segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Astronete Bar (Consolação - São Paulo)



Encare a coisa da seguinte maneira: você não faz parte da multidão que vai passar horas na estrada neste Carnaval. Também não está entre os que gostam de pular com marchinhas e axés nos clubes por aí. E nem entre os que querem ficar no sofá vendo desfile na televisão.
Comemore. Você está entre os poucos que podem aproveitar um dos melhores carnavais que existem: o do Astronete, com muito rock, soul, indie, punk, new wave e nenhuma – absolutamente nenhuma – música de Carnaval.

O Astronete é um dos clubes mais descolados da badalada região da Consolação / Baixo Augusta. E não por pouco. Ali, uma discreta portinha com cortinas vermelhas dá passagem a um mundo fantástico (e estranho), onde esconde-se um espaço dividido entre bar, lounge e uma pista com palco, onde costumam se amontoar um pouco mais de 200 pessoas. Tudo decorado de um jeito meio retrô e com diversos cartazes de filmes um pouco cult, um pouco trash, um muito diferentes.
Em alguns dias é mais balada, em outros é mais bar, com eventos variados e um cardápio incomum aos clubes da região, incluindo aí até opções como os chopes Braumeister e Guiness.




Sobre os eventos, é difícil dar uma noção exata, ou mesmo próxima, do que rola por lá. Mas vou tentar dar alguns exemplos:
Quase toda semana tem “Cinetrash Astronete”, com projeção de filmes de diretores meio “marginais” como Dario Argento ou Zé do Caixão, que fazem parte de um acervo monumental de 1.200 filmes pra lá de alternativos dos donos da casa. É provável que você não conheça o que estará passando. É bem possível que você nunca tenha nem ouvido falar. Mas é certeza que você nunca esquecerá.



De vez em quando tem o “Super Bazar de Discos”, feito em conjunto com a Big Papa Records, com dezenas de expositores de discos de vinil, troca de LPs, discotecagem rolando e tudo mais, ou a “Astronete Boutique”, que vende roupas novas e usadas de marcas modernosas como À Dor Amores, By Boogie e Bella & Me.
E tem o “Neuman’s Cocktail”, um evento mensal inspirado simplesmente na revista MAD(!!), com camisetas, revistas antigas, chaveiros e até músicas ligadas ao tema!

Isso sem falar das festas como a Monster Club, com de rock, eletro e indie e talvez a mais cheia de todas, a Ácido Plástico, que homenageia a piradíssima casa dos anos 80, ou ainda uma festa calcada num rock mais eletrônico e que leva o singelo nome “P#rra!!!”.



Esse insano caldeirão de idéias sai das mentes borbulhantes de Cláudio Medusa e Noemi Santana, sua esposa.
Medusa é um DJ de rock daqueles que não encontramos mais por aí. Ele curte o gênero desde garoto a ponto de se tornar um grande colecionador, com cerca de 5 mil LPs, quase todos de rock. É ele quem seleciona das catacumbas as “pérolas esquecidas” que tanto animam os fiéis frequentadores da casa.
Noemi é bartender, hostess e, principalmente, animadora do bar. Com seus vestidos sessentistas e muitas plumas, ela recebe os clientes lembrando que estão dentro de um universo diferente. Ali o clima é de pin ups dançando sensualmente no palco, vitrolas analógicas, groove, rock n’roll e diversão.




Se você já se animou, grave a programação de Carnaval:
Sexta é noite de Shakesville SP!, com soul music, boogaloo e rock ‘n roll vindo direto dos vinis.
No sábado tem Discotexxx, festa com hits e novidades do rock, punk e disco.
No domingo, uma edição especial de Viva El Roque, festa itinerante que já passou por Jive, CB e Inferno e que lota a casa com muitos rocks, punks e grooves das décadas de 60 as 90.
Segundona é vez da Veneno, com muito groove, soul, funk, latin, brasa, disco e hip-hop, além de alguns filmes malucos rolando no telão.




Na terça o inferninho da Mathias Ayres fecha as portas. Lá não é Carnaval, esqueceu? É dia, então, de tirar a fantasia e curtir as últimas horas de sossego na cidade.

Astronete Bar – R. Matias Ayres 183 – Consolação/S.Paulo – Tel: 3151-4568.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Clube Etílico Musical (Vila Madalena – São Paulo)



Nunca morri de amores pelo Carnaval, mas já que sou brasileiro e que o som do pandeiro é certeiro e tem direção, vou falar de um dos lugares mais surpreendentes e desconhecidos desta cidade: o Clube Etílico Musical, uma casa com o objetivo explícito de preservar e promover a cultura nacional.

