segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Estadão (Centro – São Paulo)



São duas e meia da manhã e o Estadão está lotado. Aos 42 anos de idade, até o balcão do bar já reconhece as pessoas que se aboletam diariamente sobre ele. Os funcionários identificam alguns, mas é tanta gente que passa por ali, que a rotina da casa nunca é igual.

Hoje, o jornalista Ivan já passou por ali. Ele vai constantemente ao Estadão para um lanche rápido. Esta tarde, milagrosamente as coisas estavam mais calmas na redação e ele pôde variar, pedindo um dos pratos feitos do cardápio.
A estudante Júlia também esteve por lá com os pais. Ela foi durante o dia, pois só tem 7 anos de idade. Apesar da preferência de sua mãe para que comesse um prato de comida – o que ela também gosta, sem dúvida – sempre luta bravamente pela oportunidade de um sanduíche de pernil.
O ator Paulo César gosta de cozinhar, mas hoje estava a fim de um sanduíche. Como costuma fazer quando essa vontade aparece, foi ao Estadão no começo da noite. Desta vez dispensou o pernil e escolheu um Beirute.

Erick não mora mais em São Paulo mas teve que vir à cidade para umas reuniões e aproveitou para relembrar o que chama de “o melhor lanche de pernil da face da Terra”.
Quem também anda longe dali é a jornalista Gilda, que lembra bem dos lanches de pernil de quando trabalhava no Jornal da Tarde. Ela não aparece por ali há um bom tempo, mas pensa em aproveitar uma de suas próximas visitas à cidade para matar a saudade.
Quem está ali agora é Diego, policial militar que trabalha em diversas regiões. Ele detesta quando é destacado para o centro da cidade, pois a rotina ali é sempre mais complicada. Porém, como hoje a noite ainda parece tranqüila, está aproveitando para devorar o picadinho do Estadão.
Quem está três cadeiras ao seu lado é Cíntia, que é prostituta e ganha a vida ali por perto, perambulando entre boates e motéis baratos da região. Ela ainda não sabe se voltará para casa ou para o trabalho quando sair dali, mas no momento só pensa no prato que está quase pronto e que pretende devorar sem a menor pressa e sem pensar em nada.

O guitarrista Ricardo acabou de chegar, pois tocou com sua banda a uns quarteirões dali e resolveu esticar um pouco para comer no Estadão. Ele gosta de tudo que tem no cardápio e principalmente do tamanho dos pratos, mas não troca a lasanha por nada.
O taxista Régis trabalha duas vezes por semana até de madrugada e agora está levando um passageiro até a Consolação. Como pretende que este seja o último da noite, vai seguir caminho até o Estadão, onde pretende devorar uma feijoada inteira, lá pelas três e meia da manhã.
A empresária Flávia está dando as últimas recomendações aos funcionários de sua boate antes de ir embora. Ela irá passar no Estadão com um grupo de amigos estrangeiros para lhes apresentar o famoso sanduíche de pernil e demonstrar as peculiaridades da noite paulistana.

Não sei se o cantor Fausto conhece o bar, mas deveria. Ele pouco vem a São Paulo, mas é fã do sanduíche de pernil do Cervantes, em Copacabana, no Rio, onde freqüenta. O lanche de lá vem com abacaxi, mas a fauna urbana que freqüenta o local é basicamente a mesma.
Os heróis intergalácticos Han Solo, Chewbacca e Luke Skywalker nunca passaram por aqui, mas quando vierem à Terra certamente irão ao Estadão, porque é o lugar mais parecido com a Chalmun’s Cantina que encontrarão nesse planeta.


