinha, chega numa pracinha que parece cidadezinha do interior. É o largo da Matriz, uma graça, com a igreja no meio e tal. E quase sempre tem uns eventos meio estranhos, tipo quermesse e umas coisas assim. Nem parece São Paulo...
- Sei...
- A gente logo vê o bar porque sempre tem um monte de gente em volta, mas tem lugar. Parece que não, mas sempre tem, porque é um casarão do século 19 que parece um labirinto onde você sobe, desce, vira, anda e tem sempre mais uma salinha e um salão. Aí você senta e espera as coxinhas, que vem sempre no ponto, sequinhas, crocantes...
- Que saco! Pára com isso!
- Eu tô com fome...
- Pede alguma coisa pra comer!
- Será que eles entregam aqui? Duvido! – E de qualquer jeito, lá é melhor, por causa das cervejas. Eu já falei das cervejas? Eles não têm cardápio. Têm uma Bíblia de cervejas! De tudo quanto é canto. O legal é que tem uns pacotes de degustação, tipo você paga tanto e tem direito a tantas cervejas diferentes. Aí você pega uma da Bélgica, outra do Japão, uma holandesa...
- Eu vou dar uma na orelha dele!...

Foi nisso que chegou o Paulo, o último que estava faltando, atrasado, e que já tinha ido com o Renato pras bandas da Freguesia uns dois anos antes.
- Tô contando pra eles do Frangó – disse o Renato, dando a deixa para o Paulo continuar.
- Fui lá faz uns 10 dias – disse o Paulo – Tá muito caro! Fui tomando as cervejas, uma branca italiana, uma preta irlandesa, uma bock dinamarquesa, e quando vi estava duro!
- Você podia ter ficado nas nacionais...
- E quem resiste?
- Tá vendo? Decidido! Não vale a pena. É melhor ficarmos por aqui...
- Peraí! Quem disse que não vale a pena? Eu só disse que não dá pra ir todo dia porque, realmente, eles andam exagerando um pouco. Mas sempre que dá, eu volto. E tem as coxinhas...
- Droga! Você tinha que lembrar das coxinhas?
- Mas não dá para esquecer das coxinhas...
- Tudo bem, mas vocês só falam das malditas coxinhas! Não tem outra coisa pra comer lá?
- Sei lá. Deve ter. Tem uma lista enorme no cardápio, mas eu nunca li. A gente chega e pede as coxinhas. Depois, um ou outro pede o cardápio pra ver o que tem, olha daqui, olha de lá e pede mais coxinha. Eu nem olho...
- Chega! – disse o Renato – eu desisto. Vocês venceram. Tô passando mal. Vou embora para casa. Estou morrendo de fome e agora não consigo comer mais nada, muito menos coxinha, a não ser aquelas. Vou fazer um miojo, pedir uma pizza, conhecer novos amigos, mas aqui eu não fico.
- E se a gente fosse para outro lugar?

Todo mundo se olhou em silêncio. Pediram a conta. Levantaram e se amontoaram quietos no carro do Paulo. Meia hora depois estavam na Freguesia do Ó. Entraram ainda meio quietos. Todo mundo olhando para o Renato. Iam satisfazê-lo e ele ia ficar devendo essa para a turma. Ou então iam matá-lo.
Sumiram dentro do bar e, pelo visto, a coisa foi longe. O garçom não parava de buscar cerveja. Começaram nas nacionais para economizar, mas acabaram intercalando umas gringas entre elas. 
A última notícia que tive é que a conversa tinha esquentado de novo e que iam ficar só mais um pouquinho, pois tinham acabado de pedir mais coxinhas.

Frangó – Largo da Matriz de Nossa Senhora do Ó, 168, Freguesia do Ó, São Paulo - Tel: 3932-4818. 
Horário: Terça a Quinta das 11h à Oh, Sexta e Sábado das 11h às 1h30 e Domingo das 11h às 22h.


Receita da Coxinha


Meu conselho é que você vá até o bar, a menos que você seja realmente muito bom na cozinha. Do contrário, por mais que tente, não ficará igual. Mas vamos lá:


A receita é de Maria Brunhara Piccolo, mulher de Valdecyr e mãe de Cassio, sócios do boteco. Ao contrário da maioria das coxinhas, a do Frangó não leva ovo na hora de empanar. A massa, úmida, já adere à farinha de rosca. Com isso, o quitute fica dourado, crocante e sequinho.

INGREDIENTES:

Massa
900 ml de água filtrada
1/4 de xícara de óleo de soja
6 cubos (cerca de 60 g) de caldo de galinha
650 g de farinha de trigo especial

Recheio e acabamento
900 g de peito de frango cozido e finamente picado
1 cebola pequena bem picada
1/4 de xícara de salsinha bem picada
Sal e pimenta-do-reino
900 g de requeijão cremoso (catupiry)
500 g de farinha de rosca (para empanar)
1 litro de óleo (ou mais, se necessário, para fritar)

MODO DE PREPARO:

Massa
Numa panela grande, coloque a água junto com o óleo de soja e o caldo de galinha e leve ao fogo. Assim que ferver, sem desligar o fogo, vá colocando aos poucos a farinha de trigo peneirada, continuando a mexer até que a massa se solte do fundo da panela e esteja suficientemente cozida e lisa (cerca de dez minutos). Reserve e deixe esfriar só até que seja possível pegá-la com as mãos.

Recheio e acabamento
Tempere o frango picado com a cebola, a salsinha, o sal e a pimenta-do-reino a gosto. Pegue pequenas porções de massa (cerca de uma colher de sopa ou 30 gramas) e abra na palma da mão. Recheie com meia colher (sobremesa) de catupiry e uma colher (sobremesa) de peito de frango temperado. Feche a massa sobre o recheio e modele-a em formato de coxinha. Tente modelar a massa fininha, sem remendos, puxando o bico da coxinha e fechando bem para que ela não abra enquanto frita. Coloque a farinha de rosca numa tigela e passe por ela as coxinhas uma a uma. Numa panela funda, coloque o óleo e aqueça. Dependendo do tamanho da panela, junte mais óleo, de modo que as coxinhas fiquem submersas. Frite-as aos poucos, até estarem crocantes e douradas. Escorra bem e coloque-as sobre papel absorvente antes de servir.

Dica: para obter os 900 gramas de carne já cozida e limpa, calcule cerca de três peitos médios com osso e pele. Cozinhe em água salgada até ficarem macios. Tire os ossos e a pele e pique.

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