quinta-feira, 26 de maio de 2011

Roda Viva (Vila Madalena – São Paulo)



Meu caro amigo, me perdoe, por favor, se eu não lhe faço uma visita. Porém é você quem vive prometendo aparecer por aqui e nunca aparece. Mas como agora temos computador, mando notícias nesse blog...
O Peixe segue dando show de futebol e por aqui tem muito samba, muito choro e muita MPB. Mas o que eu quero é lhe dizer que essa sonzêra toda acontece em um barzinho muito especial que fica numa daquelas ruazinhas atrás do Cemitério São Paulo, que você precisa conhecer e que, não por acaso, se chama Roda Viva.

O Roda Viva é uma invenção da Tatyana Gomes, publicitária que é simplesmente apaixonada por Chico Buarque. Ela transformou um simpático sobradinho em uma ode ao seu ídolo, com inumeras capas de LPs enfeitando as paredes. Tem obras também de Caetano, Tom e bons discos de Noel, mas uns noventa por cento é de imagens do Sr. Francisco.
Entretanto, como a Tatyana vive em Salvador, quem segura a barra por aqui é o simpático Gugu, gerente da casa, que se vira para garantir o abastecimento, a limpeza, a qualidade musical, o trabalho dos garçons e mesmo com todo esquema e todo problema vai levando a chama para que o bar não perca suas carecterísticas tão acolhedoras.

A primeira coisa bacana é que o lugar não tem absolutamente nada de sofisticado ou arrumadinho, como as reformas tornaram mania na outrora tão desencanada região. Pelo contrário, é pequeno, pouco iluminado, com assoalho antigo e cadeiras e mesas bem simples em madeira, o que deixa a sensação de não estarmos exatamente em um bar, mas numa casa de amigos.
E como nunca foi reformado, o público tem que se dividir nas mesas em duas salas distintas ligadas por um largo corredor. Isso até o som começar a rolar, porque aí todo o público se desloca e entope a sala onde fica o minúsculo palco.

Meu caro amigo eu não pretendo provocar nem atiçar suas saudades. Mas acontece que este bar me lembra muito outros dois que nunca sairão de nossas memórias: o Vou Vivendo – pela qualidade musical – e o Torto, em Santos – também pelo som e pelo clima de festa imodesta como aquelas, que aos poucos vai tomando conta do ambiente.



A Rita, a Rosa, a Angélica, a Bárbara, a Beatriz, a Lia, a Terezinha, a Yolanda e até a Geni estão todas lá, muitas delas como nomes de porções simples, como as de pasteizinhos (Iracema), as de bolinhos de carne seca (Joana Francesa) e outras, no enxuto pero competente cardápio da casa.
Mas também estão lá a Ana de Amsterdam e as mulheres de Atenas, a moça do sonho e a dançarina, a morena de Angola e a dos olhos d’água. Elas são a metade de um público jovem, bonito, culto e descolado, naturalmente selecionado pela excelente programação musical, que atrai exatamente meninos e meninas assim, que se interessam pouco pela aparência do ambiente e muito pelo som que rola dentro dele.

A programação inclui o Roberto Biela (pois é, ele mesmo, do Torto) às terças, o Renato Belschansky às quartas, o próprio Renato com o Sílvio às sextas, o Biela com o Douglas ou com o Edinho aos sábados e o Ailton Prado aos domingos. Muitos deles eu (ainda) não conheço, mas pelo repertório dá para ter uma ótima impressão, pois, como sabemos, mesmo que os cantores sejam falsos (e não são), serão bonitas, não importa, são bonitas as canções.
Todos esses dias tem MPB clássica, das antigas e boas, sem abrir excessões, e às quintas – ah... as quintas... – é noite só de Chico Buarque, com o Rogério Silva e o Biela. Os dois fazem um som daqueles de cantar junto, de levantar e sair dançando com a ofegante epidemia que toma conta da casa. Eu só tô lhe contando que é pra lhe dar água na boca.



No meio disso tudo, se você quiser se sentar é preciso fazer reserva e chegar cedo, pois realmente lota sempre. E depois que enche é pirueta para chamar o Zé Almeida, o Gilson ou a Meire, que se viram bem a abastecem o público de cerveja em garrafa, que a gente vai tomando de teimoso, de pirraça e para molhar a garganta porque a cantoria fica cada vez mais animada.
Pois é, amigo. Me perdoa se eu insisto à toa, mas a vida é boa para quem cantar e, como eu já disse, você, que quase nem gosta do Chico, precisa conhecer esse lugar(zinho). Então, vê se não dorme no ponto, reúne as economias e as traga em dinheiro ou cheque, pois eles não trabalham com cartões de espécie alguma – o que também ninguém se importa, porque, além de tudo, não é caro.