Inaugurado em 1968, o Estadão Bar e Lanches representa uma improvável capacidade de resistência desde seu nascimento – ou existiria uma data pior para montar algo cujo nome homenageia o jornal O Estado de São Paulo (que ficava no prédio vizinho) e, subseqüentemente, toda a imprensa paulista?
Pioneiro no atendimento 24 horas, o bar foi assumido em 74 pelos irmãos Waldemar e Oswaldo Zonta e hoje é dirigido por seus parentes Carlos Alberto Pereira de Nóbrega e Cícero Tiezzi. Desde sempre é cheio e efervescente, acompanhando o ritmo da metrópole.
Ali você encontra o trivial variado informalmente servido no balcão, sucos naturais, saladas, petiscos, drinques, feijoada e, claro, o mais saboroso sanduíche de pernil de São Paulo.
O famoso "pernil do Estadão" é um lanche simples, sem firulas. Pão francês, várias fatias de pernil bem assado e molho com cebola, tomate e pimentão. O tamanho impressiona e as várias fatias de pernil deixam o pão francês no limite da sustentação.

Para se ter uma idéia da rotatividade, basta dizer que a casa tem apenas 42 cadeiras e, assim mesmo, são consumidos, além dos outros pratos diversos, cerca de 5 toneladas de pernil por mês! Sem dúvida, um recorde.
O Estadão deveria ser tombado pelo Patrimônio Histórico. Ponto de referência geográfica, cultuado na noite e sempre aberto, ele representa – como talvez nenhum outro – a São Paulo que nunca dorme e onde todos convivem em harmonia.

Estadão - Viaduto 9 de Julho, 193 - Centro / São Paulo Tel: 3257-7121 - Funcionamento: 24 horas. 

 



Provando que não se preocupa com qualquer concorrência, o Estadão oferece em seu site, para quem quiser, a receita de seu famoso sanduíche de pernil, cuja cópia segue abaixo. Ele é feito em uma proporção gigantesca, mas quem quiser arriscar uma quantidade melhor pode reduzir proporcionalmente os ingredientes:



Pernil do Estadão

Rendimento: 40 Sanduíches bem recheados

Ingredientes:

1 pernil de 9 a 10 Kg
Sal
Água para cobrir o fundo da assadeira

Modo de preparo do pernil:

Faça furos no pernil, atravessando a carne, e um acompanhando o osso, tempere com bastante sal e deixe curtir por no mínimo duas horas.Coloque em uma assadeira grande, apoiando a ponta do osso na quina da assadeira, despeje água em quantidade suficiente para cobrir com um dedo de água o fundo da assadeira e leve ao forno bem quente por três horas, colocando mais água sempre que necessário. Então vire o pernil e deixe por mais uma hora no forno sempre bem quente.
Ingredientes (tempero do molho):
½ litro de óleo
6 folhas de louro
½ cabeça de cebola
2 cabeças grandes de alho
1 colher (sopa) orégano
1 colhoer (sopa) sal
½ cenoura crua

Ingredientes (molho):

5 cebolas cortadas em meias fatias
8 tomates cortadas em meias fatias
2 pimentões verdes cortados em tirinhas
3 folhas de louro
2 colheres (sopa) orégano
2 colheres (sopa) colorau
E o tempero batido

Para o molho:
Bata os ingredientes do tempero no liquidificador, coloque em uma panela com outros ingredientes do molho e leve ao fogo por cinco minutos, só para murcharem. Fatie o pernil e monte os sanduíches,colocando o molho a gosto.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Chi Fu (Liberdade / São Paulo)



Entendeu? Então você está muito bem preparado para conhecer o Chi Fu. Mas mesmo que você não tenha entendido nada, não perca essa oportunidade. No fundo, pode ser até mais divertido.
No próximo final de semana, dias 29 e 30, será comemorado, no bairro da Liberdade, o Ano Novo Chinês. É o ano do Coelho que se aproxima e, segundo especialistas, costuma ser um ano calmo e propício a aventuras e projetos desafiadores.

