quinta-feira, 31 de março de 2011

Lenz (Campos do Jordão / SP)



Campos do Jordão é uma das cidades mais bonitas do Brasil.  As belas construções em estilo suíço, os plátanos que atravessam a cidade, as altas montanhas que a cercam, o clima gelado e seco e até mesmo o luxo das grifes e carros importados de seus turistas fazem com que, realmente, você se sinta na Europa.

Só que, por se tratar do principal pólo turístico de inverno do estado, ela segue recebendo cada vez mais visitantes, o que torna, principalmente nos feriados, o passeio pelo seu “centrinho” uma grande disputa por espaço, seja nos charmosos bares, restaurantes e chocolates, nos estacionamentos ou mesmo no meio da rua.
Porém, Campos do Jordão é muito mais do que o centro de Capivari. Aliás, acho que a maioria das atrações – lugares de incrível beleza, com diferentes atrativos, para todos os gostos e horários – fica longe dali.

Um desses lugares é o Lenz, um sítio no Alto do Lajeado, de onde se avista boa parte da Serra da Mantiqueira (quando não se está dentro das nuvens) e onde a Sra. Eliana Lenz Cesar resolveu montar sua cozinha dos sonhos (dos nossos sonhos, pelo menos).
Para chegar lá, você segue uma rua de uns 3km, quase toda de subida, quase toda cercada por hortênsias, que passa pelo hotel Toriba e pelo ponto mais alto de uma estrada de ferro no Brasil, até chegar em um lugar magnífico, dando a impressão de estarmos dentro de um quadro ou num desses filmes de Natal em que vai começar a nevar a qualquer momento.

Essa história começou há 25 anos, quando Eliana resolveu pôr em prática algumas receitas centenárias da família alemã Lenz. Eram doces, geléias e, principalmente, um bolo de frutas com nozes, vinho, açúcar mascavo e diversos outros ingredientes naturais, cuja receita, dizem, foi trazida por uma governanta inglesa no século XIX. 
É claro que o sucesso foi instantâneo. E como o Lenz ainda não era aberto ao público, o bolo – único produto então à venda – passou a ser comprado para presentes especiais e recebeu o honroso nome de Lenz Cake.
Com o sucesso do bolo e a crescente procura por outros produtos, o Lenz abriu então, anos mais tarde, sua fazenda para visitação, instalando nela um café, onde passaram a ser servidos, além do Lenz Cake, doces, geléias, sucos, compotas, chutneys e pães, feitos na própria fazenda e com produtos locais. Tentador? Calma...

Antes de mergulhar nas tentações, vale a pena conhecer a trilha que leva ao mirante e à Cachoeira Gavião Gonzaga. A caminhada de uns 10 minutos atravessa uma bela floresta e chega exatamente ao lado da cachoeira, onde o barulho da água é quase ensurdecedor e a vista do mirante alcança quase toda a serra.

Há também por lá um grande espaço infantil, com monitores e brinquedos como uma mini-tirolesa, cama elástica, mesa de ping-pong, pebolim etc e um mercado onde se vende produtos de artistas e artesãos da região além dos produtos do próprio Lenz.

E então chega a hora de você conhecer o restaurante, implantado há poucos anos, quando as três ou quatro mesinhas ao ar livre no pequeno café passaram a não ser suficientes, principalmente nos dias mais frios e chuvosos.
O Lenz Gourmet foi montado no antigo galpão da fazenda com incrível requinte e bom gosto. Reformado sem perder sua característica própria e o madeiramento original, ele é amplo e acolhedor ao mesmo tempo, rústico e cheio de classe, com mesas de madeira, piso aquecido, lareiras no centro e em pequenos ambientes, lustres especiais e grandes janelões de vidro que permitem a visão das árvores do lado de fora.

Ali funciona um complexo gastronômico de altíssimo padrão, onde um simples sanduíche ou um pedaço de torta podem ser uma experiência muito especial. Ali há brunches, chás da tarde e petiscos. Há pratos como trutas, filés com molhos exclusivos e mariscada de pinhão. Há pratos curiosos como a “feijoada em dobro”, que inclui a feijoada normal e outra “invertida”, com arroz preto e feijão branco. Tudo com os preços nem acima nem abaixo do padrão da cidade, que não é baixo. Mas com a qualidade muito acima.
E há, acima de tudo, o buffet de sobremesas. Mesmo não sendo um fã de doces, considero a maior atração da casa, pois é de encher os olhos (e a boca de água). Não há docinhos. São Lenz Cakes, tortas de damasco, clafouits de amora, bolo de queijo brie com geléia de framboeza... e é melhor parar por aí.

