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segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Bar do Marcelino (Joaquim Egídio / SP)



Eu tenho um amigo “furão”. Sabe esses caras com quem você vive tentando marcar alguma coisa, mas na última hora sempre aparece alguma coisa que o impede de ir? É assim desde que ele se mudou de São Paulo. E não adianta nem tentar marcar na cidade dele, pois ele não poderá estar lá naquele dia. Pois é.
Mas uma coisa eu tenho que admitir: o cara tem bom gosto. E é por isso que, quando recebo suas indicações, acabo seguindo cega e despreocupadamente.

Foi assim que eu fui parar no Bar do Marcelino, em Joaquim Egídio, um distrito de Campinas que é, na verdade, um simpatissíssimo vilarejo, com suas ruas de paralelepípedo e repleto de trilhas e de ótimos bares e restaurantes.
O bar parece ser o ponto central da cidade, para onde tudo converge. Sua fama se espalha por toda a região e os motivos não são poucos.

Tradição não lhe falta. O delicioso casarão do século XIX já foi, em seus primórdios, um armazém de secos e molhados (como parece ser a origem dos melhores botecos mencionados neste blog). Depois, por 45 anos, foi o Bar do Sr. Rubens. Foi ainda o Bar do Said e o Bar do Múcio, até receber seus atuais nome e proprietário em outubro de 1988, há exatos 33 anos.
Jaime Marcelino Pissolato nasceu em cresceu em Sousas, a vila vizinha, e sempre freqüentou Joaquim Egidio, fosse na infância para jogar bola ou mais tarde passeando de moto ou freqüentando os três botecos então existentes por ali. Freqüentou tanto que um dia foi chamado pelo Múcio para “dar uma mãozinha” na cozinha e não saiu mais de lá, esticando até hoje o que chama de “a mãozinha mais longa que já deu em sua vida”.

Charme também não falta ao local. Ele começa na calçada, onde a casa espalha diversos caixotes de madeira onde os clientes se acomodam enquanto aguardam por suas mesas.
Ali só se servem bebidas e porções – como as deliciosas batatas, o crocante bolinho de mandioca com carne seca ou a exótica pimenta dedo-de-moça empanada recheada com carne moída – mas o clima costuma ficar tão agradável e divertido que muitos freqüentadores acabam dispensando a mesa e ficando por ali mesmo.
A história dos já famosos caixotes começou porque não era permitido colocar mesas do lado de fora do bar, mas caiu nas graças do público, que hoje não os troca por mesa alguma.


Mas é lá dentro que vem a melhor parte: a comida, bem caseira, bem brasileira. Você pode escolher entre uns 30 pratos diferentes, todos deliciosos e fartos, que servem umas 3 ou 4 pessoas, como o tutu à moda, que vem com costelinha de porco, banana à milanesa, farinha, ovos, lingüiça, vinagrete e farinha, ou o contrafilé acebolado com arroz, feijão, farinha e legumes na manteiga ou ainda uma bisteca, com esses mesmos acompanhamentos. A turma acompanha a onda com cervejas e caipirinhas, além de algumas doses de cachaça tirada do próprio barril.

Às quartas, sábados, domingos e feriados a estrela da casa é a feijoada. Ela começa a ser feita ainda de manhã para que a costelinha, a carne-seca e o paio possam ser aferventados três vezes antes de serem adicionados ao feijão temperado com alho, cebola, sal e bacon. É servida com arroz, lingüiça, couve, vinagrete e farinha e daria para 3 ou 4, não fosse tão boa e forçasse todos a testarem seus limites.

Depois disso, quem ainda consegue achar espaço para uma sobremesa, o bar/restaurante ainda dispõe daquelas sobremesas bem caseiras, com gosto de casa da avó da gente, como os deliciosos doces de abóbora com coco ou o figo em calda.