Mas vamos ao que interessa: apreciando a festa ou não, indo neste final de semana ou em outra data qualquer, você precisa conhecer o Chi Fu, o restaurante chinês que fica quase em frente à praça da Liberdade e que também pode ser englobado em “aventuras e projetos desafiadores”
Fui parar lá por indicação do Lu e da Dé, que me descreveram o lugar como algo parecido com “Os Aventureiros do Bairro Proibido”, filme de John Carpenter em que os personagens principais vão parar em uma caricata Chinatown, enfrentando um mundo mágico e cheio de seres estranhos. É meio por aí.
O Chi Fu chama a atenção de todos por dois aspectos principais: a comida farta e deliciosa e a dificuldade de comunicação com os funcionários da casa.

Neste aspecto, dizem até que a coisa melhorou muito. Os que conheciam a casa há anos atrás contam que as garçonetes eram ranzinzas e desprovidas de qualquer boa vontade ou gentileza.
Isso mudou. As garçonetes (agora mais jovens e talvez, por isso, mais habituadas ao Brasil) tentam uma abordagem mais profissional e se esforçam para entender a língua.
O que não impede que a confusão seja constante. Como a maioria dos clientes ainda é de chineses, nem tudo no cardápio está em dois idiomas e as fotos, que ajudam um pouco, nem sempre são muito nítidas.
Também não dá para saber se o “gualaná” e o suco de “lalanja” foram anotados certo porque foram anotados em chinês!

Uma boa alternativa é ver o prato do vizinho e apontá-lo sem cerimônia para pedir um igual. E ver o prato do vizinho é fácil porque se a casa estiver cheia, provavelmente o vizinho estará na mesma mesa que você.  Ele e um monte de chineses, pois as mesas são todas imensas e devem ser divididas.
Se essa for a sua opção, é bom observar com cuidado, pois às vezes o próprio prato parece indecifrável e convém levar em conta o fato de que, em muitos lugares da China, qualquer coisa que ande, nade ou voe é comida.

Se você conseguiu superar todas essas etapas, seja bem-vindo ao reino dos céus, onde irá encontrar a outra característica a que me referi a alguns parágrafos acima: a comida.
O Chi Fu é um restaurante chinês autêntico, que engloba as características culinárias de diversas regiões da China, e não apenas os triviais que nos habituamos a ver nas franquias globalizadas que existem por aí.
O cardápio tem mais de 200 itens, com inúmeros pratos com camarão, ostra, porco, frango, siris, patos e por aí vai. Tudo nas mais diversas formas de preparo e múltiplos molhos e temperos diferentes. Note ainda que nem todos eles são bem explicados e muitos contém o mesmo ingrediente grafado de formas diferentes no cardápio. Nem tente entender por quê.

Mas se você gosta de experimentar pratos novos e deliciosos, este é o lugar certo. Coma sem susto. As porções são paquidérmicas e praticamente tudo é bom e barato.
Uma boa idéia é ir em turma. Em seis pessoas, dá para comer fartamente uns quatro pratos diferentes e aproveitar a curiosa sensação de sair do país sem sair da cidade.
Os pratos enormes, o cardápio em chinês, a garçonete que não te entende e as comidas que você nunca viu na vida reforçarão essa impressão. Não sei se você se sentirá na China, em Chinatown ou no Bairro Proibido. Mas certamente não se sentirá aqui.


Chi Fu - Praça Carlos Gomes, 200, Liberdade, São Paulo.
Tel: 3112-1698. Funcionamento: Segunda a Domingo das 11h às 16h e das 18h às 22h.




O poema que abre esta matéria e que qualquer chinês de dez anos de idade entende, é um poema da sacerdotisa taoísta Li Ye, escrito no século VIII d.c, durante a dinastia Tang. Sua tradução é a seguinte:

ADEUS EM UMA NOITE DE LUA
Separar em silêncio, e a lua resplende
sem rumor nem fala. O sentimento
irradia o adeus que falta, e à lua
cintilam nuvens, águas e cidades




Em tempo: Se, com tudo isso, você ainda quiser conhecer um pouco mais da cultura chinesa, aproveite a exposição Comunidade de Gostos: Arte Contemporânea Chinesa desde 2000, que inaugurou hoje e fica no MAC-USP até março, com pinturas, fotografias, instalações e vídeos da China do século 21.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Aniversário de São Paulo



Alguma coisa acontece no meu coração quando cruza a Wisard e a Mourato. É que, bem diferente de Caetano, foi por aquelas bandas que comecei a descobrir a São Paulo que tanto adoro.




