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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Casa Godinho (Centro - São Paulo)


O paulistano é um sujeito muito mal acostumado. Ele estuda nas melhores universidades, veste roupas das melhores grifes européias, anda de carro importado e, principalmente, come pratos elaborados pelos mais cultuados chefs de cozinha do país.
E quando o assunto se refere aos queijos, pastas, vinhos, cervejas e petiscos que abastecem sua geladeira e despensa, o nível de exigência passa dos limites. Para sobreviver nesse ramo de comércio é preciso ser bom, muito bom. Para ser referência no assunto durante 123 anos é preciso mais que isso. É preciso ser excelente.

Corria o ano de 1888. Jack Estripador apavorava a Inglaterra enquanto no Brasil as notícias boas se sucediam. No Rio, a princesa Isabel assinava a Lei que punha fim à maior vergonha de nossa história. Perto dali (será que para comemorar?), o suíço Joseph Villiger criava a Brahma. Em São Paulo, iniciava-se a construção do Viaduto do Chá. A poucos metros dele, o português José Maria Godinho inaugurava, com seu nome, a melhor casa de secos e molhados da cidade.

A Casa Godinho foi fundada na Praça da Sé – coração de uma cidade emergente que contava então com 50 mil habitantes – com o intuito de atender um público já carente de produtos de qualidade, e lá permaneceu até 1924, quando, com a inauguração do primeiro arranha-céu da cidade – o edifício Sampaio Moreira – mudou-se para lá, onde permanece, firme, forte e lotada, até hoje.

Os donos, é claro, mudaram um pouco. De José Maria, a casa passou aos portugueses Luís Gonçalves da Costa e Casemiro Soares Leite, que mantiveram as características originais e a selecionada clientela, da qual sempre fizeram parte os principais nomes da sociedade paulistana, como o governador Adhemar de Barros, o presidente Jânio Quadros, o empresário José Ermírio de Moraes e o magnata da imprensa Assis Chateaubriand.

Deste último, o jornalista Fernando Morais conta um calote histórico em seu livro “Chatô, o rei do Brasil”. Diz ele que o escritor Rubem Braga foi escalado por Chateaubriand para fazer uma série de reportagens sobre um condomínio pertencente ao dono da Casa Godinho na época. O que o velho Braga não sabia é que tais reportagens eram a paga de uma aventura na qual o empresário encostou um caminhão do jornal na porta da loja, mandou encher de caixas de champagne e entregar na casa de uma mulher. E não pagou.

O problema foi que, mesmo com a casa mantendo-se fiel a seus princípios de qualidade, a cidade mudou, e o outrora luxuoso centro paulistano entrou em declínio, tornando-se degradado e espantou sua clientela para novos bairros emergentes.

Os produtos importados passaram a ser procurados longe dali e a loja passou a precisar de mais fôlego e investimentos. Foi assim que, pouco depois do centenário da casa, Miguel Romano tornou-se sócio.

Romano é engenheiro químico e cresceu dentro da casa lotérica de seu pai, Giuseppe, que ficava a poucos metros da Godinho. Depois de adulto chegou a arriscar-se em alguns projetos na área da gastronomia, mas seu sonho sempre apontava para aquele empório.

A sociedade, que incluía então 4 pessoas, começou a ruir com a crise que só fazia crescer, até que em 2000 restavam apenas Miguel e Casemiro. A proximidade da falência era tamanha que Miguel quis vender sua parte, mas Casemiro ofereceu um valor tão baixo que ele devolveu a proposta, oferecendo o mesmo valor pela parte do sócio. Casemiro aceitou.

Único dono então de todas as maravilhas da loja, mas também de todos os problemas que a cercavam naquele momento, Miguel Romano sabia que era preciso inovar. Mas como mudar uma casa que mantém o mesmo piso e as mesmas prateleiras e balcões de imbuia intactos há mais de um século, e cujo maior apelo é justamente sua tradição?

Foi então que ele montou ali dentro, em 2001, uma pequena rotisseria, com um balcão de vidro cuidadosamente elaborado para não contrastar com os ares clássicos da loja. Nessa estilosa vitrine surgiram, de uma hora para outra, pães diversos, doces e, principalmente, as melhores empadinhas de São Paulo.



A empada da Godinho é difícil de descrever, mas vou tentar. Ela é feita com a verdadeira massa podre, daquelas que desmancham na boca, e não no colo da gente. O recheio de várias delas inclui molho bechamel, o que o mantém mole e cremoso. As mais pedidas, até para seguir a tradição da casa, são as de bacalhau, mas tem de camarão, de frango, de palmito, de lingüiça Blumenau e até de alheira portuguesa. Nova sensação da casa, ela é responsável direta pela agitação que toma a casa na hora do almoço e nos finais de tarde.