Enfim, o Lenz é um lugarzinho especial, com muitas das delícias da moderna Campos e todas as maravilhas da velha Campos do Jordão, incluído aí a floresta, o silêncio e o frio – o velho frio! – espantando dali a estranha frustração de quem sobe a serra e não o encontra por lá.

Lenz – Estrada Municipal Paulo Costa Lenz César, 2150 – Campos do Jordão/SP. Tel (12) 3662-1077 / 3662-1421. Horário: Segunda a Sexta das 9h às 17h30, Sábados, Domingos e Feriados das 10h às 19h.


A Festa da Lanterna

Uma vez por ano, próximo às festas juninas, o Lenz realiza a Festa da Lanterna, um ritual que simboliza a busca da evolução interior, ressaltando o aspecto da luz que vem com o calor das relações sociais e a iluminação da consciência individual e social.
Na festa, todos os convidados fazem um passeio até o mirante sob a luz de tochas, revivendo antigos rituais das estrelas, do fogo e da luz, celebrando a harmonia entre todos. Se você tiver oportunidade, não deixe de participar.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Flutuante Netuno (São Bernardo do Campo/SP)



Nas últimas décadas eu passei pela represa Billings centenas de vezes (talvez milhares), rumo a Santos ou a São Paulo, pela Anchieta ou pela Imigrantes. E sempre me encantei com a beleza da paisagem, com o pôr-do-sol refletido nas águas, com o barquinho que vai, a tardinha que cai etc, etc. Mas nunca parei.

Ou nunca havia parado, até outro dia, quando finalmente criei vergonha na cara e fui conhecer o Riacho Grande. E passei a me perguntar por quê esperei tanto!
A área ocupada atualmente pelo distrito do Riacho Grande é um paraíso cercado pela Mata Atlântica e foi, desde o século XVI, atravessada por caminhos que ligavam o planalto ao litoral, até ser parcialmente inundada para a construção da represa, concluída nos anos 40 e que hoje oferece um visual único, que lembra as paisagens amazônicas ou pantaneiras.

É por aí que começa a história do Flutuante Netuno, embarcação utilizada pela empresa Light para transporte de materiais e funcionários durante a construção da represa e que, a partir de 1976, tornou-se um dos restaurantes mais agradáveis de toda a região.
Criado pelos primos e sócios Márcio Conti e Mauro Teixeira, o pioneiro restaurante foi montado sobre as águas da represa em três galpões flutuantes que serviam de cozinha, copa e salão, e que posteriormente foram substituídos pelo Flutuante Netuno.

O barco de 25 metros de comprimento, 6 metros de altura e 200 toneladas abriga um grande salão interno e um deck em sua cobertura. E fica realmente na água. Para chegar até ele é preciso atravessar uma pequena e balançante ponte.
Pode-se dizer que o salão tem mais cara de restaurante, com várias mesas bem arrumadas e cercado de janelas, enquanto o deck leva mais jeito de boteco, com mesinhas de plástico e apenas uma cerca separando-nos da paisagem.

A especialidade, claro, é peixe. Mas que não vêm dali, apesar de ser comum na região a pesca de tilápias, lambaris, carpas e traíras. Os peixes do Netuno vêm de criadouros (os de água doce) e de Santa Catarina (os de água salgada).
As sensações da casa, isto é, do barco, são o filet de tilápia – que não tem espinho – e o de Panga, ou Pangassu – peixe vietnamita que, pelo visto, começa a cair no gosto brasileiro – além da sua tábua de peixes, composta por porções de pescada, cubos de cação, tiras de badejo e iscas de tilápia, vencedora da última edição do Festival Gastronômico de São Bernardo. E há ainda a casquinha de siri, a manjuba, o lambari, o porquinho, o camarão, a lula, o marisco, o salmão, a paella...

A tranqüila passagem das horas faz com que o cenário vá mudando e o público também. Freqüentado principalmente por famílias, o barco passa a receber também as turmas de amigos que chegam para os finais de tarde e os casaizinhos, que vêm à noite para ouvir MPB (que toca nas noites de sexta e sábado e no domingo durante o dia) e para apreciar o romântico visual noturno da represa.

Uma ótima opção para um programa completo é a seguinte: acorde cedo e vá para o Riacho Grande. Vá passear no antigo Caminho do Mar, cujo parque fica alguns quilômetros depois da chamada “Rota do Peixe”, onde está o Netuno. Ande pelo menos até a Casa de Pedra, construída em 1922 em comemoração à assunção ao trono de D. Pedro II, e que por isso é também chamada de Rancho da Maioridade. Volte e vá ao Flutuante Netuno.