Nasci em Sampa e cresci longe dela, mas sempre voltando. Voltando mensalmente desde pequeno para visitar amigos e parentes, voltando para estudar na mais paulista das avenidas e voltando para trabalhar no olho deste furacão.

Como quase todo mundo, amo e odeio essa cidade. Odeio o trânsito, o descaso com a violência, as dificuldades do dia a dia e, principalmente, a eterna falta de tempo.

De certo modo, tenho que concordar tanto com o Chico - "São Paulo é uma cidade que não deu certo" - quanto com Caetano - "vivemos na melhor cidade da América do Sul".




Inclinando-me mais para este lado, vejo que São Paulo tem tanta coisa boa, mas tanta mesmo, que resolvi montar uma lista. Para ela não ficar infinita, vou me ater apenas aos lugarzinhos especiais. E para não abusar da minha memória, peço a ajuda de todos para completá-la.


Segue, então, algumas coisas imperdíveis da cidade. Parabéns!


- Ver o pôr-do-sol na Praça Pôr-do-Sol;
- Panelinha de calabresa com gorgonzola do Astor;
- Andar a pé domingo de manhã na Vila Madalena;
- Tigelinha de siri com farofa de dendê do Filial;
- Ver jogo no Pacaembu;
- Comer pastel com caldo de cana na feira de sábado;
- Assistir shows na choperia do Sesc Pompéia;
- Engibaiado de pastéis do Giba;
- Visitar sempre o acervo impressionista do Masp;
- Caipirinha de Kiwi do Filial (Izabel);
- Comer empanadas no Empanadas (Izabel);
- Tomar café da manhã no St. Etienne (Izabel);
- Cachaças e cervejas do Biu (André);
- Andar de skate na Paulista (Ricardo);
- Coxinhas do Frangó (Ricardo);
- Caldinho de feijão do Genésio (Ricardo);
- Comprar discos na FNAC (Ricardo);
- Galeto do Salve Jorge (Ricardo);
- Comidas nordestinas do Biu (Rodrigo);



quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Bar do Giba (Moema – São Paulo)



Um raro e genuíno boteco, em meio aos incontáveis bares chiques da região. Uma agradável mistura de bar arrumadinho com mercearia dos séculos passados, cuja estampa ainda aparece nos espelhos próximos ao teto.
Mais do que um bar, uma homenagem à santa trindade brasileira – futebol, samba e cerveja – em um dos bairros mais alemães de São Paulo.

Assim é o bar do Giba, há 24 anos muito bem-vividos na esquina da Moaci com a Anapurus, na parte indígena de Moema, alguns palmos abaixo dos aviões que pousam em Congonhas.
Giba é Gilberto Abrão Turibus, ex-bancário, profundo conhecedor do samba e presença constante no Carnaval, especialmente nos blocos de rua. Essa paixão é facilmente percebida por quem chega ao bar, impossível que é não notar as grandes bandeiras da Portela e da União da Ilha, além de outras alegorias diversas.

Outra paixão facilmente notável do Giba é o Santos Futebol Clube. As paredes do boteco são forradas de fotos, reportagens e lembranças do glorioso alvinegro, incluindo aí uma camisa da seleção brasileira autografada por Pelé.
O espaço que sobra (quando sobra) nas paredes é preenchido por garrafas de crush, latas de azeite e uma espécie de “kit proteção”, que inclui uma estátua de São Jorge, um vaso com espada de São Jorge, cachos de cebola, alho e pimenta.

A casa não serve chopp, só cerveja em garrafas estupidamente geladas, além de todas as bebidas tradicionais e colossais caipirinhas que saem sem parar rumo às animadas mesinhas internas ou da calçada.