Hoje a Casa Godinho revive seus melhores dias, mas como em time que está ganhando também se mexe e se aprimora, Miguel Romano presenteou a cidade com mais algumas novidades.

Primeiro, para proporcionar aos clientes mais uma viagem no tempo, instalou na loja um antigo relógio de estação e um vitral feito pelo jovem vitralista Fábio Fonseca, responsável pela restauração dos vitrais do Colégio de São Bento. Uma ótima combinação para um prédio que acaba de ser tombado e cujo próximo morador, além apenas da Godinho, será a Secretaria Municipal de Cultura.

Depois, inaugurou a banca Godinho dentro do Mercado Municipal, levando suas maravilhas a um público cada vez maior e mais exigente. Porém, a banca do Mercado oferece apenas a parte de rotisserie. É na velha loja da Líbero Badaró que você encontrará as grandes e tradicionais atrações da casa.


Se você tem uma família grande, aproveite para fazer uma pesquisa entre todas as gerações. Pergunte à sua irmã, ao seu pai, à sua avó, bisavô e tataravô, qual o melhor lugar da cidade para encontrar um mar de frutas secas, conservas de todos os tipos, alheiras, queijos inimagináveis, embutidos pra lá de diferenciados (como o presunto Pata Negra, que custa 400 reais o quilo), torta seca de amêndoas e tâmaras, compota mineira de manga, extrato de raiz forte e, principalmente, o legítimo bacalhau norueguês Cód Gadus Morhua, (cujas vendas são de aproximadamente 12 toneladas por ano). É provável que todos respondam a mesma coisa: na Casa Godinho.



Casa Godinho – Rua Líbero Badaró, 340. Tel: 3104-1520. Horário: Segunda a Sexta das 7h às 19h e Sábado das 8h às 14h.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Pastel da Maria (Pinheiros – São Paulo)



Olha o pastel! Quem vai querer? Carne, queijo, pizza, calabresa, frango, bauru, quatro queijos, palmito, escarola e camarão! Olha o pastel!

Não, esse chamado tão típico das feiras livres nunca aconteceu. Não na barraca do pastel. Ela é a única barraca de qualquer uma das 900 feiras semanais da cidade que não precisa anunciar seu produto. Todo mundo o conhece. Todo mundo gosta.

Paulistano adora pastel de feira. Por isso já adotou o termo “pastel de feira” como sinônimo de um salgado simples mas especial, acessível, saboroso, com tamanho acima da média e bastante recheio.
Paulistano adora pastel de feira. Tanto que a cidade consome cerca de 9 milhões de pastéis por mês, divididos em uma variedade criativa que chega a envolver centenas de recheios diferentes.
Paulistano adora pastel de feira. A ponto de a prefeitura realizar um concurso anual, cercado de regras e expectativas, para eleger o melhor pastel de feira da cidade.

Esse concurso conta com o voto popular e com a análise de um júri formado por grandes chefs. Ele avalia, além da qualidade da massa e do recheio, detalhes como a higiene da barraca, o uniforme dos funcionários, o asseio na manipulação da comida, o ponto do óleo etc.
E foi exatamente este concurso que, em 2009, elegeu, entre 731 candidatos, o Pastel da Maria, como o melhor de São Paulo. E agora, em 2011, lhe deu o título pela segunda vez.

Maria é Maria Kuniko Yonaha, japonesa que vive em São Paulo desde os 11 anos de idade, quando começou a trabalhar com pastéis na barraca de seus pais, da qual tornou-se dona nos anos 70. Por mais de quarenta anos veio aperfeiçoando cada detalhe de seu negócio, consagrado antes mesmo do concurso pelo público fiel que freqüenta as feiras em Perdizes e Santana (às quartas), no Parque Novo Mundo (aos sábados), na Mooca (aos domingos) e no Pacaembu (terças e quintas).

Como é típico da cultura japonesa, Maria aproveitou o reconhecimento de seu trabalho para investir em mais trabalho. E montou, em parceria com sua filha Érika e o genro Marcos Matsumoto, uma pastelaria com ponto fixo, que fica em uma loja, e não numa barraca itinerante.
A novidade traz uma série de vantagens. As primeiras a chamar a atenção são o atendimento rápido e eficiente – comum nas feiras, mas não em lanchonetes – e a impecável limpeza do local – uma verdadeira obsessão dos funcionários, impossível de se conseguir nas ruas e tão incomum em outras pastelarias por aí.