Escolha uma mesinha no deck, peça alguns petiscos, algumas bebidas e prepare-se para esquecer da vida, curtindo a magnífica paisagem e todo o sossego que só um restaurante sobre as águas pode oferecer.


Flutuante Netuno – Antigo Caminho do Mar, Km 35,5 – São Bernardo do Campo /SP. Tel: 4354-9940/4354-9238. Horário: Terça a Quinta das 10h às 18h, Sextas e Sábados das 10h às 2h e Domingos das 10h às 18h.


Um último conselho: Não deixe para ir embora no final da tarde, pois há quatro grandes “estâncias” na região que, nos dias de shows e principalmente no horário das saídas, transformam qualquer paraíso numa visão do inferno.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Bar do Plínio (Casa Verde - São Paulo)



Plínio é um cara que gosta de botecos, de boa comida e de pescaria. Tá, já sei: ele e mais uns 100 milhões de brasileiros. Só que tem alguns detalhes que o diferenciam dos outros 99.999.999.

Primeiro: ele montou o próprio boteco em uma grande casa verde na Casa Verde, onde recebe amigos e desconhecidos com a mesma alegria para um bate-papo regado a cervejas e quitutes variados.
Segundo: o Bar do Plínio é um dos raros (se não for o único) botecos especializados em peixes em São Paulo – e o termo “especializado” empregado aqui não é nenhum exagero, pois as opções são muitas e todas preparadas com tamanho esmero que fica difícil escolher.
Terceiro: Plínio é pescador, filho de pescador, tem “alma” de pescador e vai pessoalmente ao Pantanal várias vezes por ano para pescar os peixes que serve no bar. São pacus, dourados, pintados, traíras, tucunarés etc. Fora os que vêm dos lugares mais diversos, como o pangasius, que aqui já virou pangassu, que vem do Vietnã!

A história começou num momento específico – um agradável fim de tarde do final dos anos 70, quando Plínio ainda trabalhava numa empresa multinacional e resolveu passar um agradável happy hour no Valadares, clássico bar da Lapa, freqüentado por ele naquela época.
A coisa toda lhe pareceu tão boa que ele teve uma idéia: montar seu próprio bar. Se o intuito era ganhar dinheiro, ter um lugar para reunir a turma ou simplesmente não ter que ir embora do bar, não vem ao caso. O fato é que, com a ajuda da esposa Rose, ele montou, em 1980, um dos lugarzinhos mais interessantes e agradáveis da cidade.

Trata-se de um bar de esquina, com mesinhas na calçada, um atendimento pra lá de camarada, decoração com temas de pesca e fotos de convidados, um grande aquário com peixes bem exóticos, chopp e cerveja, sucos dos mais diversos tipos, e porções que não existem em lugar nenhum. Só lá.
E uma grande contribuição para esse clima descontraído está na sua localização, em uma rua tranqüila, de fácil acesso e sem dificuldades para estacionar no bairro da Casa Verde, assim chamado devido a cor da casa-sede do “sítio das moças da casa verde”, que eram – antes que alguém pense mal das meninas – as filhas do Sr. José Arouche de Toledo Rendon, proprietário do lote onde hoje está o bairro inteiro.

Finda a história, passemos à mesa. O bar tem algumas opções “comuns”, como batata frita, bolinhos de bacalhau, tábuas de carnes e de queijos, mandioca etc, mas as “incomuns” é que chamam a atenção.
Algumas delas participaram do concurso Boteco Bohemia, como a de tucunaré com palmito e alcaparras e as inusitadas “U... Quihá do Play” (com Filezinhos de Tilapia enrolados com bacon, provolone e uva passa) e a “Bicho Bão” (uma espécie de guioza com camarão, salmão, palmito, cream cheese), considerada uma das melhores receitas do festival.

Mas a especialidade mesmo são os peixes e frutos do mar, normalmente servidos em “trios” numa canoazinha de madeira e que abastecem um bom número de famintos. Há opções como o “Trio de frutos do mar” (camarão, lula e marisco), “Trio do Pantanal” (pacu, tilápia e dourado) e outros, além dos trios que você mesmo monta escolhendo entre aruanã, tambaqui, anchova negra, salmão, pintado, cação, meca e tantos mais.

A nós, só resta sentar, tomar alguma coisa e provar. E torcer para a pesca ser boa.