Quase um esconderijo da boa música brasileira, o Clube CEM, como é chamado, foi criado em 2002 por Mary Lúcia Prado, a Meirinha  e pelo músico Paulo Muniz, o Kannec, autor de vários sucessos que você já deve ter ouvido por aí.
Criado é um jeito de falar. Na verdade, o Clube aconteceu no espaço que antes abrigava uma lavanderia e Meirinha e Kannec costumavam reunir os amigos para um churrasco.
Como a quantidade de amigos só crescia, veio a idéia de criar um Clube da Cachaça. Porém, como o país do swing é o país da contradição, ninguém gostou, pois todos preferiam cerveja e caipirinha. Nasceu então, assim, o Clube Etílico Musical.


É bom esclarecer que estamos falando de um clube e não de um bar. Tudo é muito simples, com algumas mesinhas espalhadas pelo quintal da casa. Não existe placa ou qualquer indicação. É bater no portão e aguardar que logo alguém vai atender.
Geralmente quem vem abrir é um amigo ou parente do músico que está se apresentando no dia, e que faz às vezes de recepcionista, cobrando uma entrada que é estipulada de acordo com o evento, mas costuma girar em torno de uns 10 reais. No CEM, a renda da portaria é o cachê do artista.
A parte de bar é básica: tem cerveja, caipirinha, whisky, refrigerante e água. Para comer, batata frita, bolinhos e churrasco de carne, lingüiça e queijo. E só. E não tem garçom. Você mesmo se serve e fica absolutamente à vontade, num clima de quintal dos amigos.

Algumas regras são estipuladas para garantir o conforto dos freqüentadores. É proibido usar drogas, fazer bagunça ou gritaria. E o portão deve permanecer fechado, o que impede os furtos e algumas outras perturbações.
Outra recomendação para todos é – já que normalmente quem vai é porque já conhece –  “só traga gente que você levaria para dormir na sua casa”.

Mas a grande preocupação do “Bar da Meirinha”, como o local também é chamado, é com a qualidade musical, que traz consigo uma programação diferenciada dos bares da cidade, sem qualquer influência da moda, das gravadoras ou do apelo de quem quer que seja.
Ali, o que rola é samba, chorinho e MPB. É música brasileira do tempero, do batuque, do truque, do picadeiro, do pandeiro e do repique. É Chiquinha Gonzaga e Paulinho da Viola. É Pixinguinha e Chico Buarque. É o samba na passarela dessa alma brasileira.
Quer uma mostra? Vá conferir as rodas de samba, as apresentações do Trapo Feito, do Nossa Chama ou do Trapo Feito, ou ainda os saraus, as rodas de choro...

Tudo acontece às sextas, sábados e, curiosamente, às segundas – o que dá uma opção bem diferente aos começos de semana. E tudo alternado. Para sabe o programa, só telefonando ou fuçando na rede. Aos domingos, só quando tem algum evento especial, como o chorinho, aniversários, saraus e outros.
Isso em qualquer outra época do ano, porque nesta semana todas as atenções estão voltadas para o Carnaval. E finalmente chegamos a ele.
Como em casa de Meirinha ninguém fica parado quando o couro começa a repicar, os encontros musicais logo de início foram virando festa, as festas foram virando folia e a folia virou um bloco de carnaval.
Em homenagem a mais um apelido da anfitriã, o bloco ganhou o nome de “Filhos da Mamãiss” e só toca marchinhas – umas antigas e outras de autoria própria.

E o bloco vai para a rua no próximo domingo, às 14 horas, saindo da frente do clube para percorrer as ruas da Vila. E todos já estão afiadíssimos na marchinha deste ano:
"Alô, mamãe, me dá uma Brahma, minha mamadeira nunca para de vazar... Alô, mamãe, caí da cama, na Madalena hoje eu vim para me acabar..."

Clube Etílico Musical – Rua Fradique Coutinho 1048, Vila Madalena / São Paulo – Tel: 3815-8456. Sexta, Sábado e Segunda a partir das 21h. Domingo, às vezes, em horários pré-combinados.