É fácil observar os tais “pequenos detalhes que fazem uma enorme diferença” para outras casas do ramo, como a réplica da barraca da Maria, onde funciona a cozinha (com tudo preparado na frente dos clientes), a decoração com luminárias em vermelho e branco, a potente coifa que evita que a fumaça vá para o salão, os caprichados aventais dos atendentes, o diferente molho que leva salsinha como ingrediente principal, o conforto das mesinhas etc.

Há ainda outras duas vantagens, que são as que mais me chamam a atenção: Primeiro: o caldo de cana, que forma a dupla perfeita com o pastel, já está ali e, portanto, não é preciso ficar perambulando entre uma barraca e outra com um copo em uma mão e um pastel em outra. Segundo: o horário vai até à noitinha e só fecha no domingo, o que possibilita que você não tenha que escapar do serviço ou ter que acordar mais cedo no sábado para conseguir o seu pastel.

Pois é, não falei do pastel. E precisa? Se paulistano adora pastel de feira e o da Maria é o melhor pastel de feira de São Paulo, acho que ele dispensa maiores detalhes. Fique sabendo então que, além de todas as vantagens que falei, na loja ele é montado na hora e é um pouquinho mais “caprichado” que na feira. Precisa mais?

Pastel da Maria Rua Fradique Coutinho, 580 – Pinheiros. Tel: 2373-7071 

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Bar do Luiz Fernandes (Mandaqui / SP)



Quando eu ouvia falar do Bracarense, no Rio de Janeiro, mas ainda não o conhecia, uma coisa não entrava na minha cabeça: como é que numa cidade que pode ser considerada a capital mundial dos botecos, um bar tão pequeno e simples pode conquistar uma legião de adoradores que se aglomeram diariamente à sua porta, sentados em banquinhos, em suas próprias cadeiras de praia ou mesmo em pé, em uma busca apaixonada por seu chopp e seus petiscos?

A resposta que só eu não conhecia é: tudo ali é muito pessoal e informal, atencioso, com bons preços, deliciosos petiscos e tudo de primeiríssima qualidade.
Não sei se a referência é a ideal, mas foi a que me veio à memória (e o pior é que vem com cheiros e gostos) quando comecei a pensar sobre o Bar do Luiz Fernandes, a simpática casa da Zona Norte, desconhecida pela maioria dos paulistanos, mas simplesmente idolatrada por seus frequentadores.
O bar surgiu em 1970, da falência da mercearia da família, sufocada pelos supermercados que chegavam à região e da perspicácia do Sr. Luiz,  que viu ali uma oportunidade e transformou a mercearia em um boteco.

E criou “o” Boteco. Não desses que topamos hoje em todos os cantos, sem personalidade e que imitam os botequins de antigamente, e sim daqueles com banquetas de plástico, mesas de lata, garçons simpáticos, cerveja sempre geladíssima, petiscos gostosos e muita, muita história para contar.
Desde sempre comandado pelo próprio Sr. Luiz Fernandes, o bar se chamava, até 2003, Bar do Luiz, quando resolveu acrescentar o sobrenome para não ser confundido com o mais que centenário carioca Bar Luiz. Sempre ao lado dele, Dona Idalina, sua fiel escudeira, é ainda a responsável pela cozinha e suas maravilhas. À frente, transbordando simpatia e recebendo cada cliente como se fosse um amigo de infância, o filho Luiz Eduardo.
Tudo isso numa casinha pequena que foi se espalhando pela simpática rua, primeiro numa reforma que adaptou a garagem ao lado integrando-a jeitosamente à casa e depois na hora que o comércio fecha as portas e suas mesas avançam até o estacionamento das lojas vizinhas. E ainda assim os garçons seguem se esforçando para fazer caber todo mundo, como num coração de mãe. E “salta cerveja estupidamente gelada prum batalhão”.

E batidas. O bar faz dezenove diferentes. Dizem que as preferidas são a de amendoim com licor de cacau e a de morango com vinho, patrimônios sagrados do boteco, feitas pessoalmente pelo Sr. Luiz e exibidas pelas prateleiras acondicionadas em garrafas antigas de leite Paulista.
E caipirinhas! Elas também são preparadas pelo anfitrião em opções diversas como a “Verde e Amarela” (limão e maracujá), a “Velha Guarda” (de limão galego), a “Clássica” (de limão Taiti e lima da Pérsia) e outras como morango, carambola, uva, ameixa, goiaba etc.

Chegamos então ao balcão. Verdadeira instituição botequeira que é, a casa não poderia deixar de ter um balcão de acepipes, separados pela casa entre os “frios” (salames, queijos, salsichões, rosbifes, chouriços etc), os “leves” (pepinos, batatinhas, tomates, rabanetes, ovos de codorna, cogumelos e outros) e os “de peso” (moela, pé de porco, fígados de frango e de boi), curiosamente vendidos por porção ou por unidade, e não por peso.
Só que tudo isso que eu falei até agora são apenas mínimos detalhes, pois o ponto alto da casa é o chamado “petisco de boteco”: bolinhos, pastéis e afins – aquilo que por aí é conhecido como “baixa gastronomia”, mas que aqui pode até ser chamada de “alta gastronomia dentro de um bolinho”.