“Minha jangada vai sair pro mar, vou trabalhar, meu bem querer. Se Deus quiser, quando eu voltar do mar, um peixe bom eu vou trazer. Meus companheiros também vão voltar e a Deus do céu vamos agradecer”.
(Dorival Caymmi).



Bar do Plínio – R. Bernardino Fanganiello, 458 - Casa Verde – São Paulo. Tel: 3857-0999. Horário: Segunda a Sexta das 15h à 1h, Sábado e Domingo das 11h à 1h.


Para quem quiser se arriscar na cozinha, segue a receita do Bicho Bão do Bar do Plínio, vencedora do Boteco Bohemia 2009:

Ingredientes da massa:
200 g de salmão
100 g de camarão
Palmito
Cream cheese
Cebolinha
Salsinha
Cebola
Pimenta de cheiro
Azeite, sal e pimenta do reino na quantidade que preferir

Modo de preparo:
Picar o salmão, o camarão e o palmito em pedaços bem pequenos. Misturar os temperos e, por último, o cream cheese. Com uma colher, pegar uma pequena porção do recheio e colocar no centro da massa de guioza. Fechar, formando uma trouxinha. Cozinhar no vapor e fritas em óleo quente
Servir com molho de damasco agridoce salpicado com pimenta rosa e molho verde feito com maionese e temperos verdes.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Heinz (Santos/SP)



O simples fato de uma bar existir há 50 anos em uma cidade onde a maioria de seus concorrentes abrem e fecham ininterruptamente numa velocidade impressionante deve ter algum significado. E o significado é óbvio: o Heinz é o melhor bar de Santos. Ponto.
Esse tipo de declaração costuma causar polêmica, afinal, todos têm suas predileções, a cidade é grande, tem dezenas de bons bares e restaurantes e cada casa tem sua especialidade. Mas neste caso, não há o que contestar. O Heinz é especial.

A referência número 1 da casa, aquela que todos se lembram assim que ouvem o nome “Heinz”, é o chopp, considerado desde sabe-se lá quando, o melhor da cidade. O precioso líquido é consumido tão vorazmente em suas mesas que a casa chega a servir quase 10 mil litros por mês. Ele é o primeiro a ser atendido pelos fornecedores. Se não sobra para os outros bares, paciência.
O chopp do Heinz é servido – sempre – na temperatura de 1 grau centígrado, cremoso, em uma taça fininha e bonita chamada Trianon, após passar pelas mãos de um chopeiro com mais de 20 anos de experiência e por uma serpentina de 200 metros.

Mas até ele chegar até ali foi uma longa história, que começou na segunda guerra mundial. Isso mesmo! O bar foi inaugurado em 1960, mas foi em 1939 que o navio alemão Windhuk aportou em Santos com mais de 200 tripulantes, fugindo de um cerco naval inglês e ali permaneceu numa quarentena que durou anos.
Quando o Brasil entrou na guerra, em 1942, muitos desses alemães já estavam integrados à Santos, com muitos amigos na cidade e habituados aos costumes locais. E um deles era Karl-Heinz Misfeld que, anos depois, com a ajuda do amigo e, pouco depois, sócio, José Anastácio dos Santos, montou o Heinz.

Mas o fato de servir o melhor chopp passa a ser só mais um detalhe quando você conhece o resto do cardápio, que oferece porções e pratos alemães, sempre com produtos de primeiríssima qualidade e muito fartas, além de algumas incursões pela cozinha brasileira, também no mesmo nível.
Do lado alemão, você pode se acabar no kassler, no joelho de porco, no lombo com batatas, nos salsichões, nas porções de gorgonzola, parmesão, nas tábuas de frios ou nos canapés, sem se esquecer do steinheger para acompanhar os chopps que, claro, serão muitos.
Do lado mais abrasileirado do cardápio, mergulhe nos caranguejos e nos mariscos, ambos servidos nos finais de semana, na companhia de enormes e caprichadas caipirinhas.

Já se passaram mais de duas décadas que o velho Heinz e seu sócio e amigo José Anastácio se foram, mas nem parece. Os antigos clientes estão todos lá e contam suas histórias com a sensação de que aconteceram ontem, embora com uma dolorida saudade.
A eles fazem companhia os da nova geração, filhos e netos de antigos freqüentadores, além dos novos que vão chegando e se enturmando.