Mas onde o Giba “mata a pau”, mesmo, é na cozinha, que está no nível das mais cultuadas da cidade e apresenta petiscos realmente maravilhosos, como a porção de carne seca com mandioca na manteiga ou o caldinho de feijão com torresmo, de fazer sorrir os paladares mais exigentes.
O campeão da casa, entretanto, como a clientela não deixa dúvidas, é o “engibaiado de pastéis”, uma porção com doze pastéis – 3 de carne, 3 de queijo, 3 de palmito e 3 de camarão – todos tão bons que levaram o escritor, sambista e craque botequeiro carioca Moacyr Luz a homenageá-los em uma de suas composições.

Mas atenção: a casa não tem cardápio e não aceita cartões de crédito ou débito. Para conhecer as opções basta olhar nas lousas espalhadas pelos quatro cantos, mas para saber os preços é preciso sempre perguntar aos garçons, que são simpáticos, atenciosos e habituados ao fato. Este costume dá um certo charme ao bar, mas traz uma surpresa na hora de pagar a conta: não é barato.
Portanto, vá prevenido. Mas vá. É um dos melhores bares da cidade.

Bar do Giba – Av. Moaci, 574 – Moema – São Paulo.
Funcionamento: Segunda a Sexta das 17h30 à 1h e Sábado das 13h à 1h.




Na música “Delírio da Baixa Gastronomia”, do disco “Batucando”, Moacyr Luz faz uma homenagem a alguns de seus bares preferidos – “bares de respeito”, na suas palavras. São citados alguns clássicos do Rio e (surpreendentemente, em um samba carioca) dois bares paulistanos – o Pirajá e o Bar do Giba: 




domingo, 16 de janeiro de 2011

Bar do Museu (República – São Paulo)



"É uma necessidade conversar com os poetas. E se os poetas morrerem, provocarei os mortos, as flores do mal que estão na minha estante”. (Pagu)

É hora de respirar, comer e beber arte no Lugarzinho. E de conhecer um dos pequenos tesouros escondidos na cidade de São Paulo: o Bar do Museu, sede da Associação de Amigos do Museu de Arte Moderna (AAMAM), que fica em um dos lugares mais movimentados da cidade e mesmo assim, creio eu, mais de 90% da população nunca ouviu falar.
A história começa nos anos 40, quando o empresário e mecenas das artes Ciccillo Matarazzo instalou, no prédio dos Diários Associados, na rua 7 de abril, o que viria a ser a primeira sede do Museu de Arte Moderna de São Paulo.
Criou-se também, ali, uma associação de amigos do museu, que contava com empreendedores como Iolanda Penteado e Assis Chateaubriand e criadores como Tarsila do Amaral, Vitor Brecheret, Oscar Niemayer e Alfredo Volpi.
E como o espaço era utilizado para reuniões e debates entre os membros do “clubinho”, o que melhor do que criar um bar ali dentro?

Cabe lembrar que quando o Bar do Museu foi aberto, o centro era o lugar onde tudo acontecia. Quase todos os associados moravam na área ou mantinham seus negócios estabelecidos pela região. E com isso, mesmo depois da instalação do MAM no Parque do Ibirapuera, em 1958, o Bar do Museu continuou sendo o ponto de encontro de seus freqüentadores.
A nova sede foi adquirida em 1978, na sobreloja do edifício Conde Sílvio Penteado, onde funciona até hoje, tendo acesso pelas avenidas Ipiranga e São Luiz.
Antes de entrar no prédio, vale a pena parar, olhar em volta, olhar para cima e notar onde você se encontra. Em um único ângulo, você percebe que está próximo aos prédios neoclássicos da avenida São Luiz, atrás do Edifício Itália e ao lado do Copan – todos famosos representantes da história, da arquitetura e da paisagem da cidade.