Um dos exemplos é a “Surpresa de Dona Idalina”, campeão do Boteco Bohemia 2006, concurso que escolhia o melhor petisco da cidade. Trata-se de um bolinho que leva berinjela, carne moída, mussarela, tomate seco e diversos outros ingredientes.
Em 2008, o bar ficou com o segundo lugar no mesmo concurso com o petisco “Delícia Portuguesa”, um bolinho de bacalhau servido de maneira primorosa, cortado ao meio, em uma forminha de cerâmica para ser molhado no azeite e no alho frito com pimenta rosa.

O concurso não existe mais, mas o bar não parou de criar opções. Uma delas é o “Bolinho Maravilha”, preparado com berinjela, lingüiça Blumenau, mussarela e pepino em conserva, sempre servido na companhia da mostarda escura holandesa.
Outra delícia é o “Quarentinha”, criado no ano passado em homenagem aos 40 anos do bar, que é feito com massa de batata, mussarela ralada, tomate seco, manjericão, miolo de alcachofra e aliche!
E quando você pensa que já é mais que suficiente, o Luiz Eduardo começa a descrever detalhadamente o “Brasileirinho”, feito com massa de mandioquinha e com um recheio que mistura o feijão e as carnes da feijoada com muitos temperos, e que ainda não está no cardápio, mas já é servido pela casa e é tão espetacular quanto os outros.

Tudo isso e mais algumas coisas que já devo estar esquecendo dão à sua legião de “fiéis” uma certeza: o Bar do Luiz Fernandes é muito mais que um dos melhores botecos de São Paulo. É uma extensão de suas casas, só que um barman melhor, uma cozinheira melhor e uma turma de amigos que nunca vai te deixar sozinho.

Bar do Luiz Fernandes – Rua Augusto Tolle, 610 – Mandaqui / SP. Tel: 2976-3556. Horário: Terça a Sexta das 15h às 0h, Sábado e Domingo das 11h30 às 18h30.




Como uma colher de chá para nossos leitores, segue abaixo a receita do “Quarentinha”, gentileza dos gentis proprietários:

Quarentinha 

Ingredientes para massa: 

1 kg de batata holandesa 
1 kg de farinha de trigo 
1 cebola grande 
4 dentes de alho 
1 tablete de caldo de galinha 
Sal 

Ingredientes para o recheio: 

Mussarela ralada 
Tomate seco picado e temperado 
Requeijão 
Folhinhas de manjericão 
Miolo de alcachofra 
Aliche dessalgada e temperada com :cebolinha, alho, pimenta dedo de moça e folhas de loro. 


Preparo da massa: 

Coloque em uma panela 2 litros de água, as batatas já descascadas, junto com os temperos (alho, sal e um pouco de pimenta do reino).
Deixe cozinhar ate o ponto do garfo entrar na batata com facilidade.
Após cozida as batatas transfira tudo que estava na panela e bata em um processador.
Após bater, em outra panela coloque 5 colheres de sopa de margarina, acrescente a massa e vai despejando devagar a farinha de trigo (não pode parar de mexer se não a massa empelota) até ficar bem homogenia.
O momento certo de parar de mexer é quando a massa solta com facilidade da panela. Em uma travessa espalhe a massa para esfriar.

Montagem da quarentinha: 

Pegue um pouco de massa, coloque na palma da mão, faça um formato côncavo, e acrescente os ingredientes: mussarela, requeijão, aliche, tomate seco, manjericão e um pouquinho de orégano.
Feche a massa, como se fosse uma trouxinha e depois vá moldando até ficar num formato oval.
Daí é só empanar, passar no ovo e na farinha de trigo.

Modo de fritar: 

De preferência em uma fritadeira elétrica a 150 graus.



A Festa dos 41 Anos

Em 2008, o Bar do Luiz Fernandes levou mais de mil pessoas à Festa da Saideira do Boteco Bohemia. Em 2009, com os ingressos limitados, vários dos melhores bares da cidade saíram do concurso, que deixou de existir.

Foi então que a “família Fernandes” resolveu criar sua própria folia e comemorou os 40 anos do bar em uma imensa festa na Casa das Caldeiras. 

