Eu sou do tempo em que os garotos sonhavam em ser como o Menino do Rio e não como o Bill Gates. Todos queriam ser Juba ou Lula, da Armação Ilimitada, ou o saudoso Pepê, campeão de vôo livre, e não um rico banqueiro ou um poderoso político.
A idéia era ter uma casinha na areia e viver a vida sobre as ondas, surfando, voando de asa delta e pilotando por trilhas desconhecidas, bem longe dos shopping centers, da segurança dos condomínios e das parafernálias eletrônicas modernas. O plano era mergulhar no mundo fisicamente e não virtualmente.
Provavelmente por isso, um dos meus lugares mais queridos nesse mundão sempre foi o morro do Voturuá, na divisa entre Santos e São Vicente, de onde se avista grande parte do litoral, além de uma imensidão de céu e mar que parece não ter fim. Um cenário tão difícil de descrever que fica mais fácil apelar para as fotos do Leandro (www.leandrogomesfoto.com).
É deste lugar que partem as asas e os paragliders que enchem o céu da cidade e que tornam irresistível a tentação de aprender a voar sozinho ou pelo menos pegar uma caroninha num vôo duplo. Ali, curti voar com o Alê, ir ao luau do Baratta com a Marcela, fazer amigos como o Capiau e o Ramon e passar infinitas horas sentado sozinho, curtindo o silêncio e admirando a incansável paisagem.
Mas ainda faltava alguma coisa ali. Tudo bem que a dificuldade do acesso e a total falta de infra-estrutura davam um charme a mais ao local e impossibilitava que a rampa ficasse muito cheia de gente, mas ela impedia uma permanência maior e mais confortável, o acesso sem carro e o vôo de quem não tivesse uma carona.
A primeira mudança veio há 9 anos, com a inauguração do teleférico que liga a praia do Itararé ao topo do morro, bem ao lado da rampa. O agradável passeio leva pouco mais de 10 minutos para percorrer 560 metros de distância e subir os 170 de altura, passando bem perto da mata que cobre a encosta do morro.
A segunda, veio com uma grande reforma no topo do morro, que cercou áreas perigosas, aumentou o calçamento, instalou bancos e delimitou a rampa de vôo livre para que amigos e turistas não atrapalhem os pilotos.
Por fim, veio, há um ano e meio, a inauguração do “Ao Mirante”, restaurante com jeitão de boteco, especializado em peixes e frutos do mar. Ele preencheu um vazio que ali havia e que era eventualmente preenchido por fracas lanchonetes e barracas que nunca duravam muito tempo. E veio para ficar.
Confesso que nunca provei os pratos, mas a visão deles – muito bonitos e fartos – é tentadora. Por questão de gosto, prefiro ficar nos petiscos, que são muitos. A coisa vai desde as básicas batatas, mandiocas, frangos e bolinhos até as especialidades do mar, como lula, camarão, iscas e caranguejos, passando por porções inesperadas como shimeji e alheiras. Para acompanhar, cervejas, sucos e a bebidas clássicas, além de uma grande e também surpreendente variedade de coquetéis.
A partir daí a opção é sua. Eu vou escolher uma mesa, beliscar alguma coisa, tomar uma caipirinha, ver os paragliders subirem no céu, as asas mergulharem no ar, ver novamente a paisagem e exclamar pela milésima vez: como o mundo é bonito dali de cima!
“No começo, voar dá medo. É estranho ver que é suficiente o desejo de voar. Meu pesado corpo mais-leve-que-o-ar? Como se sustenta? E na hora de descer? E se eu me machucar? E a dor? Percebi que essas inseguranças são incompatíveis com o vôo. Não se pode voar pensando nisso. Não pense. Voe.
Voar serenamente, silenciosamente. Ver de longe as pessoas indo pra lá e para cá, observar o fluxo dos carros, conhecer os tetos das casas. Brinquedos esquecidos no fundo de uma piscina. Lá na frente, um parque de diversões com uma roda-gigante. Será possível ir tão alto? Sim, é possível, mas não é necessário. Não é necessário quebrar nenhum recorde de velocidade, altura, tempo. Só voar.
Acordei. Mas a sensação veio comigo: era preciso voar. Era preciso ser livre. E, com a consciência de um ser flutuante, serenar a liberdade. Continuar voando, mesmo de olhos abertos.” (Volponi)
Ao Mirante – Morro do Voturuá, s/nº - São Vicente/SP. Tel: 3468-0326.






Já estivemos nesse bar, tirei fotos... mas não publiquei sobre....
ResponderExcluirAdorei o post.. Parabéns!
Cia dos Botecos - www.ciadosbotecos.com
Opa! Olha eu aí! Que saudade deste céu, deste mar, dessa gente feliz...
ResponderExcluirBeijão de SanFran!
***Céu***
Belo Post!
ResponderExcluirA qualquer momento estarei decolando daí... breve.