E enfim, é isso. A Bel e o Ric mandam um beijo para os seus. Um beijo também da Gabi, da Cecília e das crianças. Os velhos amigos aproveitam pra também mandar lembranças. A todo o pessoal, adeus!


Roda Viva Bar – Rua Padre Gonçalves, 162 – Vila Madalena / São Paulo. Tel: 3815-2290. Horários: Terça, Quarta e Domingo das 21h à 0h, Quinta, Sexta e Sábado das 22h30 às 2h30.




E para mergulhar um pouquinho mais no universo do bar, um pouquinho de Roda Viva, apresentado no Festival da Canção de 1967:


segunda-feira, 23 de maio de 2011

Bar dos Cornos (Jaguaré - São Paulo)



O filósofo cearense Marcondes Falcão Maia, mais conhecido como o cantor Falcão, sabe que a besteira é a base da sabedoria e que esse negócio de chifre é coisa que os outros colocam na sua cabeça. Por isso, numa dessas andanças por São Paulo, foi conhecer o Bar dos Cornos, como comprova sua foto orgulhosamente ostentada na parede do folclórico botequim do Jaguaré.
Pois é. Quando a gente pensa que já viu de tudo nessa vida, aparece uma coisa dessas. Na seara dos bares temáticos que assolam esse mundão, este é o único (pelo menos eu quero crer nisso) a homenagear as vítimas das infidelidades amorosas.


Mas o bar se chama, na verdade, Recanto Nordestino e, mesmo com a fama do exótico apelido, faz justiça a seu nome oficial por alguns motivos. Um deles é porque quando você consegue escapar da agitação das avenidas Jaguaré, Politécnica e Corifeu e subir a ruazinha que leva ao bar, você mergulha em um ambiente cada vez mais tranqüilo até encontrar o boteco, que tem todo o jeito daquelas vendinhas antigas de uma cidadezinha qualquer no sertão do Nordeste.


Outra razão, que é a principal, é porque o forte do cardápio é a típica comida nordestina, daquelas que não é qualquer cabra que encara de frente sem se preocupar com os fundos. Tem jabá na manteiga de garrafa, rãs, feijão de corda, fava com costela de porco, caldo de mocotó e sarapatel. Para os estômagos mais “paulistas”, tem pratos portugueses como alheira, lingüiça portuguesa e bolinhos de bacalhau, além de petiscos tradicionais, como croquetes, batatas e pastéis, com destaque para o “Disco Voador dos Cornos”, um pastel redondo, de carne, queijo e vinagrete. Tudo bem servido, afinal, um dos mandamentos da casa é “onde come um, comem dois”.
E para esquecer a “dor de corno”, a casa oferece as cervejas tradicionais e uma carta com centenas de cachaças, incluindo aí a marca da casa, batizada de “Cachaça dos Cornos”. Tudo isso num cardápio bem simples que traz ainda a singela advertência: “Não servimos mulheres. Quem quiser que traga a sua”.

O apelido do bar surgiu do estranho hábito do Sr. Fernando Pereira, proprietário da casa, de utilizar algumas cabeças de boi e alguns outros chifres na decoração. Como a quantidade de objetos só fazia crescer, o fato chamou a atenção de um freqüentador, que soltou a frase definitiva: “isso aqui está parecendo um bar de cornos!”.
“Seu Fernando” viu nisso uma maneira de chamar a atenção para seu comércio e passou então a ampliar sua decoração. Ela pode ser considerada o que há de mais fino em matéria de grossura: dezenas de chifres, garrafas penduradas, peles de animais e aquelas canecas de chopp que imitam genitais masculinos e femininos. Tudo de uma delicadeza paquidérmica que pode ser observada bem antes de chegar ao local, graças ao “Cornomóvel”, um antigo landau com um imenso par de chifres sobre o capô que fica estacionado na frente do boteco e que eventualmente serve para levar algum cliente mais debilitado em casa (já imaginou chegar em casa assim?).