E como a coisa toda deu mais que certo, a festa se repetirá no próximo dia 21/5, com a participação de Funk Como Le Gusta, Demônios da Garoa e muito mais.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Empanadas (Vila Madalena / São Paulo)



Comecemos 2011 com um clássico. Tá bom, tá bom... o Empanadas não é mais um lugarzinho propriamente dito. Mas ele é um dos grandes exemplos de um lugarzinho que virou um lugarzão, mas manteve todas as suas características de...lugarzinho.
O Empanadas nasceu “Martin Fierro” em 1980, da improvável sociedade entre um argentino, o Hugo, e um chileno, o Reinaldo. Coisas da Vila. O bar era um pequeno salão, com um balcão e algumas mesinhas de lata.
Este salão, que é hoje apenas uma parte do bar, continua lá e, exceto pelas mesas que agora são de madeira, ele é exatamente como era, com seus posters de filmes, o ônibus pintado a mão pelo Chocante e as fotos de novos e antigos freqüentadores.

Cult desde sempre, o bar logo atraiu os estudantes da USP, os jornalistas, os alternativos em geral e, principalmente, a turma do cinema, chegando a ter parcerias com a Tatu Filmes e a Filme Brasil, numa época em que na Madalena só haviam ele, o Sujinho e muita tranqüilidade.
É dessa época que vem a maioria dos posters e até um Kikito, ganho por Mario Mazzetti no festival de Gramado e que acabou indo morar na estante do bar, “para ficar exposto em lugar público”.

Destes longínquos tempos trago lembranças tão doidas que chego a pensar que joguei fora as memórias e guardei as alucinações.
Uma delas é de que sempre que eu queria encontrar o Erick e o Morto, numa época em que os celulares não existiam (nossa! Estou ficando velho!), ligava primeiro para o Empanadas e só depois para as casas deles.
Outra delas é do Glauco, saudoso “pai” do Geraldão, assassinado há 10 meses. No final dos 80 / início dos 90 ele vivia por ali, tomando cerveja, rodeado de amigos e usando o bar como inspiração para muitos de seus personagens.
E ainda outra, inesquecível, ocorreu no dia do impeachment do até então presidente Collor, quando o bar, lotado, acompanhou voto a voto a decisão pela TV. E a multidão, emocionada e de mãos dadas, chorou e cantou junto o Hino Nacional! A comoção foi tamanha que cada um dos presentes ganhou uma cerveja por conta da casa.

Foi também mais ou menos nessa época que o bar mudou de mãos, sendo assumido por quatro funcionários da casa: o Robson, o Léo, o Rafael e o Santos, e de nome, passando a se chamar oficialmente “Empanadas Bar”, como já era conhecido por todo mundo, mesmo.
Aí o que era bom ficou melhor. De lá pra cá o bar só fez crescer em fama e em tamanho, engolindo a assistência técnica e a farmácia que ficavam ao lado e ganhando espaço para a clientela que já não cabia em suas mesas.

Acostumados com o trabalho da casa e com o contato com o público, os quatro sócios tornaram-se muito mais do que donos de bar. Tornaram-se amigos próximos tanto dos garçons quanto dos clientes.
O clima familiar entre os funcionários é tão grande que, além de muitos deles serem mesmo irmãos, vários resolveram ser pais quase ao mesmo tempo, formando uma legião de crianças que em dias mais festivos aparece por lá. E aos clientes mais chegados cabe sempre perguntar ao Messias, ao Ricardo, ao Dunga e ao Val como vão o Gustavo, a Giovana, a Lavínia e o Ravi. E por aí vai.

Faltou falar das empanadas propriamente ditas. São deliciosas. Tem de carne, frango, queijo, palmito, espinafre, calabresa, carne seca, Romeu e Julieta, Roquefort etc. São feitas do mesmo jeito há décadas, de um modo que a massa fica fina e macia sem estourar. Já tentamos fazer em casa e não deu certo. Já tentei descolar a receita, também sem sucesso.
Com o tempo aprendi que comer lá é muito melhor. Assim, dá para provar as bolachas de provolone e parabenizar o Dunga pela São Silvestre. Dá para curtir o estilo e o papo meio neohippie dos frequentadores e saber os detalhes da última ida do Robson a Pernambuco. Dá para experimentar as caipirinhas e “secar” o Corinthians do Messias.
O Empanadas é assim. Uma grande confraria. A Vila como ela era.
Empanadas - Rua Wisard 489 - Vila Madalena / São Paulo Tel: 3032-2116 - Funcionamento: Segunda a Sexta das 12h às 2h, Sábado das 13h às 3h e Domingo das 13h à 1h.