Quem também continua na casa são os garçons. Alguns são até mais novos, mas outros estão ali há décadas, como José Bernardino, o seu Zé, que está lá quase desde a inauguração do bar e que conta histórias engraçadíssimas dos tempos em que o Alexandre e a Mônica ainda eram bebês (desculpe, Alê. Não podia deixar de contar isso...).
Alexandre e Mônica Baum dos Santos são filhos de José Anastácio com a Sra. Osmilda Baum dos Santos e hoje tocam a casa com a amiga e sócia Darci Mercki, nora de Karl-Heinz Misfeld. Os três estão sempre por lá, na mesa 12 do Heinz ou nas casas vizinhas Armazém 29 e Paulistânia Café, outros frutos da parceria.

Não bastasse tudo isso, o Heinz ainda fica na esquina da Pindorama com a Lincoln Feliciano, um dos lugares mais agradáveis da cidade, por onde curiosamente todo mundo passa mesmo não sendo caminho para lugar nenhum e que misteriosamente consegue ser um local tranquilo e agitado ao mesmo tempo.

Minha sugestão é chegar por ali ainda de tarde e, se tiver sol, descolar uma mesinha na varanda e ver a frequência ir mudando aos poucos. Primeiro vem o pessoal mais velho, depois a turma que sai do trabalho e por fim a moçada que invade a rua inteira durante à noite, mantendo um clima cada vez mais festivo e feliz.
O problema é ir embora. A sorte é que o Heinz é um bar eterno, em todos os sentidos. Ele está lá há 50 anos e continuará lá nos próximos 50. E nós também.

Bar Heinz – Rua Lincoln Feliciano, 118 – Santos / SP.     Tel (13) 3286-1875. Horário: Segunda a partir das 17h, Terça a Domingo a partir das 12h.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Finnegan’s Pub (Pinheiros / São Paulo)



Sempre nutri uma imensa simpatia pelos irlandeses. Um povo cuja população é metade da de São Paulo, que vive numa ilha linda gelada e chuvosa e que adora curtir a vida cantando, tocando, dançando, tomando cerveja e provocando os ingleses merece respeito.
E Mais. O país de nomes como James Joyce, Bram Stocker, Cranberries, Daniel Day Lewis, Bernard Shaw, Samuel Beckett, Bob Geldof, Oscar Wilde e, claro, o U2, merece quase uma devoção.

É claro que essa simpatia aumentou quando os senhores Mario Fuchs e Frank Philips montaram em São Paulo, nos idos de 1988, o Finnegan’s Pub.
O Finnegan’s é o mais antigo e autêntico pub da cidade. Isso significa um monte de coisa, desde que é um típico bar fechado no velho estilo do Reino-Unido até que é um cantinho no qual todos se sentem muito bem, acompanhados pelos amigos para curtir um showzinho desconhecido e bom, beber um Jameson ou uma Guiness e jogar conversa fora.

É também um ponto de encontro casual, reduto de estrangeiros e de brasileiros que viveram na Europa ou simplesmente apreciam a atmosfera familiar e aconchegante, o atendimento informal e as tradições da ilha dos Leprechauns.
E é ainda um sinônimo de pioneirismo na noite paulistana, anfitrião que foi das primeiras festas em homenagem a St. Patrick e do Bloomsday – evento literário ligado a obra “Ulysses”, de James Joyce. Foi também o Finnegan’s que introduziu a culinária irlandesa e – principalmente – a cerveja Guiness no cardápio da cidade.

Quem sabe disso melhor do que ninguém é meu caro amigo André, que teve a sorte (ou azar) de há 15 anos ir morar a uns 50 passos do pub e que, como muitos, transformou o casarão da esquina da Cristiano Viana com a Artur de Azevedo em seu segundo lar.
E como tantos outros guarda, como ele mesmo diz, “no alforje da memória, histórias infinitas, das mais variadas cores, de doces e acros sabores, algumas publicáveis outras nem tanto”, colecionadas no célebre balcão do pub. São histórias como as que acontecem diariamente, ao som do rock, do blues e da mágica gaita de fole que enevoa seus ares diariamente.

O nome da casa vem de “Finnegans Wake”, ousadíssima obra de James Joyce, cujo título esconde alguns sentidos: Finn é um ancestral mitológico dos irlandeses, lembra a canção popular à respeito de um certo Finnegan, o qual falece de tanto beber uísque e, em seu velório, desperta ao sentir o cheiro da bebida.