Para se ter uma idéia da descontração e despojamento da casa, dê uma espiada neste vídeo, postado pela famiglia Bimbato, de uma apresentação no XI Tal Sarau:


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Chora Menino (Jardim da Saúde – São Paulo)



O Jardim da Saúde é um bairro-jardim, planejado e, desde 2002, tombado. Caracteriza pela grande área verde e por uma curiosa concentração da colônia japonesa.
Por outro lado, nunca se notabilizou por restaurantes, bares e afins – exceção feita ao bar do Luiz Nozoie, talvez o único botequim razoavelmente famoso na cidade cujo dono é japonês.
Mas de uns tempos para cá alguma coisa vem mudando. Um ótimo exemplo disso é o Chora Menino, acolhedor botequim que consegue misturar um pouco do estilo boteco-chique, um invejável cardápio, muitas curiosidades e, ao mesmo tempo, simplicidade.

A primeira coisa a chamar a atenção é o nome. Pelo que ouvi, é uma homenagem ao bairro onde vivia o pai do proprietário, e que fica do outro lado da cidade, perto de Santana!
E a explicação para o nome do bairro é pra lá de macabra: no final do século XIX havia, a alguns metros do vale de Sant’Anna, um antigo chalé em ruínas. Conta-se que ali vivia uma mulher que atirava os recém-nascidos enjeitados no vale para serem comidos pelos urubus. Ouvia-se sempre o choro dos meninos. Há até quem lembre do som, mas justifica-o como sendo, provavelmente, gatos no cio ou o barulho do vento nos eucaliptos.

Mas voltemos ao bar, onde ninguém chora. Pelo menos não por grandes tragédias.
Talvez ali os meninos chorem um pouco por causa do futebol, já que o bar transmite os jogos em um telão e é todo decorado com camisas de diversos times, incluindo uma do bandeirinha Felipe Cirillo Penteado, com autógrafo e tudo!
A pergunta é: tirando a torcida do Botafogo, que deve seu único título nacional ao árbitro Márcio Rezende de Freitas e as de um time ou outro por aí (é prudente não nos aprofundar no tema), quem é que pendura a camisa de um juiz na parede?

Já pude observar também ali algumas lágrimas rolando diante dos pratos, frutos da emoção de alguns clientes ao se depararem com a porção de bolinho de carne ou com as lingüiças diversas vindas diretamente de Bragança e até um “quase choro” de um crocodilo diante da feijoada de sábado.

A verdade é que no Chora Menino todos ficam felizes também é com o chopp Eisenbahn, grande sucesso da casa, servido aos montes às mesas sempre lotadas nos finais de tarde, por um preço muito parecido com os outros chopps servidos por aí..
E os meninos sorriem de orelha a orelha é com a inovação da casa: uma tábua de caipirinhas (creiam, irmãos. É verdade!) feita com cinco opções do drinque em copos menores (de 200 ml cada).

E o destaque não é para a quantidade, mas para a qualidade da coisa toda. As caipiras são  preparadas pelo barman Jardel, aluno do premiadíssimo Souza, do Bar Veloso, e os clientes podem escolher entre inspiradíssimas opções como jabuticaba, limão com gengibre, tangerina com pimenta dedo-de-moça e muitas outras. Aí, definitivamente, os meninos não choram.

Chora Menino – Avenida do Cursino, 1302 – Jardim da Saúde – São Paulo. Tel. 3729-9643 – Horário: Terça a Sexta das 17h30 às 0h30, Sábado das 13h às 0h30, Domingo das 15h às 22h.


Meninos não choram? Sei lá. Mas não consigo parar de cantar a música. Melhor compartilhar com todos, afinal, o que é bom, a gente divide:


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Adega Gaúcho (Bela Vista – São Paulo)



Em Portugal, há um antigo bordão que diz: “no dia de São Martinho, vai à adega e prova o vinho”.
Fui fuçar a história de São Martinho e descobri que ele nunca teve nada a ver com o vinho. O que ocorre é que nas terras lusas os vinhos começam a ser produzidos entre setembro e outubro e o dia de São Martinho – 11 de novembro – fica no período no qual já se deve começar a verificar o resultado da produção.

Como essa história toda parece não ter lá muito sentido e menos sentido ainda teria você esperar até novembro para tomar vinho, vá assim que puder conhecer a Adega Gaúcho, que fica bem no meio da cidade e é um lugar, no mínimo, inesperado.
Posso dizer que, à primeira vista, mesmo se eu passasse diariamente na porta, é provável que eu nunca entrasse. Entrei por recomendação da Elaine e do Creso, que freqüentam a casa há muito tempo e sempre contam maravilhas sobre ela.