Como uma lembrança do Glauco, copio aqui uma história de Los 3 Amigos, feita com o Laerte e o Angeli, em que ele presta uma homenagem à Vila Madalena e ao próprio Empanadas:

 

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Bar do Toninho (Santos / SP)



De vez em quando dá saudade de Santos. E quando tento matá-la, as primeiras coisas que me vêm à cabeça são a praia, claro, o calor, que só agora voltou para Sampa e, curiosamente, o Bar do Toninho. 
E normalmente vem tudo junto, pois uma das coisas que mais gostávamos de fazer quando morávamos lá era ir à praia e ficar nela até a hora que a fome deixasse e depois parar para comer no Toninho. Então...
“Ainda bem que eu trouxe até meu guarda-sol. Tenho toda a tarde, tenho a vida inteira...” A música não sai da cabeça. Como não tenho pressa e a fome ainda não é tanta, dá tempo de passar em casa para tomar um banho e aí sim, ir para o bar pronto para passar algumas horas ali, já relaxado, de bermuda e chinelo, tomando cerveja, devorando bolinhos e pastéis, vendo o tranqüilo agito do bairro do Embaré e encontrando os conhecidos que passam o tempo todo para lá e para cá.

O “Toninho” é, de certo modo, o melhor lugar de Santos. Sei que choverá pedradas por causa disso, mas fazer o quê? É verdade. É o bar que a cidade inteira conhece e freqüenta, mesmo sem notar. Quase todo mundo fala mal, mas quase ninguém sai de lá. 
A equação é simples: boteco totalmente despojado, com mesas de plástico + garçons ágeis e amigos, que conhecem a maioria dos clientes pelo nome + bebidas sempre geladas + pastéis maravilhosos de carne, camarão, siri, queijo, palmito, carne-seca, bacalhau e sei lá mais quantos, um melhor que o outro e que praticamente não têm ar dentro, só massa e recheio. Meu preferido é o de camarão. Ou será o de carne?
Para começar, o Bar do Toninho é, de longe, o bar mais democrático que eu conheço. Tem o pessoal que chega cedinho para tomar café com leite e comer um pão com manteiga, tem a turma que passa de maiô e chinelo para comer uns pastéis na volta da praia, tem a turma do happy hour, os que chegam mais produzidos antes ou depois da balada, os que passam só para comer alguma coisa e ficam na paquera, as turmas de amigos, os turistas, os que vêm para assistir o jogo, etc.
Os jogos são um caso à parte. O Toninho, que é palmeirense e está sempre lá, tratou de espalhar uns periquitos pela decoração do bar. Quem também estão sempre lá são seus filhos, o Toni e o Jaime, que é são-paulino roxo. Como a grande maioria do público é santista e corinthiano deve existir até no céu (o inferno é lotado), o bar sempre se transforma em um estádio multicolorido, e dos mais animados e lotados.

Os garçons participam de tudo. O Paulo, santista, mal tem tempo de ver o que acontece enquanto grita os números das senhas na “loteria” por uma mesa para a multidão que aguarda lá fora. O Odair, flamenguista, seca todos os outros times ao mesmo tempo. 
E tantos outros, sempre simpáticos, atenciosos e “no espírito do bar”. Entre eles, bons amigos que sumiram por aí, como o Eliel,que foi trabalhar em algum lugar de São Vicente, o Beto, que há pouco tempo encontramos no “Viva Vinhos” e os gêmeos Crispim e Crispiniano, sósias do Robinho (serão trigêmeos?), que, ao que parece, montaram seu próprio bar no Guarujá.
A história do Toninho é das mais tradicionais e se confunde com tantas outras de descendentes de portugueses que, com muito trabalho, alcançaram o sucesso no comércio: Antonio Almeida Cardoso, o Toninho, trabalhou alguns anos no Lanches Praia, a menos de um quilômetro dali.

Quando seus colegas resolveram sair de lá para tocar o Carioca, um clássico da cidade, ele resolveu seguir seu próprio caminho, passando pelo Caracu e a Casa Calçada, até montar seu minúsculo boteco atrás da igreja do Embaré, em 1987.

O lugar, que ficava na passagem de muitos e na parada de poucos era pequeno, meio escuro, com apenas quatro ou cinco mesas e um único banheiro para homens e algumas corajosas mulheres. Porém, os bolinhos e os pastéis já eram os melhores da cidade, o que fazia com que muita gente, mesmo receosa, fosse conhecer o bar.

Mesmo reconhecendo que tudo no bar melhorou muito com o novo endereço, Toninho ainda se emociona ao lembrar do antigo ponto. “Não dá pra dizer que não sinto saudades. Significava muito para mim. Era o começo da realização de um sonho”, afirma.


Dessa época, quem conta histórias saborosas são a Piera e o Rubinho, amigos que também subiram a serra, mas que moravam na esquina, a uns 20 metros do bar, separados por um prédio e uma ruazinha.