Se depois de tudo isso você ainda precisa de um empurrãozinho extra para ir até lá, saiba que na próxima quinta-feira, dia 17, é dia de St. Patrick, o padroeiro da Irlanda. É a data mais aclamada da ilha, quando famílias e grupos de amigos saem amigos com pinturas e fantasias, em uma espécie de carnaval, embalados pelas bandas e pelas músicas folclóricas do país.
E é claro que o Finnegan’s fará sua festa, com muitas apresentações de gaitas de fole e o tradicional chopp verde, servido apenas nesta ocasião do ano. É uma homenagem ao santo, aos amigos e a todos os irlandeses que fazem questão de festejar e curtir cada minuto.
Afinal, dizia o irlandês Oscar Wilde, “a vida é importante demais para ser levada tão a sério”.

Finnegan’s Pub – Rua Cristiano Viana, 358 – Pinheiros / São Paulo. Tel: 3062-3232. Horário: Segunda a Sexta a partir das 18h, Sábado a partir das 19h.



Algumas curiosidades:
- Saint Patrick foi um missionário que levou o catolicismo aos irlandeses. É considerado o fundador da Igreja Católica no país.
- O tradicional trevo de três folhas era usado para explicar a Santíssima Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo, ao povo irlandês. Hoje ele faz parte da herança do país, inclusive por sua cor, o verde.
- A representação da bandeira irlandesa tem o verde, como os católicos, o laranja, como os protestantes e o branco, simbolizando a paz entre os credos.
- Não há cobras na Irlanda. Diz a lenda que St. Patrick expulsou todas da ilha e elas nunca mais voltaram. Já os céticos atribuem a ausência do animal ao clima gelado.
- A lei do país proíbe que o comércio distribua sacolinhas de plástico. Quem não tiver bolsas ou mochilas precisa pagar pela sacola ou carregar as compras nas mãos.
- Chicago, nos Estados Unidos, abriga uma das maiores colônias irlandesas do mundo. No dia de St. Patrick, o rio da cidade é tingido de verde e o Chicago Bulls, time em que jogou o mito Michael Jordan, joga de uniforme verde.

- A Guiness, que já se tornou um dos símbolos do país, é a sexta maior cervejaria do mundo, e foi fundada em 1759, há exatos 252 anos.
- Em 1961, mergulhadores descobriram garrafas de Guiness num navio naufragado em 1869. Conta-se que ainda era bebível e tinha uma boa espuma.
- O copo utilizado para o consumo de Guiness é chamado “Pint”. O pint foi criado na Europa e tem 568ml.
- Há 50 cervejarias Guiness espalhadas pelo mundo. Porém, todas as Guiness vendidas no Brasil vêm da cervejaria original St. James Gate, em Dublin.

- Esta é clássica do espírito irlandês: 
Em boa parte de Dublin, as casas seguem o estilo georgiano. São todas muito parecidas, exceto pelas portas, cada uma de uma cor.
A explicação é simples: conta-se que, quando o príncipe Albert, da Inglaterra, faleceu, em 1861, a rainha Vitória foi passar alguns dias na Irlanda, para se restabelecer.
A rainha ordenou então, que todas as portas fossem pintadas de preto ou exibissem bandeiras pretas, em sinal de luto. No dia seguinte, a cidade amanheceu com centenas de portas vermelhas, amarelas, verdes, azuis, laranja etc. Tudo, menos preto.
E como o amor dos irlandeses pela família real inglesa não mudou muito nestes 150 anos, a Irlanda continua ostentando suas portas, cada dia mais coloridas.




Segue abaixo um vídeo da última passagem dos irlandeses do U2 por São Paulo. Vale lembrar que no mês que vem eles estarão novamente por aqui:


quinta-feira, 10 de março de 2011

Brigadeiro Doceria & Café (Pinheiros – S.Paulo)



A vida é doce, disse o Lobão. Mas a Márcia, que sabe muito mais sobre as doçuras desta vida do que qualquer lobo, nos contou que na rua Padre Carvalho, ali em Pinheiros, a vida é um Brigadeiro.

Fui checar e dei de cara com uma casinha que, de cara, dá vontade de comer. É algo como a casa da bruxa de João e Maria, que era feita de doces – e num lugar assim é preciso ter cuidado, pois rapidamente você ficará com o dedinho mais gordinho.
A casa é perfeita para uma pausa da cidade grande. Aconchegante e decorada com cadeiras antigas pintadas a mão, sofás e muitos quadrinhos pelas paredes, ela conta também com passarinhos, tartarugas, coelhos e peixes, que dão um ar ainda mais bucólico ao lugar.
Mas o cuidado aumenta quando você percebe que os simpáticos bichinhos têm nomes apetitosos como Pipoca, Picolé, Canela...