O Bar dos Cornos foi inaugurado em 1988 na rua Araicás, mas em 2007 mudou-se para o local atual, mais espaçoso, que lhe permitiu abrigar mais mesas e colocar música ao vivo todos os dias. No repertório, é claro, pagode e sertanejo para corno nenhum botar defeito.
A cereja do bolo é o “detector de cornos”, uma gravação com algum tipo de sensor que, assim que as pessoas adentram o recinto, ressoa no alto-falante um “Bem-vindo, amigo corno! Bem-vinda, amiga corna!”.

Se sua intenção for ir a um lugar bonito, provar comidas criativas, tomar bons drinques e paquerar, não passe nem perto de lá. Mas se a idéia for se divertir em um lugar simples e dar boas risadas com os amigos, o Bar dos Cornos pode ser uma ótima pedida. Aproveite.
Afinal, como diz o “poeta” Falcão, “é ganhando que se ganha, é empatando que se empata, e perdendo que se perde. É nascendo que se nasce, é morrendo que se morre, é vivendo que se véve!”.

Bar dos Cornos – Avenida General Mac Arthur, 865 – Jaguaré – São Paulo. Tel: 3766-2969. Horário: Segunda a Sábado das 8h à 1h, Domingo das 10h às 22h.




Embora Falcão seja personagem indispensável desta história, resolvi postar um vídeo dos saudosos Mamonas Assassinas, gravado em Valinhos pelo don Pedrucci, e que também é dedicada ao tema central desta matéria:


terça-feira, 17 de maio de 2011

Praça Benedito Calixto (Pinheiros – São Paulo)



“A praça é do povo como o céu é do condor. É o antro onde a liberdade cria águas em seu calor”, disse o poeta Castro Alves.

São Paulo é uma cidade de feirinhas de arte. Fora as feiras anuais, como a da Pompéia, do Brooklin ou da Vila Madalena, há feiras semanais famosas, como a do MASP, a da Praça da República, a do Bixiga ou a da Liberdade. Mas talvez nenhuma delas exemplifique tão bem os versos do "Poeta dos Escravos" quanto a feira da praça Benedito Calixto, em Pinheiros.
Ponto de referência cultural, a “Benedito” é freqüentada por um público um pouco mais exigente, formado por jovens e idosos, héteros e uma grande parcela de homossexuais, famílias e crianças, brasileiros e muitos estrangeiros, artistas, decoradores e desocupados. Gente de todos os tipos que deixa a feirinha de sábado com um clima feliz, descontraído, iluminado.

A história da feira começa em 1985, quando um grupo de amigos que lutava pela reforma da praça e por sua utilização para lazer e cultura, resolve fundar a Associação dos Amigos da Praça Benedito Calixto e, com ela, a feira.
E assim numa área de 4.500 m2, dos quais cerca de 40% são de área verde, instalaram-se de imediato dezenas de barracas que vendiam artesanato, antiguidades, roupas, discos, livros, brinquedos, louças, móveis e diversas outras coisas, cujo sucesso foi tanto que hoje as barracas passam de trezentas, e muitos galpões foram criados ao seu redor para abrigar mais expositores.

Também graças ao sucesso da feira, ali surgiram inúmeras lojas de decoração e artesanato – algumas das melhores da cidade, além de uma série de bares e restaurantes, capitaneados pelo Consulado Mineiro, pioneiro ao abrir suas portas ali, em 1991.

Podemos afirmar que o ponto forte da feira, como em muitas outras, são as antiguidades. Entre cristais, louças, talheres e abajures, podemos encontrar antiqüíssimas máquinas fotográficas, pingüins de geladeira, garrafas de crush, jarras plásticas em formatos de abacaxi, óculos dos mais diversos tipos e por aí vai.
O destaque desta parte da feira fica com a barraca do “Museu da Voz”, criado por Jorge Narciso Caleiro Filho e pelo jornalista Luiz Ernesto Kawall (que, aliás, foi colega de meu pai) e que reúne um acervo de mais de 4 mil vozes gravadas, incluindo depoimentos de Santos Dumont e Thomas Edison, declamações de Cora Coralina, pronunciamentos de Adolf Hitler e de Indira Gandhi e mesmo uma gravação da atriz alemã Marlene Dietrich cantando “Luar do Sertão” em português. O museu funciona dentro do apartamento do jornalista na própria praça, mas a barraca que o representa, uma das pioneiras da feira, está nela todo sábado, há mais de 20 anos.