Uma destas histórias fala de um “Banho da Dorotéia”, tradicionalíssimo evento da cidade que antecedia o Carnaval, no qual a cidade inteira se vestia de mulher e que, como tantas outras tradições santistas, a Prefeitura conseguiu acabar.

Ocorreu neste dia que um grande grupo de foliões resolveu se “concentrar” justamente no Toninho e, como tinha mais gente do que bar, o pessoal foi se espalhando. 

Cerveja vai, batidinha vem, mais gente chegando, menos bar sobrando e quando eles deram por si havia diversas “Dorotéias” no quintal e até mesmo dentro de casa, já enturmados e instalados pelos sofás. O jeito foi entrar no clima e curtir a festa.
Foi também neste período que surgiu o subtítulo “o Rei do Bolinho de Bacalhau”. Será? Admito que é o carro-chefe da casa, mas a substituição da alcunha por “Rei dos Pastéis”, para mim, seria muito justa. Tem muito pastel bom por aí, mas eu prefiro, sempre, os de lá.

Veio então 2001 e, com 14 anos de funcionamento e clientela formada, surgiu a oportunidade de ocupar o lugar de um antigo restaurante a dois quarteirões dali.
 O bar se mudou então para a esquina que ocupa hoje. E o sucesso foi automático e estrondoso. Do dia para a noite, o cruzamento da Epitácio Pessoa com a Oswaldo Cochrane se tornou o lugar mais agitado da cidade, abarrotado de gente de terça a domingo.  O barzinho de 4 mesas passou a ter 80 nos horários de maior movimento. As poucas dezenas de freqüentadores passaram a ser milhares.
Mas, o atendimento, os bolinhos, as caipirinhas, as porções, as cervejas e os pastéis permanecem exatamente os mesmos. “Então, deixe viver, deixe ficar, deixe estar como está”.

Bar do Toninho – Av. Epitácio Pessoa 241 – Santos/SP 
Tel (13) 3932-4818.
Horário: Terça a Domingo e feriados das 9h às 3h.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Frangó (Freguesia do Ó – São Paulo)



- Aquilo que é coxinha! – disse o Renato, tentando convencer o resto da turma, já devidamente instalada em um boteco do outro lado da cidade, a fechar a conta, levantar da mesa, entrar no carro e despencar até a Freguesia do Ó.
- Mas nós acabamos de chegar! E dá mais de 10 quilômetros até chegar lá...
- Vocês não entendem porque vocês não conhecem. Cada coxinha vale pelo menos 1 quilômetro... e a pé!
- Senta aí! Semana que vem nós vamos. Já deixamos combinado aqui. No dia de sempre, na hora de sempre, só que lá no tal do Frangão.
- É Frangó, com o ó da Freguesia!
- Tá bom, no Frangóóó.

Mas o Renato não desistiu. Estava com fome. Quase sonhando com as coxinhas e só falava nisso. Começou descrevendo o caminho:
- Depois que você sai da avenida e sobe a ruazinha, chega numa pracinha que parece cidadezinha do interior. É o largo da Matriz, uma graça, com a igreja no meio e tal. E quase sempre tem uns eventos meio estranhos, tipo quermesse e umas coisas assim. Nem parece São Paulo...
- Sei...
- A gente logo vê o bar porque sempre tem um monte de gente em volta, mas tem lugar. Parece que não, mas sempre tem, porque é um casarão do século 19 que parece um labirinto onde você sobe, desce, vira, anda e tem sempre mais uma salinha e um salão. Aí você senta e espera as coxinhas, que vem sempre no ponto, sequinhas, crocantes...
- Que saco! Pára com isso!
- Eu tô com fome...
- Pede alguma coisa pra comer!
- Será que eles entregam aqui? Duvido! – E de qualquer jeito, lá é melhor, por causa das cervejas. Eu já falei das cervejas? Eles não têm cardápio. Têm uma Bíblia de cervejas! De tudo quanto é canto. O legal é que tem uns pacotes de degustação, tipo você paga tanto e tem direito a tantas cervejas diferentes. Aí você pega uma da Bélgica, outra do Japão, uma holandesa...
- Eu vou dar uma na orelha dele!...