Só que aqui quem faz o papel da bruxa é Bia Forte, cuja única maldade é nos deixar confusos diante de tantas opções de coisinhas tão deliciosas, que nos leva, invariavelmente, a uma violenta briga com a nossa consciência.
Bia é publicitária e sempre teve um dom mais do que especial para a cozinha. Quem a conhece de outros tempos conta que os aniversários de suas filhas sempre foram disputadíssimos, pois de suas panelas saíam maravilhas que conquistavam a todos.
Eram bolos recheados, beijinhos, bichos de pé e, principalmente, os brigadeiros que foram ganhando fama ao longo dos anos, mas mantendo o mesmo jeito, formato e sabor até os dias atuais.

A Brigadeiro Doceria & Café abriu em 2005 e como retribuição às saborosas festas (ou para continuar por perto dos docinhos), as filhas Isabel e Marina foram cuidar da parte administrativa do empreendimento.
No comando da cozinha, Bia preserva uma tradição familiar que vem de longe, retratada no pavê de sua mãe, no arroz doce de sua avó e em vários segredinhos que ela coloca em prática em bolos, tortas, mousses e outros tantos itens de um cardápio, digamos... tentador.

Mas a estrela do menu é mesmo o brigadeiro. Sem abrir mão da simplicidade, a mistura leva leite condensado, manteiga e chocolate em pó, como todos os outros, além de um pouquinho de mel. Seu toque especial está nos mais de vinte tipos de complementos, incluindo aí alguns recheios, como morango, uva e avelã.
Portanto, se você já se recuperou do Carnaval, mas não tem a menor disposição para mergulhar no mar de ovos de Páscoa que começam a invadir o planeta com uma esmagadora mesmice, este é o seu lugar – uma casinha tentadora com docinhos diferentes e brigadeiros maravilhosos.
Vá, conheça, relaxe, saboreie, aprecie. 
Parece coisa de bruxa. Mas não é!

Brigadeiro Doceria & Café – Rua Padre Carvalho, 91- Pinheiros – São Paulo. Tel: 3813-6656. Horário: Segunda a Sábado das 10h às 19h, Domingo das 11h às 18h.



Se nada disso te convenceu a ir até lá mas te deu água na boca, tudo bem, faça em casa. Teoricamente, é a coisa mais fácil do mundo. 
No vídeo abaixo, a atriz Mel Lisboa fala um pouco de sua experiência com o doce:


quinta-feira, 3 de março de 2011

Botecos - Viagem & Turismo (Santos / SP)






Hoje posto uma cópia da matéria que fiz para a edição de março/2011 da revista Viagem & Turismo, que chegou ontem às bancas. É uma reportagem sobre alguns botecos da cidade de Santos, com textos curtos - ao contrário do que o blog costuma apresentar - mas com muitas informações. Segue a matéria:



SANTOS

Desce mais uma rodada

Petiscos caprichados, cerveja trincando e garçom amigo. Os antigos botequins de Santos resistem às baladinhas da moda ao melhor estilo “pé-sujo”. Tradicionais, eles estão dentro e fora do circuito turístico e são um prato (e um copo) cheio para coroar seu passeio pela cidade.

POR PEDRO SCHIAVON


BARAÇAÍ
(Rua Januário dos Santos, 235, Aparecida, 13/3877-8960, baracaisantos.com.br; 3a/5a 17h/1h, 6a/Dom 16h/2h; Cc: A, D, M, V; Cd: todos)
Instalado em uma pequena loja, o bar é reduto de surfistas. Ao som de Jack Johnson e Bob Marley, Samuel Vieira, um dos sócios, serve açaí na tigela, sucos naturais, wraps e saladas, além de caipirinha e cerveja gelada. Entre muitas tentações do cardápio, há o wrap de salmão (R$ 18,90) e a caipirinha de açaí com vodca (R$ 13).


BAR DA SOL
(Rua Ministro João Mendes, Embaré, 118, 13/3272-5617; 3a/6a 14h/1h, Sáb/Dom 11h/3h; Cc: A, D, M, V;; Cd: todos)
Antigo Bar do Jorge, que há 15 anos ocupa uma casa no miolo do Embaré, o local costuma atrair as famílias com crianças. Solange da Silva Lobo, a Sol, assumiu o estabelecimento há cinco anos e melhorou o que já era bom. Tradições foram mantidas, como a porção de picanha (R$ 60), mas a vedete passou a ser o frango à passarinho (R$ 35).