Outra coisa que chama a atenção de adultos e crianças por ali são algumas barracas que vendem brinquedos de todas as idades. São bonecos de personagens ou super-heróis, carrinhos, jogos, robôs, gênius, ataris, autoramas, telejogos e uma infinidade daquelas coisas que marcaram a infância de todos nós.

Mas nem só de antiguidades vivem as barracas e por lá podemos encontrar, entre centenas de outras opções, as bonequinhas de pano da Ana Mainieri, as deliciosas e criativas roupas da Vera Verão, as sedas pintadas à mão da Marlene, as marchetarias do Carlos Alberto Martins, as luminárias artesanais do Marco, as incríveis máscaras do José Toro-Moreno e, claro, a barraca do André, querido amigo que, depois de 15 anos de feirinha, mudou de ramo, mas por precaução ou apego deixou seus incensos, produtos esotéricos e peças balinesas, tailandesas e indianas nas mãos do Eduardo, no mesmo ponto.

Uma outra coisa que diferencia a feira das demais é o projeto “Autor na Praça”. O projeto, cuja idéia básica é a de aproximar os escritores do público através de palestras, bate-papos e tardes de autógrafos em plena praça, surgiu há 12 anos da iniciativa coletiva do produtor cultural Edson Lima, do poeta e jornalista Fred Maia, do designer gráfico Marcelo Max, do jornalista Mouzar Benedito e do escritor e dramaturgo Plínio Marcos, que foi o primeiro a se apresentar, acabou se tornando o padrinho do projeto e, após sua morte, deu nome ao espaço onde ele é realizado.
Pelo Autor na Praça já passaram centenas de convidados, entre nomes como Ignácio de Loyola Brandão, Eduardo Suplicy, Chico e Paulo Caruso, Juca Kfouri, Washington Olivetto, Lourenço Diaféria, Regina Echeverria, Frei Betto, Tatiana Belinky, Roberto Freire e até o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns.

Mesmo com tudo isso, o epicentro da feira é mesmo a sua pequena praça de alimentação, onde o pessoal se aglomera durante as tardes para disputar os pastéis da Patrícia, os lanches naturais da Zuleika, um caldinho de feijão, um “buraco-quente”, o acarajé da Luzia e, de saída, os doces do casal Maria Emília e Benê, servidos em copinhos plásticos com colherzinha de madeira.
Tudo isso maravilhosamente acompanhado por “Canário e seu Regional”, inabalável grupo de chorinho que sábado sim outro também desfila, no meio da praça, clássicos de Pixinguinha. Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga e outros ícones do choro.

No clima festeiro que toma conta da praça todas as semanas, o que mais chama a atenção é a variedade, não só de mercadorias, mas de gente. O mérito é de toda a região, que sempre foi meio “do contra” e nadou contra a corrente, conseguindo manter hoje a cada dia mais difícil qualidade de colocar o homem em contato com seu meio a céu aberto.
Nas palavras da própria associação que cuida da feira: “a Praça Benedito Calixto tem sido um exemplar raro desta resistência ao confinamento, ao medo, e tem conseguido se manter como um espaço privilegiado para o congraçamento de muitos grupos diferentes que possuem um objetivo comum: o do lazer saudável, o da busca das atividades sociais e culturais que lá ocorrem. É, ainda, um reflexo do que existe de belo nesta cidade de tantas questões e cores”.


Feira de Artes, Cultura e Lazer da Praça Benedito Calixto – Pinheiros / SP. Horário: Sábado das 9 às 19h.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Bar do Magrão (Ipiranga / São Paulo)



"Um país não pode ser um país de verdade se não tiver ao menos uma cerveja e uma empresa aérea. Ajuda se tiver uma equipe do futebol ou armas nucleares, mas o mais importante é a cerveja” (Frank Zappa)

Zappa sabia das coisas. Era um cara que fazia de tudo um pouco e lançou 60 discos bem diferentes um do outro, nos quais tocava vários instrumentos e desenhava a capa. Estava sempre disposto a experimentar novidades e se sentia apto a avaliar o potencial de uma nação através do conceito acima. Ele ia adorar o Bar do Magrão.