Depois entre. E entre no clima totalmente noir do lugar, como se entrasse em um filme francês dos anos 50 ou 60. O bar é repleto de poltronas, sofás, mesas de bar e outras muito diferentes, com tapetes e carpetes, como se fosse uma residência finamente decorada no estilo da época.
E então você se depara com o que deve ser a atração principal do lugar: os quadros. As paredes do bar são completamente preenchidas com quadros, fotos e gravuras originais dos maiores nomes da arte moderna brasileira.
Estão lá Volpi, Aldemir Martins, Clóvis Graciano, Maria Leontina, Heitor dos Prazeres e muitos outros. E alguns com dedicatória e tudo. Exposto em um dos cantos da casa, vê-se também o violão autografado de Silvio Caldas, antigo freqüentador.

O Bar do Museu é diferente dos bares comuns. Ali, além de beber e conversar, como em qualquer outro da cidade, as pessoas também vão se encontrar com artistas e amantes das artes nas mesmas mesas por onde passaram personalidades como o pintor Di Cavalcanti, a escritora Ligia Fagundes Telles e políticos como Ulysses Guimarães e Jânio Quadros.
É necessário destacar a figura de Clarice Berto, atual presidente da associação. Amante das artes, amiga de diversos artistas, é ela quem batalha para manter vivo o espírito do lugar e trazer para o hoje o espírito boêmio e combativo que o bar tinha em seus primórdios, realizando uma série de exposições, noites de autógrafos, comemorações e homenagens a personalidades da cidade.
Na luta para que novos freqüentadores não deixem morrer a sua essência, ela luta ainda com as dificuldades dos horários impostos pelo prédio comercial onde fica o bar, e que impede sua abertura na madrugada ou nos finais de semana.

Apesar da boa variedade e preços das bebidas, o bar oferece poucas opções de petiscos, limitando-se a alguns tipos de frios e amendoins. 
Mas isso não é nem nunca foi problema. A intenção de todos ali é que as boas e saudáveis conversas sejam acompanhadas de ótimos drinks e do nostálgico e cultural ar que emana do Bar do Museu. Afinal, a gente não quer só comida. A gente quer bebida, diversão e arte!



Bar do Museu - Avenida Ipiranga, 318/324,bloco C, sobreloja (acesso também pela Avenida São Luis, 140), Centro, São Paulo. Tel. 3259-0157.
Funcionamento: Segunda a Sexta das 18h à 0h.
Obs: só é permitido entrar no prédio até as 21h.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Celeiro Pouso e Rango (Cunha/SP)



Você pega a estradinha de asfalto em direção às cachoeiras por mais ou menos 1km, passa a ponte e vira à esquerda na estrada de terra. Aí segue contornando a cerca de cedro e vai em frente. Sobe, desce, vira para um lado, depois para outro e sai no asfalto de novo. Aí sobe, sobe, sobe e volta para a terra. Vira de novo, depois mais uma e sobe. Mais asfalto e mais terra. Quando você chega lá no alto, além da paisagem espetacular, você avista uma casa avermelhada. É lá.

Por que é que eu continuo fazendo esse caminho todo tantas e tantas vezes? Pelo bar, pela paisagem, pela caipirinha, pela coalhada seca, pelo bilhar, pelo passeio e pelo Gutto.
Gutto Ferreira é um cara querido por todo mundo. Já foi jogador de vôlei, modelo, peão de boiadeiro e dançarino pelo mundo inteiro.
Dessas andanças, herdou a paixão pela liberdade, pela natureza e pelos animais. Tanto que em meados dos 90, contrariando a lógica de quase todos, trocou tudo isso para adquirir umas terras pra lá de escondidas, a 25 km de Cunha, que já não fica perto de muita coisa.

Em um resumo rápido, criou animais e cultivou alimentos nessa terra, arrendou outra ao lado, transformou-a em pousada e deixou-a por outra, mais próxima, onde pôde finalmente instalar seu projeto do que viria a ser, em 2006, o Celeiro.