Aí descobri que a adega foi criada há 33 anos no bairro da Bela Vista pelo Sr. Álvaro Renato e seu cunhado, cuja parte foi comprada pelo então sócio após a sua morte.
Como bom gaúcho, o Sr. Álvaro sempre foi um apreciador de vinhos e um grande conhecedor dos produtos da região. E na sua adega, sempre deu prioridade aos produtos da sua terra.
A Adega Gaúcho nasceu, cresceu e viveu como adega mesmo mas, por insistência da clientela que se amontoava em volta do balcão, em 2001 ela ganhou algumas mesas feitas com os próprios barris de vinho e umas banquetas de madeira. O curioso é que o Sr. Álvaro lembra da data exata por causa do ataque às torres gêmeas!

Freqüentada pelos antigos moradores do Bexiga, pelos universitários da região, por senhores engravatados de outros cantos da cidade e pelos grupos mais improváveis (como o pessoal do “Vermes de Jacob”, um motoclube de roqueiros evangélicos!), a casa conquista pela simplicidade – coisa rara em lugares especializados em vinho, que tendem a ser... digamos, um tanto esnobes.
Evitando as marcas importadas e caras, o Sr. Álvaro oferece ali cerca de 30 a 40 vinhos, todos nacionais, de diversos tipos e produtores diferentes.
Mas a estrela mesmo é o vinho da casa, mais barato, porém muito gostoso. Ele é produzido em Caxias do Sul e trazido nos próprios barris, sendo vendido em taças, jarras ou mesmo envasados para viagem. É ele que é largamente consumido por todos, normalmente acompanhado de um queijo, de um salame e de muitas, muitas histórias.

Uma delas quem me conta é o Paulo Pedroso, antigo freqüentador, que relata o dia em que um dos clientes passou por lá no final do trabalho e, cansado, acabou exagerando no vinho e dormiu no balcão. Ao acordar, começou a tirar a roupa enquanto todos observavam atônitos. Quando começou a desabotoar a calça alguém deu um grito e ele se assustou, explicando-se imediatamente: “Pensei que já estava em casa...”
Entre tantas histórias, aproveite tudo com moderação, mas aproveite. Afinal, como nos lembra o escritor Fernando Sabino, “Cristo não consagrou a água, o leite ou a coca-cola. Consagrou o pão e o vinho, como alimentos do corpo e do espírito”.

Adega Gaúcho – R. Humaitá 291 – Bela Vista / São Paulo. Tel: 3112-0613. Horário: Segunda a Sexta das 8h às 22h; Sábado das 8h às 20h.


Na saideira, ainda me contam a história do mineirinho em uma degustação de vinhos, que é mais ou menos assim:
- Hummm... 
- Hummm... 
- Eca!!! 
- Eca?! Quem falou Eca? 
- Fui eu, sô! O senhor num acha que esse vinho tá com um gostim estranho? 
- Que é isso?! Ele lembra frutas secas adamascadas, com leve toque de trufas brancas, revelando um retrogosto persistente, mas sutil, que enevoa as papilas e lembranças tropicais atávicas... 
- Puta que pariu sô! E o senhor cheirou isso tudo aí no copo?! 
- Claro! Sou um enólogo laureado. E o senhor? 
- Se besta, eu não! Sou isso não senhor!! Mas que isso aqui ta me cheirando iguarzinho à minha egüinha Gertrudes depois da chuva, isso tá! 
- Ai, que heresia! Valei-me São Mouton Rothschild! 
- O senhor me desculpe, mas eu vi o senhor sacudindo o copo e enfiando o narigão lá dentro. O senhor está gripado, é? 
- Não, meu amigo, são técnicas internacionais de degustação entende? Caso queira, posso ser seu mestre na arte enológica. O senhor aprenderá como segurar a garrafa, sacar a rolha, escolher a taça, deitar o vinho e, então... 
- E intão moiá o biscoito, né? Tô fora, seu frutinha adamascada! 
- O querido não entendeu. O que eu quero é introduzi-lo no... 
- Mais num vai introduzi mais é nunca! Desafasta, coisa ruim! 
- Calma! O senhor precisa conhecer nosso grupo de degustação. Hoje, por exemplo, vamos apreciar uns franceses jovens... 
- Hã-hã... Eu sabia que tinha francês nessa história lazarenta... 
- O senhor poderia começar com um Beaujolais! 
- Num beijo lê, nem beijo lá! Eu sô é home, safardana! 
- Então, que tal um mais encorpado? 
- Óia lá, ocê tá brincano com fogo... 
- Ou, então, um suave fresco! 
- Seu moço, tome tento, que a minha mão já está coçando, de vontade de meter um tapa na sua cara desavergonhada! 
- Já sei: iniciemos com um brut, curto e duro. O senhor vai gostar! 
- Num vô não, fio de um cão! Mas num vô, memo! Num é questão de tamanho e firmeza, não, seu fióte de brabuleta. Meu negócio é outro... 
- Então, vejamos, que tal um aveludado e escorregadio? 
- E que tal a mão no pédovido, hein, seu fióte de Belzebu? 
- Pra que esse nervosismo todo? Já sei, o senhor prefere um duro e macio, acertei? 
- Eu é qui vô acertá um tapão nas suas venta, cão sarnento! Engulidô de rôia! 
- Mole e redondo, com bouquet forte? 