O Bar do Magrão é um lugar meio difícil de explicar. Original, cheio de personalidade e instalado num lugar bem improvável do Ipiranga, já quase no Sacomã, o botequim tem jeitão de pub, destacado pela iluminação baixa e pela grande oferta de cervejas do mundo todo.
O jeito é ressaltado também pelo velho e bom rock and roll que sai de suas caixas de som, já que Luiz Antonio Sampaio, o Magrão, é roqueiro de carteirinha e no seu aparelho de som só toca coisas como Stones, Led, Beatles, Floyd, Hendrix e afins.



Mas o bar não é bem um pub, pois é aberto, com algumas mesas dentro e outras na calçada e alguns degraus onde o povo se amontoa quando a casa está cheia, o que acontece quase todos os dias.
A decoração também não parece com nada, mas é muito bacana. A casa é completamente abarrotada de quinquilharias doadas pelos freqüentadores. São coisas como instrumentos musicais, luvas de boxe, sapatos de palhaço, pratos e pranchas de surf, com destaque para a múmia pendurada no teto – herdada de um Halloween – e para os relógios parados atrás do balcão, marcando 5 minutos para as 5 horas, horário em que o bar abre suas portas, pontualmente, durante a semana.


Outra peculiaridade é que o bar é meio vizinho / meio anexo à Cantina do Magrão, que obviamente é do mesmo dono. Ocorre que, com a existência do bar desde 1995, Mônica, esposa do Magrão, começou a usar a cozinha durante o dia para fazer massas frescas e vender na rotisseria que abriu ao lado. Só que a clientela, que em boa parte era formada por freqüentadores do bar, pedia uma cerveja, sentava para conversar e acabava por comer a massa ali mesmo, em mesas improvisadas na calçada.
Como uma coisa leva à outra, a rotisseria virou cantina em 2000 e passou a funcionar ao lado do bar. Oficialmente, são casas distintas, mas como a informalidade impera no pedaço, é comum os fregueses estarem em um e pedirem coisas do outro.


Diga-se de passagem, mesmo o bar tendo ótimas opções de petiscos, incluído aí diferentes tipos de escondidinhos, é muito difícil resistir ao raviolli di nonno, feito com massa verde de espinafre e recheio de vitela, ou ao pavoni, que leva damasco e queijo brie.
Mas como Zappa disse que o que importa é a cerveja, concentremo-nos no boteco. Ali tem cerveja para qualquer um se esbaldar e tentar avaliar as qualidades de cada país. Há coisas como a francesa Bière du Désert, a belga Kasteel Rouge, a irlandesa Guiness, a tcheca Primátor, a Holandesa Urthel, a alemã Warsteiner e dezenas de outras.

A idéia é a seguinte: sente-se, experimente e embarque numa viagem de país em país através das cervejas. Se você vai aprender alguma coisa sobre esses lugares, não sei. Se vai ter grandes lembranças de viagem, é pouco provável. Mas que será uma maneira bem divertida de dar a volta ao mundo, lá isso será.


Bar do Magrão - R.Agostinho Gomes, 2988 - Ipiranga/SP. Tel: 2061.6649. Horário: De Terça a Sexta das 16h55 à 0h, Sábado das 12h à 0h e Domingo das 12h às 22h.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Casa do Churro (Tatuapé / SP)



“Todo mundo gosta de churros”. Assim, o Sr. Antonio Farré Martinez resume parte da razão do sucesso de sua Casa do Churro. Mas só uma parte.


Ele é o filho caçula da família Farré, que imigrou inteira da Espanha para o Brasil em 1954 para fazer história. Uma história que começa nos próprios anos 50, quando, para aumentar a renda da família, Antonio e seus pais começaram a vender doces em parques e grandes eventos de São Paulo. E como por aqui havia uma razoável fartura de maçãs vindas da Argentina, D. Consuelo, mãe de Antonio, criou um doce com a fruta envolvida em uma calda vermelha cristalizada, que logo chamou a atenção e caiu no gosto do público.
Com o sucesso, era preciso batizar o doce, e a família convocou uma reunião para escolher o nome: maçã caramelada, doce cristalizado... O debate seguiu noite adentro, até que o Sr. José Maria, o pai dos meninos, se cansou e decretou: “Põe logo ‘Maçã do Amor’ e vamos dormir!” E, por esse mesmo nome (até patenteado, para quem duvidar), o fruto é hoje conhecido praticamente no mundo inteiro.