A sorte é que quando você consegue se levantar tem em volta uma cidade que convida ao passeio, à caminhada sem pressa, sem propósito, sem lembranças e sem nenhuma saudade da metrópole. Um vilarejo igualzinho ao da Marisa.
“Lá o tempo espera. Lá é primavera. Portas e janelas ficam sempre abertas pra sorte entrar. Em todas as mesas, pão. Flores enfeitando os caminhos, os vestidos, os destinos e essa canção. Tem um verdadeiro amor para quando você for”.


Bar do Marcelino – Rua Heitor Penteado, 1113, Joaquim Egídio, Campinas. Tel (19) 3298-6909. Segunda a Sexta das 11h às 15h e das 18h à 0h, Sábado das 11h à 0h e Domingo das 11 às 20h.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Pé na Roça (Piranguçú / MG)



De vez em quando não dá vontade de pegar uma estrada qualquer, sem conhecer direito o caminho ou onde ele vai parar? Não precisa ter um motivo específico. É uma coisa meio “easy rider”, com a idéia única de seguir em frente, o mais longe possível. Às vezes é para esquecer da vida, em outras é para curti-la. E quase sempre você acaba em um lugar estranho, diferente, novo.

Foi numa dessas que fui parar em Piranguçu, no sul de Minas. O motivo era visitar a Gabriela e sua troupe – João Pedro, Antonia, Dora e Miguel – que, por alguma razão, tinham ido passar uma temporada por aquelas bandas.
Piranguçu é uma minúscula cidade com pouco mais de 5 mil habitantes, colada em Itajubá e a pouco mais de 20 quilômetros de Campos do Jordão, só que por uma estrada com tanta lama que faz com que seu carro ou moto – e você, se for o caso – fiquem inidentificáveis ao final do percurso.
Nota: a estrada é linda e vale o passeio. Há décadas atrás fui com o Marcos de Itajubá para Campos por este caminho, em um ônibus do tipo urbano e que parava em quase todos os sítios para pegar passageiros, produtos agrícolas, galinhas, porcos e tudo o mais que se possa imaginar. Mas essa já é uma outra história...

Contrariando a primeira impressão – de que em Piranguçu não há nada para se fazer – a cidadezinha se mostra um passeio e tanto, principalmente para os que gostam de aventura (e barro) com uma grande comilança no final. É a cidade da grande pedra vermelha, de cavalgadas, cachoeiras e trilhas, belezas naturais que atraem os amantes da ecologia, escaladores, pilotos de paraglider e motociclistas off-road.

Se essa for a sua praia, aproveite para fazer isso logo cedo e depois vá conhecer o “Restaurante Caipira e Pizzaria Pé na Roça”, lugar perfeito para descansar e repor as energias (e as calorias).
Trata-se de um belo e tranquilo sítio com lago, loja, choupanas, muitas árvores frutíferas e um imenso playground que inclui até pontes e casa na árvore, ideal para quem vai com crianças, como era meu caso.

Enquanto a turminha se esparrama por lá, a gente se esbalda no restaurante, que funciona como um self-service em um grande galpão, mas você pode abastecer seu prato (várias vezes, claro) e comer em qualquer uma das mesas espalhadas pelo sítio.
Como não poderia ser diferente, o restaurante é especializado em comida mineira, com leitoa à pururuca, frango caipira, tutu de feijão, torresmos e aquela coisa toda que a gente conhece muito bem, só que com tudo criado ou plantado ali por perto e preparado no fogão a lenha. Fatos que, claro, deixam tudo mais atraente e saboroso.

É muito provável que você não vá se hospedar em Piranguçu e eu nem sei dizer se existe hotel por lá. Mas é bem possível que você vá até Itajubá, Campos do Jordão, São Bento do Sapucaí, Muzambinho ou qualquer outra cidade das redondezas. E então fica a dica. Vá sem destino, principalmente se você não conhecer nada por ali, afinal “qual é a graça de já saber o fim da estrada quando se parte rumo ao nada”?