- Agora, ocê pulô o corguim! E é um... e é dois... e é treis! Num corre, não, fiodaputa! Vorta aqui que eu te arrebento, sua bicha fedorenta!... 


Por fim, um pouco do gaúcho mais famoso do mundo:



segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Tiro Liro (Pompéia – São Paulo)



Tudo que eu queria era um lugar tranquilo, com alma de boteco antigo. Que fosse bom como os melhores bares da cidade, com bom atendimento, chopp de primeira, ótimas porções e um balcão de acepipes de preferência com vários tipos de queijo. Que fosse bonito mas não fosse grande e que ficasse num bairro gostoso, longe da badalação. É pedir demais?

Não, não é. O Tiro Liro é assim. Escondido entre as ladeiras e precipícios da Pompéia, a casa é como aquelas jóias raras que parecem ter sido feitas por encomenda.
O bar é uma criação dos irmãos Antonio Carlos (mais conhecido como Toninho) e Sérgio Bastos, que não apenas estão no ramo há mais de 40 anos, como são responsáveis pela paternidade de outras duas casas de grande credibilidade: o Dona Felicidade e o Pé Pra Fora.

A linhagem é antiga. Sérgio e Toninho são filhos de dona Felicidade e do Sr. Manoel Bastos que, nos anos 70, montaram uma mercearia na Pompéia que, ainda em suas mãos, viria a se tornar o conhecidíssimo Pé Pra Fora.
Com a falta do Sr. Manoel, o “Pé”, que ficou famoso pelo bolinho de bacalhau feito por dona Felicidade, foi vendido nos anos 90, quando a família montou, na Lapa, a casa cujo nome homenageia sua matriarca.
A nova casa, mais com jeitão de restaurante, rapidamente também adquiriu sua fama, principalmente devido aos pratos portugueses à base de bacalhau e alheiras, além do famoso pudim “desmaiado”, mais uma criação de Felicidade Bastos.

Veio então, em 2002, o Tiro Liro, inspirado nos clássicos botequins cariocas, em sua maioria também descendentes de famílias portuguesas.
O novo bar foi montado em um casarão de esquina onde funcionava uma mercearia e que há anos vinha sendo cortejado pelos dois irmãos. Como diz a letra do “Tiro Liro”, “juntaram-se os dois à esquina, a tocar a concertina, a dançar do sólido”.
Assim que comprada, a casa recebeu uma reforma quase completa, mas que não a descaracterizou. Ganhou enormes janelas e belos armários, mas manteve o piso original, que está lá há quase 50 anos.

No nostálgico salão do Tiro Liro, o carro chefe é o chopp de colarinho cremoso, embora o seu “clube do whisky” tenha uma clientela fiel. Na parte das comidinhas, as especialidades portuguesas como as alheiras se destacam, mas há ótimas opções como a tábua de picanha, as linguiças recheadas, o pastel de carne com gorgonzola e até ostras.
Há também um belo balcão de petiscos com queijos e embutidos de primeira qualidade, vendidos a peso e que costumam agradar mais aos menos famintos.
E é claro que as especialidades de Felicidade Bastos – o bolinho de bacalhau criado no Pé Pra Fora e o “desmaiado” do Dona Felicidade – estão lá, acompanhados ainda de uma deliciosa torta cujas fatias só são oferecidas às sextas-feiras.

Mas muito mais do que a boa comida e a bebida correta, o que conta no Tiro Liro é o lugar em si.
Tranquilão, com a cara do bairro, o bar faz com que o bate-papo com os garçons e o clima de camaradagem entre os fregueses seja tão natural e espontâneo que todo mundo que vai, volta, pois já é considerado por todos como mais um membro da turma.