BAR DO TONINHO
(Avenida Epitácio Pessoa, 241, Embaré, 13/3227-8269; 3a/Dom 8h/2h; Cc: A, D, M, V; Cd: todos)
Aberto em 1987 por Antonio Almeida Cardoso, é o bar mais democrático da cidade. Tem cafezinho pela manhã, petiscos para a saída da praia e cervejinha no fim do dia. A fórmula do sucesso é simples: mesas de plástico, bom atendimento, bebida gelada e porções fartas. O bolinho de bacalhau (R$ 3 a unidade) e os maravilhosos pastéis, como o de siri (R$ 3 cada um), são os mais pedidos. Para refrescar, Brahma e Skol (R$ 6).


BAR E CAFÉ CARIOCA
(Praça Visconde de Mauá, 1, Centro, 13/3219-1745, cafecarioca.com.br; 2a/6a 6h/21h, Sáb 6h/16h; Cc: A, D, M, V; Cd: todos)
Há mais de 70 anos no mesmo endereço, a casa é considerada um patrimônio santista. Freqüentado por políticos, executivos e também por gente só de passagem, o bar é cultuado por seus pastéis (R$ 3 a unidade), principalmente os tradicionais de carne e queijo. Conta-se que o santista Mário Covas, quando governador de São Paulo, mandava buscar em Santos os famosos quitutes para eventuais lanches no Palácio do Governo. O chopinho (R$ 4,50) pode fazer parte de um agradável passeio pelo centro histórico da cidade.


CANTINA VISTA AO LAGO
(Rua Antonio Manoel de Carvalho, 4121, Nova Cintra, 13/3258-7651; 2ª/dom 9h/1h; Cc: A, D, M, V; Cd: todos)
Em pleno litoral, um boteco com ares de interior. No alto do morro da Nova Cintra, em frente à Lagoa da Saudade, o bar é do simpático Paulo Rogério Lopes. Não se engane com a aparência simples. Às mesinhas de plástico chegam boas e inusitadas porções, como a de Meca (R$ 33), rã à dore (R$ 13) e a de iscas de peixe-trombeta (R$ 30). Incomum também é o clima: é possível tomar uma cerveja (R$ 4,50), curtir a brisa (ali a temperatura é mais baixa) e aguardar a aparição de Florentina, uma fêmea de jacaré que habita a lagoa e virou atração local.


EMBALOS
(Rua Pindorama, 26, Boqueirão, 13/3289-7421; 3a/5a 17h/1h, 6a/Dom 11h/3h; Cc: A, D, M, V; Cd: todos)
Em uma das ruas mais descoladas de Santos, a casa só tem espaço para oito mesas. Do balcão saem petiscos de frutos do mar, sua especialidade, como o marisco lambe-lambe (R$ 55) as iscas de badejo (R$ 39) e a casquinha de salmão (R$ 8 cada uma). Para acompanhar, uma lista interminável de caipirinhas (R$ 12) que o dono Carlos de Faria, ou Maresia, não se cansa de repetir.


O ALMANAQUE
(Avenida Bartolomeu de Gusmão, 88, 13/3273-8277; 3a/Dom 11h30/2h; Cc: A, D, M, V; Cd: todos)
Aberto há dez anos por Celso de Brito, o boteco fica de frente para a Praia do Embaré e é um dos raros lugares que, além dos tradicionais petiscos, servem pratos elaborados como o filé de peixe grelhado com molho de caju (R$ 19,90) criação da chef Elvira Bastos. No cardápio noturno, destaque para o escondidinho (R$ 29)  e a porção de bolinho de mandioca recheado com provolone ou carne seca (R$ 24). Com o subtítulo “Gastronomia, Arte e Cultura”, o bar é comandado à noite pelo casal Paulo Mendes e Sibely de Faria, que promovem shows, exposições e lançamentos diversos.


SIMPATIA DO EMBARÉ
(Avenida Senador Dantas, 419, Embaré, 13/3238-9191; 2a/Sáb 8h/0h; Cc: A, D, M, V; Cd: todos)

Não fosse a quantidade de gente que lota o lugar diariamente, o bar passaria despercebido. Na esquina da avenida que liga o bairro ao porto, o bochicho mostra que a tal simpatia é a sua melhor divulgação. O carinho pode ser atribuído ao longo convívio dos garçons com as  mesas de madeira – o funcionário com menos tempo de casa está lá há sete anos – ou à sua valente churrasqueira, de onde sai uma suculenta picanha maturada no alho (R$ 42).