Mesmo com o sucesso da Maçã do Amor, a renda ainda não era suficiente para fazer o negócio crescer. E a família resolveu então apresentar aos brasileiros o churro em roda.
O churro é um doce tradicional espanhol, consumido diariamente no desjejum, normalmente acompanhado de café com leite ou chocolate espesso. Ele é feito com massa a base de farinha de trigo e água, em formato cilíndrico e frito em óleo vegetal. Seu preparo é feito com uma ferramenta na qual a massa fica armazenada e depois prensada através de um dispositivo de pressão semelhante a uma manivela, que lhe confere o aspecto estriado com um canal central.



Sendo o churro um alimento de origem espanhola, ele é muito comum nos países latino-americanos, como o México e a Argentina. Porém, tanto nestes países quanto na Espanha, ele é consumido sem recheio. E é aí que começa a segunda parte da história da família Farré.



Empenhada na venda de seu novo produto, a família do Sr. Antonio montou, em 1974, a primeira Casa do Churro, localizada na avenida São João, no centro de Sampa. Daí, surgiu o convite, vindo do também espanhol Sr. Ramon, gerente das Lojas Brasileiras, para que o churro fosse vendido na porta da loja, na Rua Direita. O churro em roda passou a ser vendido em pedaços, como todos o conhecem, e logo se tornou um sucesso.


Foi nesta ocasião que surgiu entre os irmãos a idéia de rechear o churro com algum tipo de doce, como uma alternativa para o cliente. E com ela, a criação da engenhoca com o tubinho que derrama o recheio dentro do churro.
O sucesso do primeiro churro recheado do mundo, feito com doce de leite, foi tão grande que logo em seguida surgiram outros recheios e outros formatos. O produto passou a ser vendido em parques e grandes eventos como a Fenit e a UD, e a família Farré chegou a vender até 6 mil churros por dia!


Como em qualquer novo mercado, a concorrência surgiu, cresceu e tornou as vendas menos compensadoras. Mas como ninguém deixou de gostar de churros, o comércio da família apenas se mudou do centro. Primeiro, em 1992, para a garagem da casa da família e depois, em 2001, para o local onde se encontra até hoje.


Quem for visitar a Casa do Churro vai encontrar um local simples, com ares de sorveteria de interior, instalado com mesinhas de plástico em uma rua escondida no Tatuapé. Encontrará também várias opções de churro de roda, que segue sendo a estrela da casa. Entre elas os churros de chocolate, Romeu e Julieta ou doce de leite. Descobrirá que existem churros salgados, como os de mussarela com tomate seco, os de frango e os de bacalhau. E se surpreenderá ao saber que existe churro diet – não porque o objetivo seja engordar menos, já que caloria é um assunto proibido no local, mas porque há clientes diabéticos!


E conhecerá, sobretudo, um lugar agradável e incrivelmente tranquilo, freqüentado por famílias e jovens, em sua maioria da região, que fazem dali uma extensão de suas casas. Para eles, o Sr. Antonio, sua esposa Zonelia e seu filho Leandro já fazem parte de suas vidas há tanto tempo, que é como se fossem da família, ou como se sempre tivessem estado ali. Como no interior. Como nos velhos tempos.

Casa do Churro – R. Rodrigues Barbosa 232 – Tatuapé /SP. Tels: 2671-7180 / 2671-9044. Horário: Segunda a Quinta das 10h às 22h, Sexta a Domingo das 10h às 23h.


OS CHURROS DAS MADRUGADAS NA MOOCA
Os churros da Mooca se tornaram uma lenda na cidade. Durante quase 50 anos, uma micro-churraria atraiu uma multidão à pequena porta da rua Ana Néri, até que ela se fechou a uns três anos atrás e não abriu mais.
Como na casa do Sr. Antonio Farré Martinez, o churro da Mooca era feito por um Antonio – o Sr. Antonio Garcia Lopes, mais conhecido como Toninho.
Como no caso dos Farré, originais da Catalunha, Toninho também trouxe suas raízes da Espanha, mas da Andaluzia.
Ocorre que o Sr. Antonio Garcia Lopes adoeceu e, aconselhados pelos médicos, seus filhos pediram que ele não voltasse a trabalhar, deixando todos saudosos de seus churros e de suas histórias.
A grande peculiaridade dos churros da Mooca ficava por conta de seu inusitado horário de trabalho, que ia das 2h30 às 11h30 da manhã e somente aos sábados, domingos e feriados. Era freqüentado por uma multidão de baladeiros e outros notívagos que faziam fila à espera dos doces mais queridos da cidade.