Tiro Liro – Rua Cotoxó, 1185 – Pompéia / São Paulo Telefone: 3868-3551 – Horário: Segunda a Sexta das 17h à 1h e Sábado das 12h às 19h.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Botequim do Hugo (Itaim Bibi – São Paulo)



São Paulo é um imenso coração, dentro do qual pulsam milhões e milhões de pequenos corações, cada um deles com uma história incrível a ser contada. Uma delas começa assim:
Início do século XX. A região onde hoje se encontra o bairro do Itaim é uma grande várzea dividida em chácaras pertencentes aos herdeiros do general Leopoldo Couto de Magalhães – entre eles seu filho homônimo apelidado de “Bibi”, devido ao hábito de usar bonés de bico.

É ele quem dá início, já na década de 20, ao loteamento das terras, dividindo-as em pequenos lotes de 500 metros quadrados, uniformizados no padrão 10m x 50m, que são vendidos principalmente a comerciantes italianos e portugueses.
Um desses novos moradores é Marcelino Cabral, imigrante português que vê ali uma oportunidade de um futuro melhor. Em 1927 ele monta sua casa nos fundos do terreno e cria, na parte da frente, a Mercearia São José.
A Mercearia São José é uma venda de secos e molhados instalada na minúscula garagem que fica na entrada do terreno do Sr. Marcelino, de frente para a rua Pedroso Alvarenga, uma rua de terra onde seus filhos brincam enquanto crescem ajudando o pai na venda.

Anos 60. O Itaim Bibi é um bairro tranqüilo onde todos se conhecem. Nas tardes de domingo, as famílias ficam com cadeiras nas calçadas enquanto as crianças brincam na rua, sem medo de roubos ou atropelamentos.
Já que ninguém chamava a mercearia por seu nome mesmo e sim pelo de seu dono, ela agora se chama Empório Cabral. Na frente dele, Hugo e Emiliana, netos do Sr. Marcelino, brincam na rua.

Pulemos de repente para o século XXI. O Itaim Bibi se transformou em um bairro agitadíssimo, com prédios imensos, carros importados e um sem-fim de bares chiques que fazem da região uma das mais caras e disputadas da cidade.
As casas sumiram, dando a impressão de que o bairro simplesmente desapareceu e colocaram outro no lugar. Os arranha-céus, as grandes redes de supermercados, as farmácias e as grifes da moda deixam claro que tudo no Itaim mudou.

Ou quase tudo. No meio desse turbilhão de modernidade encontra-se, quase camuflada, a casa da família Cabral e a velha mercearia, agora com o nome de Botequim do Hugo e tocada, há 25 anos, por Hugo e Emiliana, os netos do Sr. Marcelino.
No legítimo e minúsculo botequim, o tempo parou. O bar conserva, a duras penas, sua fachada original, com paredes amarelas e um portão de grade ao lado, que dá num pequeno quintal que leva à casa da família, mas que virou espaço para mais algumas mesas.

As paredes internas e o quase centenário armário que guardava os produtos da mercearia hoje hospedam uma infinidade de lembranças, instrumentos, rádios antigos, copos, lampiões, bonecos, quadros, cornetas, revistas, berrantes, fotografias e sabe-se lá mais o quê ou quantas coisas, tudo misturado, formando um conjunto caótico onde é possível passar horas – talvez dias – descobrindo novidades.
Espremidos atrás do balcão ou circulando entre as mesas e potes de tremoços, salsichas e paçocas, Hugo e Emiliana, tocam sozinhos o atendimento aos fiéis clientes, que são muitos e muito amigos, quase da família – ou pelo menos se sentem assim.
Entre antigos freqüentadores de cabelos grisalhos e jovens que deixam o trabalho no fim do dia, suas vinte e poucas cadeiras lotam de segunda a sexta (a casa não abre nos finais de semana, como nos velhos tempos) com gente em busca de um bom bate-papo, cerveja gelada e os deliciosos pastéis, caprichosamente preparados pelos outros familiares, que se encarregam da cozinha da casa.