Foi nisso que chegou o Paulo, o último que estava faltando, atrasado, e que já tinha ido com o Renato pras bandas da Freguesia uns dois anos antes.
- Tô contando pra eles do Frangó – disse o Renato, dando a deixa para o Paulo continuar.
- Fui lá faz uns 10 dias – disse o Paulo – Tá muito caro! Fui tomando as cervejas, uma branca italiana, uma preta irlandesa, uma bock dinamarquesa, e quando vi estava duro!
- Você podia ter ficado nas nacionais...
- E quem resiste?
- Tá vendo? Decidido! Não vale a pena. É melhor ficarmos por aqui...
- Peraí! Quem disse que não vale a pena? Eu só disse que não dá pra ir todo dia porque, realmente, eles andam exagerando um pouco. Mas sempre que dá, eu volto. E tem as coxinhas...
- Droga! Você tinha que lembrar das coxinhas?
- Mas não dá para esquecer das coxinhas...
- Tudo bem, mas vocês só falam das malditas coxinhas! Não tem outra coisa pra comer lá?
- Sei lá. Deve ter. Tem uma lista enorme no cardápio, mas eu nunca li. A gente chega e pede as coxinhas. Depois, um ou outro pede o cardápio pra ver o que tem, olha daqui, olha de lá e pede mais coxinha. Eu nem olho...
- Chega! – disse o Renato – eu desisto. Vocês venceram. Tô passando mal. Vou embora para casa. Estou morrendo de fome e agora não consigo comer mais nada, muito menos coxinha, a não ser aquelas. Vou fazer um miojo, pedir uma pizza, conhecer novos amigos, mas aqui eu não fico.
- E se a gente fosse para outro lugar?

Todo mundo se olhou em silêncio. Pediram a conta. Levantaram e se amontoaram quietos no carro do Paulo. Meia hora depois estavam na Freguesia do Ó. Entraram ainda meio quietos. Todo mundo olhando para o Renato. Iam satisfazê-lo e ele ia ficar devendo essa para a turma. Ou então iam matá-lo.
Sumiram dentro do bar e, pelo visto, a coisa foi longe. O garçom não parava de buscar cerveja. Começaram nas nacionais para economizar, mas acabaram intercalando umas gringas entre elas. 
A última notícia que tive é que a conversa tinha esquentado de novo e que iam ficar só mais um pouquinho, pois tinham acabado de pedir mais coxinhas.

Frangó – Largo da Matriz de Nossa Senhora do Ó, 168, Freguesia do Ó, São Paulo - Tel: 3932-4818. 
Horário: Terça a Quinta das 11h à Oh, Sexta e Sábado das 11h às 1h30 e Domingo das 11h às 22h.


Receita da Coxinha


Meu conselho é que você vá até o bar, a menos que você seja realmente muito bom na cozinha. Do contrário, por mais que tente, não ficará igual. Mas vamos lá:


A receita é de Maria Brunhara Piccolo, mulher de Valdecyr e mãe de Cassio, sócios do boteco. Ao contrário da maioria das coxinhas, a do Frangó não leva ovo na hora de empanar. A massa, úmida, já adere à farinha de rosca. Com isso, o quitute fica dourado, crocante e sequinho.

INGREDIENTES:

Massa
900 ml de água filtrada
1/4 de xícara de óleo de soja
6 cubos (cerca de 60 g) de caldo de galinha
650 g de farinha de trigo especial

Recheio e acabamento
900 g de peito de frango cozido e finamente picado
1 cebola pequena bem picada
1/4 de xícara de salsinha bem picada
Sal e pimenta-do-reino
900 g de requeijão cremoso (catupiry)
500 g de farinha de rosca (para empanar)
1 litro de óleo (ou mais, se necessário, para fritar)

MODO DE PREPARO:

Massa
Numa panela grande, coloque a água junto com o óleo de soja e o caldo de galinha e leve ao fogo. Assim que ferver, sem desligar o fogo, vá colocando aos poucos a farinha de trigo peneirada, continuando a mexer até que a massa se solte do fundo da panela e esteja suficientemente cozida e lisa (cerca de dez minutos). Reserve e deixe esfriar só até que seja possível pegá-la com as mãos.

Recheio e acabamento
Tempere o frango picado com a cebola, a salsinha, o sal e a pimenta-do-reino a gosto. Pegue pequenas porções de massa (cerca de uma colher de sopa ou 30 gramas) e abra na palma da mão. Recheie com meia colher (sobremesa) de catupiry e uma colher (sobremesa) de peito de frango temperado. Feche a massa sobre o recheio e modele-a em formato de coxinha. Tente modelar a massa fininha, sem remendos, puxando o bico da coxinha e fechando bem para que ela não abra enquanto frita. Coloque a farinha de rosca numa tigela e passe por ela as coxinhas uma a uma. Numa panela funda, coloque o óleo e aqueça. Dependendo do tamanho da panela, junte mais óleo, de modo que as coxinhas fiquem submersas. Frite-as aos poucos, até estarem crocantes e douradas. Escorra bem e coloque-as sobre papel absorvente antes de servir.

Dica: para obter os 900 gramas de carne já cozida e limpa, calcule cerca de três peitos médios com osso e pele. Cozinhe em água salgada até ficarem macios. Tire os ossos e a pele e pique.