Pé na Roça – Estrada dos Antunes, km 2 – Piranguçu/MG. Tel (35) 3643.1115. Sextas das 18h às 23h, Sábados das 11h à 23h e Domingos e feriados das 11h às 17h.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Dona Felicidade (Cunha / SP)



Nem sempre o nome de um lugar serve como referência para aquilo que procuramos.  Em Cunha você encontra caipirinha no Celeiro, cachoeira no Pimenta, cerâmica no Jardineiro e macarrão no Caminho do Ouro. Felicidade, entretanto, é o que você mais encontrará no final da estrada de terra que leva à pousada e restaurante Dona Felicidade.
Os motivos são muitos. O Dona Felicidade nasceu do sonho do casal Almiro Pontes e Maria de Lourdes Lopes Reis – que meia-hora depois de você conhecer serão, para sempre, o Miro e a Lu – que conseguiram trocar, após uma batalha de anos a fio, a insanidade de São Paulo pela tranqüilidade de Cunha.
E este é o primeiro motivo para você ir até lá: Cunha, que por si só, já é um lugarzinho com todos os ingredientes que um bom lugarzinho precisa ter: cultura (são dezenas de ateliers de cerâmica), ecoturismo (já perdi a conta das cachoeiras, parques e mirantes), gastronomia (da boa, com muitas alternativas) e muito sossego e receptividade por todo lado.

Outra razão é o lugar. A pousada/restaurante fica entre as montanhas bem perto da junção das Serras do Mar, da Bocaina e do Quebra-Cangalha, tendo apenas 4 grandes chalés, 3 suítes, as casas dos proprietários, o restaurante, um campinho, a horta e uma infinidade de jardins repletos de flores e frutas.
Como nunca fui hóspede da pousada, pularei esta etapa, embora conheça alguns “freqüentadores” como o Lanes, a Rafaela, o Sílvio e outros que, aparentemente, desistiram do resto do mundo, pois vão para lá em todas as oportunidades que têm. E vamos ao restaurante.
Pois bem, aqui começa o drama. Abro espaço para um aviso importante para não ser posteriormente acusado de nada: se você estiver de regime, não passe nem perto de lá. Se possível, pare a leitura aqui e vá para uma academia. Corra bastante e depois me conte como foi. Mas se você gosta realmente dos prazeres de uma boa mesa, vamos lá.

O restaurante é um galpão bem rústico e bonito, com grandes mesas e um belíssimo deck. Tudo em madeira. A especialidade da casa é a cozinha mineira, bem caipira, do tipo leitão à pururuca com tutu de feijão, couve, torresmo e farofa. As opções são muitas, que vão da rabada com polenta mole até a truta com shitake, passando por galinhadas, moquecas, coelhos e churrascos.
O problema é que o Miro é daqueles caras que nasceu com o dom e a paixão para cozinhar, e tudo que faz, até o mais simples acompanhamento, é maravilhoso. Você já ouviu alguém dizer “nunca comi um arroz tão bom?” Pois eu já. E “é a melhor couve que já comi”? Pois é. Imagine então o feijão, as carnes, os molhos...
Só para dar um exemplo, a farofa, que para nós, leigos, parece a coisa mais simples do mundo, é preparada com três tipos de farinha diferentes, bacon, lingüiça e sabe-se lá mais o quê. E tudo é farto, criado ali ou colhido no pé.