Outras opções? Apenas o trivial bom e barato de qualquer mercearia dos tempos idos, como algumas poucas bebidas, sanduíches de mortadela ou carne moída e porções de salame, queijos ou azeitonas.
Tudo devidamente separado entre “secos” e “molhados” em um cardápio caprichosamente escrito a mão! E tudo devidamente oposto aos “molhos de tamarindo neozelandês com raspas de trufas brancas italianas e toques de avelãs da Prússia” que infestam a região.
Enfim, o Botequim do Hugo é um lugar diferente. Um bar muito hospitaleiro e carinhoso, com jeitinho de antigamente, gostinho de casa de família e um fortíssimo cheiro de saudade no ar.

Botequim do Hugo – Pedroso Alvarenga, 1014 – Itaim Bibi Tel 3079-6090 – Horário: Segunda a Sexta das 16h às 22h.


Coloco abaixo um vídeo surpreendente, gravado do jeito que deu por Felipe Machado, de uma improvisadíssima canja do cantor / músico / multinacional / clandestino Manu Chao, em pleno Botequim do Hugo:


terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Pye in the Sky (Perdizes – São Paulo)



Uma piada que rola por aí e quase todo mundo conhece diz que, no inferno, todos os cozinheiros são ingleses. Perdoai-os, Senhor. Eles não conhecem Ryk Preen.


Ryk nasceu em Bristol, sudoeste da Inglaterra e com o avô aprendeu a amar o mais famoso esporte bretão com o Manchester City, rival dos diabos vermelhos do United, mais tarde trocado pelo Tottenham, rival mortal dos outros vermelhos – os londrinos do Arsenal.

Entre uma ou outra diabrura da infância, aprendeu com a avó a cozinhar aos 6 anos de idade. Tal influência somada a uma ascendência irlandesa, galesa e francesa resultou em seu amor a “The Old Traditional Food” – a culinária passada de geração a geração – e desde muito cedo dedicou sua vida à gastronomia, tendo trabalhado em açougues, pubs, hotéis e refinados restaurantes.

Aos 21 anos mudou-se para o País de Gales onde se dedicou a carne de cordeiro e depois viveu por oito anos na Irlanda (um dos lugares do mundo que, com a ajuda dos céus, ainda hei de conhecer).


Um motivo angelical chamado Ana Cláudia Laforga o trouxe a São Paulo, terra onde céu e inferno se misturam numa confusão só e os caldeirões se espalham pela cidade sob as influências culinárias de todos os cantos do mundo, menos da Inglaterra, até então.

Há menos de três anos, Rik Preen e Ana, que havia ido encontrá-lo na Irlanda, desembarcaram por aqui com o projeto pronto para montarem a Pie in the Sky, uma pequena casa de tortas ao estilo inglês, recheadas com carne, rim, cerveja, cordeiro, queijo brie e outros mais.

O sucesso das tortas celestiais de Mr. Preen foi tão rápido que o empreendimento teve que mudar para um ambiente maior. Era a oportunidade também de inserir novos pratos no cardápio e ambientar melhor a casa.



Assim nasceu, há seis meses, o The Bristol Tavern, com mais jeitão de bar que de restaurante, numa deliciosa esquina de Perdizes, com diversas mesinhas de madeira ajeitadas com toalhas brancas e vermelhas formando o brasão inglês.

As tortas da Pie in the Sky estão todas lá, mas ganharam companhia de uma lista de novas tentações como bolos de carne, peixes e batata, muita batata. Destaque para o “fish and chips”, um grande filé de peixe empanado com batatas fritas e para as lingüiças caseiras, de produção própria, suínas, ovinas e bovinas, acompanhadas, claro, de purê de batata, como o diabo gosta.

O jornalista Luiz Américo Camargo define Ryk Preen como “um mestre-cuca pré-Gordam Ramsay, pré Jamie Oliver”. Isso significa que sua inspiração nasce da comida dos pubs, das receitas caseiras, da dieta dos trabalhadores britânicos e de toda uma memória afetiva que traz consigo da infância. Significa também que os pratos, ainda que muito bem elaborados, não são para fracotes, podendo levar do céu ao inferno os estômagos mais delicados.



Suas paixões na vida, além da cozinha e de sua recém-ampliada família, são o rock, especialmente o punk rock (quem conhecer a casa pode comprovar isso rapidamente), tatuagens (o que também é fácil de notar), motos e carros antigos.

Com tudo isso, enquanto estamos por aqui, aproveite para apreciar a tranqüilidade do local, curtir o velho e bom punk inglês, saborear as ótimas opções de cerveja que a casa oferece e conhecer sabores que você não encontrará em nenhum outro lugar da cidade. O The Bristol Tavern fica ali em Perdizes, mas bem lá no alto do bairro. Na terra, mas bem perto do céu.