O Celeiro é uma casa ampla e envidraçada no alto de uma montanha que fica entre dezenas de outras montanhas. Abriga um bar/restaurante embaixo, a casa do Gutto em cima e, de uns meses para cá, três chalés para hóspedes.
Seus vizinhos mais próximos são alguns sítios a cerca de 1 km dali. Os únicos sons que se ouve são alguns relinchares dos cavalos, mugidos da vizinhança, esporádicos latidos do Nando e as músicas que o Gutto põe pra rolar, no volume que bem entender.
Dentro da casa, algumas mesas, sofás, o balcão do bar e uma mesa de bilhar. Do lado de fora, mais sofás e muitas redes. Na decoração, só peças de muito bom gosto, com destaque para os quadros de dona Agair e as esculturas do Luciano, um dos melhores artistas da cidade.

De dentro da cozinha saem picanha, salmão, macarrão etc, mas a especialidade é o arroz de comitiva, aprendido nas longas tocadas de boiadas e amplamente aperfeiçoado com o acréscimo de vários ingredientes, o que o torna uma espécie de paella caipira.
Confesso que costumo ficar nos petiscos como o frango (caipira, é claro) à passarinho e na incrível coalhada seca que, sei lá por quê, é a melhor que conheço. E tudo servido com um capricho decorativo que impressiona.
O mesmo acontece com a caipirinha de limão cravo com manjericão. Pode ser o açúcar na medida certa, as folhas do manjericão ou até o gelo, mas eu acho que o segredo está no tipo do limão que nasce lá (o Gutto diz que está no jeito de chacoalhar o copo!). O fato é que ela é irresistível.

O termo slow food usado no site explica pouco. É só um toque para você apreciar a comida sem pressa. Mas, mais que isso, é um jeito sutil de avisar que você não vai sair de lá tão cedo, porque aos poucos a casa vai ficando mais cheia e animada.
É ainda um conselho para você tirar o pé do acelerador. Afinal, está com pressa de quê? Escolha uma rede e espere pelo pôr-do-sol. O hoje, ali, deve ser saboreado com toda a tranqüilidade e complacência possíveis.

Uma coisa bacana é que ali você acaba fazendo de tudo um pouco e ao mesmo tempo. Como a maioria dos clientes são amigos e o clima da casa deixa todo mundo à vontade, as turmas se misturam naturalmente e cada hora você está num lugar.
Assim, primeiro você se senta em uma mesa qualquer com seu grupo de amigos. Depois alguém te chama para mostrar alguma coisa nos livros no canto dos sofás. Em seguida você vai até o balcão pedir outra caipirinha e fica “de prosa” com o Gutto. O papo é interrompido para jogar bilhar com alguém que você acabou de conhecer. E por aí vai...
E há ainda uma proposta indecentemente convidativa que é feita a todos uma vez por mês: uma cavalgada na lua cheia, que sai do Celeiro no finzinho da tarde rumo às montanhas, vê a lua nascendo, visita algumas cachoeiras sob o claríssimo céu de Cunha e volta para o jantar.

O Celeiro é, portanto, um lugar aonde você vai e fica. Um lugar de boa comida, boa bebida, boa diversão e muito sossego. Um lugar para encontrar e fazer amigos.
Lembra daquela estradinha do começo da história? Ela pode parecer longa, mas em Cunha tudo é questão de uns 10 minutos. E ela sempre parece mais triste e curta na hora de ir embora.

Celeiro Pouso e Rango – Estrada do Macuco km 4        
Cunha /SP - Tels (12) 3111-1481 / 9741-0724 http://www.celeirodogutto.com.br/ Horário: Sábados, Domingos e Feriados das 11h ao fim da tarde.
Dicas importantes: É melhor ligar antes para ver se está aberto. Se for perguntar o caminho, não pergunte pelo endereço (em Cunha isso é quase inútil), mas sim pelo Celeiro do Gutto, que todo mundo conhece.




A música do vídeo abaixo tem uma história, que se passa na Inglaterra, nos idos de 1967:

Um grupo de pessoas comentava no centro da cidade sobre a “tolice” de um rapaz que vivia isolado em uma colina, longe das pessoas e das coisas da cidade.