Enquanto o Miro cuida da cozinha, a Lu atende os visitantes. E se ele nasceu com o dom para cozinhar, ela nasceu com a simpatia transbordando por todos os poros. 
Das seis da manhã até a hora que precisar, ela fica correndo pra lá e pra cá, recebendo todos com um grande sorriso e um abraço, servindo as mesas, contando todas as novidades da cidade, indicando lugares legais (mesmo que concorrentes), preparando uma caipirinha de limão-cravo, contando dez mil piadas, oferecendo um doce de leite e, se tiver música, cantando e dançando. E nem pense em ir embora, porque ela não deixa.
Se você for com crianças, tem mais: Murilo, o principezinho da casa, do alto de seus 7 anos de idade, santista roxo, fã de Neymar e Robinho, bom de papo e de garfo, vive “pescando” os clientes do restaurante para ir jogar bola, conhecer os cavalos, passear pelas trilhas da pousada ou simplesmente ficar conversando em turma, nas redes do quiosque.
Daí, como sempre, você se dá conta que chegou lá de tarde e já é noite faz tempo e a coisa continua animada. 
E quando você pensa que acabou, o papo recomeça. As ajudantes vão embora, alguns hóspedes se recolhem e os que sobram vão se juntando aos poucos em uma única grande mesa, junto com o Miro e a Lu, para uma última cerveja, um café, um docinho, uma Juveva e mais uma história e outra piada.
E só quando todo mundo já está caindo de sono você consegue ir embora, triste, contando as horas para voltar.

Dona Felicidade – Estrada da Catióca km 1 – Cunha/SP Tel (12) 3111.1878.




Na parede do restaurante, um grande banner traz o seguinte texto:


Meu nome é Dona Felicidade.
Faço parte da vida daqueles que tem amigos, pois ter amigos é ser Feliz.
Faço parte da vida daqueles que vivem cercados por pessoas como você, pois viver assim é ser Feliz!
Faço parte da vida daqueles que acreditam que ontem é passado, amanhã é futuro e hoje é uma dádiva, pois isso é chamado presente.
Faço parte da vida daqueles que acreditam na força do Amor, que acreditam que para uma história bonita não há ponto final.
Eu sou casada, sabiam?
Sou casada com o Tempo.
Ah…O tempo é lindo!
Ele resolve todos os problemas.
Ele reconstrói corações, ele cura machucados. ele vence a Tristeza…
Juntos, eu e o Tempo tivemos três filhos:
A Amizade, a Sabedoria e o Amor.
A Amizade é a filha mais velha.
Uma menina linda, sincera, alegre.
A Amizade brilha como o sol…
A Amizade une pessoas, pretende nunca ferir, sempre consolar.
A do meio é a Sabedoria…culta, íntegra, sempre foi mais apegada ao Pai, o Tempo.
A Sabedoria e o Tempo andam sempre juntos!
O caçula é o Amor.
Ah! como esse me dá trabalho!
É teimoso, às vezes só quer morar em um lugar…
Eu vivo dizendo: Amor, você foi feito para morar em dois corações, não em apenas um…
O Amor é complexo, mas é lindo, muito lindo!
Quando ele começa a fazer estragos eu chamo logo o pai dele, o Tempo…e aí o Tempo sai fechando todas as feridas que o Amor abriu!
Uma pessoa muito importante me ensinou uma coisa…
Tudo no final sempre dá certo, se ainda não deu, é porque não chegou o final.
Por isso, acredite sempre na minha família!
Acredite no Tempo, na Amizade, na Sabedoria e principalmente no Amor…
Aí, com certeza um dia, eu, a Felicidade, baterei à sua porta!
Tenha Tempo para os Sonhos…
Eles conduzem sua carruagem para as Estrelas!


A Lu, de final, nos deixa ainda a seguinte receita:

Receita cazêra minêra de môi de repôi no ái e oi:

Ingredienti:

*5 denti di ái
*3 cuié di ói
*1 cabeça de repôi
*1 cuié di mastomati
* sá a gosto

Módifazê:

*casca o ái, pica o ái i soca o ái cum sá
*quenta o ói na cassarola
*foga o ái socado no ói quênti
*pica o repôi beeeeemmmm finin
*foga o repôi no ói quênti junto com o ái fogado
*poim a mastomati i mexi cum a cuié pra faze o môi

**Sirva com rôis e meléti