The Bristol Tavern - Rua Ministro Gastão Mesquita, 234, Perdizes.   Tel. 2361-3033.   Horário: Quarta e Domingo das 12h às 22h, Quinta das 12h às 23h, Sexta e Sábado, das 12h à 0h.




Como uma homenagem ao The Bristol Tavern, segue um dos maiores clássicos do punk rock inglês. Ouça no volume máximo.




Como o site da casa disponibiliza alguns videos, copio aqui as imagens de Ryk Preen ensinando o preparo da famosa torta Steak & Stout:



quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Elídio Bar (Mooca / São Paulo)



A Mooca é o bairro mais bairrista que existe e carrega no sotaque o cantado dos primeiros imigrantes italianos e a ginga de Adoniran. Quem mora lá, antes de ser paulistano, é mooquense. E nunca se muda. No máximo, troca de quarteirão.
Todo mooquense tem um segundo time (o primeiro é o Juventus) e se orgulha até mesmo do gol sofrido pelo moleque travesso, considerado o mais belo da carreira de Pelé.

Exageros à parte, é nesse ambiente que vamos encontrar o Elídio Bar, o mais tradicional do bairro e um daqueles lugarzinhos muito especiais, que nos surpreendem e nos encantam.
Quem dá nome ao bar é Elídio Raimondi, um simpático senhor nascido e criado numa das tantas tradicionais famílias italianas da região, de onde herdou três características facilmente observáveis: a vocação para o comércio, o talento para a cozinha e a paixão pelo futebol.

O bar surgiu de uma mercearia, criada no final dos anos 50 pelo pai do ‘seu’ Elídio no mesmo imóvel que está até hoje, na qual ele ajudou desde menino e acabou por se tornar um dos maiores inovadores dessa botecolândia em que São Paulo se transformou.
Foi nessa mercearia que ele resolveu criar seu próprio modo de cortar a mortadela, de preparar as alheiras, de misturar frutas nas batidas e, principalmente, de servir os petiscos: tudo à vontade, por quilo e no balcão, como ninguém fazia até então e como nos habituamos a ver hoje em tantos “botecos chiques” por aí.

A inovação caiu imediatamente nas graças da clientela e a casa da família Raimondi foi se tornando mais bar e menos mercearia até que, nos anos 70, aquele que já era conhecido na Mooca como “bar do Elídio” se tornou oficialmente o Elidio Bar.
De lá para cá, o tal balcão só fez se guarnecer ainda mais, oferecendo hoje mais de cem diferentes delícias da chamada “comida de botequim”, onde além da grande variedade de queijos e embutidos encontramos clássicos dessa “baixa gastronomia”, como roll-mops (sardinha curtida enrolada), morcilla, jiló frito, moela de frango e polvo ao vinagrete.

Mas as atrações do bar não param no balcão de acepipes. Há o chopp (Brahma, excelente, tirado de uma chopeira alemã), os coquetéis clássicos (destaque para o caju amigo) e, principalmente, as homenagens ao futebol.
Ocorre que Elídio é, desde pequenino, fanático por futebol. Palmeirense mas amante do futebol-arte de modo geral, ele ostenta um infinito acervo de fotos, publicações, souvenires, bolas, chuteiras, camisetas autografadas e outras relíquias.

Como as recordações já não cabiam nas forradas paredes do bar, a casa ganhou há alguns anos um segundo andar, que se transformou em uma espécie de “museu do futebol” particular, onde repousa uma coleção histórica sobre ídolos do esporte e onde cada objeto guarda uma história para contar.
E o que ainda não couber no acervo do bar, cabe nas lembranças do ‘seu’ Elídio. Grande conhecedor da história do esporte bretão, dono de um estilo narrativo todo especial, de uma simpatia ímpar e de uma memória de elefante, ele é, para muitos, a maior atração da casa.

“Faz tempo eu vinha procurando uma desculpa para não vir até aqui. Sabia que eu ia gostar. Alguma coisa em mim sabia. A briga agora vai ser para me tirarem daqui”. (Charles Bukowski)

Elídio Bar - Rua Isabel Dias, 57 - Mooca – São Paulo
Tel: 2966-5805. Horários: Terça, Quinta e Sexta a partir das 16h30, Quarta das 11h30 às 15h e das 16h30 à 1h30, Sábado das 11h30 à 1h30 e Domingo das 11h30 às 18h.