Ao ouvir o comentário, quatro rapazes geniais de Liverpool responderam musicalmente que o homem da montanha nunca lhes daria ouvidos, pois ele sabe quem são, na verdade, “os tolos”, pois para ele, onde vive, pode ver as belezas da vida, assistir o pôr-do-sol todos os dias e observar cada volta que o mundo dá.


quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A Bodega (Santo Antonio do Pinhal / SP)



A primeira visão é assustadora: você entra no galpão e dá de cara com dois enormes balcões contendo 50 galões de vidro, cada um com mais de 40 litros de cachaça, um diferente do outro, quase todos com alguma fruta, planta, semente ou seja lá o que for dentro.
Assim que você assimila o golpe visual, os funcionários te apontam uma bandeja de copinhos para que você pegue um e prove tudo que você quiser – ou conseguir. E a menos que você seja um abstêmio muito, mas muito convicto, você provará algumas.

A culpa – ou os méritos – de tudo isso é do simpatissíssimo Sr. Ernesto Ferrari, que há tempos atrás resolveu montar em suas terras um local que fosse agradável, que produzisse algumas bebidas e que todos pudessem usufruir como um passeio especial.
Sua idéia inicial era produzir vinhos, mas, ao percorrer incontáveis feiras e eventos, colher informações das fontes mais diversas e conhecer pessoalmente centenas de produtores, inclinou-se para o lado das pingas.
A produção teve início no começo da década, quando uma carreta vinda do Rio Grande do Sul descarregou dezenas de tonéis de carvalho na Fazenda Velha, possibilitando o devido armazenamento da pinga em escala comercial.

O Sr. Ernesto nos ensina que a cachaça dele é destilada durante os meses de agosto e novembro, por ser a melhor época para o corte da cana devido ao teor de açúcar adquirido nos meses de pouca chuva. Depois, ela é colocada em tonéis de amendoim para descanso de no mínimo 6 meses para só então ir para os tonéis de carvalho, onde passa mais 18 meses para adquirir seu gosto amadeirado.
Todas essas etapas superadas, A Bodega foi inaugurada em 2003 e essa cachaça pura é, desde a inauguração, a mais vendida. Porém, de conversas com amigos e freqüentadores, a casa começou a produzir algumas misturas em galões de vidro. A primeira foi com cambuci, mas logo vieram a tangerina, a amora e muitas outras, que formam hoje 50 tipos diferentes.

Entre essas, a mais procurada é a de figo que, doce e verde, chama a atenção entre as demais. A preferida do Sr. Ernesto é a de nêspera. A minha... fica difícil decidir. Em um teste rápido, gostei da nêspera, da mexerica, da carambola...
Há ainda um outro atrativo muito especial no local: um agradabilíssimo boteco dentro da casa, todo em madeira, charmoso e aconchegante, com grandes janelas de vidro que dão para o quintal cheio de hortênsias.
Esse boteco é o lugar perfeito para tomar um refrigerante ou uma cerveja e provar os embutidos de lombo de javali, calabresa e picanha ao alho trazidos diretamente de uma fazenda na região de Jarinu.

Enquanto isso, você pode ir provando mais algumas cachaças, pedindo para o Tadeu preparar as garrafinhas que, sem dúvida, você levará e ir ouvindo as saborosas histórias do Sr. Ernesto.
Com grande prazer ele observa como a cultura da cachaça não vem dos livros, mas do povo, dos mais simples aos mais requintados, passando de geração a geração.
Uma frase ouvida de longe, vinda de um grupinho de clientes, proporciona um enorme sorriso em seu rosto. Ele confessa ouvi-la sempre e que essa é uma das suas grandes alegrias. É a prova de que alcançou seu objetivo.
Com o copinho na mão e provando uma nova pinga, a garota não se cansa de repetir: “meu pai precisa conhecer esse lugar...”


A Bodega – Estrada do Machadinho, km 5 
Santo Antonio do Pinhal / SP.
Tel: (12) 3666-1326.
Horário: Sábados, Domingos e Feriados das 10h às 16h.