Em Portugal, há um antigo bordão que diz: “no dia de São Martinho, vai à adega e prova o vinho”.
Fui fuçar a história de São Martinho e descobri que ele nunca teve nada a ver com o vinho. O que ocorre é que nas terras lusas os vinhos começam a ser produzidos entre setembro e outubro e o dia de São Martinho – 11 de novembro – fica no período no qual já se deve começar a verificar o resultado da produção.
Como essa história toda parece não ter lá muito sentido e menos sentido ainda teria você esperar até novembro para tomar vinho, vá assim que puder conhecer a Adega Gaúcho, que fica bem no meio da cidade e é um lugar, no mínimo, inesperado.
Posso dizer que, à primeira vista, mesmo se eu passasse diariamente na porta, é provável que eu nunca entrasse. Entrei por recomendação da Elaine e do Creso, que freqüentam a casa há muito tempo e sempre contam maravilhas sobre ela.
Aí descobri que a adega foi criada há 33 anos no bairro da Bela Vista pelo Sr. Álvaro Renato e seu cunhado, cuja parte foi comprada pelo então sócio após a sua morte.
Como bom gaúcho, o Sr. Álvaro sempre foi um apreciador de vinhos e um grande conhecedor dos produtos da região. E na sua adega, sempre deu prioridade aos produtos da sua terra.
A Adega Gaúcho nasceu, cresceu e viveu como adega mesmo mas, por insistência da clientela que se amontoava em volta do balcão, em 2001 ela ganhou algumas mesas feitas com os próprios barris de vinho e umas banquetas de madeira. O curioso é que o Sr. Álvaro lembra da data exata por causa do ataque às torres gêmeas!
Freqüentada pelos antigos moradores do Bexiga, pelos universitários da região, por senhores engravatados de outros cantos da cidade e pelos grupos mais improváveis (como o pessoal do “Vermes de Jacob”, um motoclube de roqueiros evangélicos!), a casa conquista pela simplicidade – coisa rara em lugares especializados em vinho, que tendem a ser... digamos, um tanto esnobes.
Evitando as marcas importadas e caras, o Sr. Álvaro oferece ali cerca de 30 a 40 vinhos, todos nacionais, de diversos tipos e produtores diferentes.
Mas a estrela mesmo é o vinho da casa, mais barato, porém muito gostoso. Ele é produzido em Caxias do Sul e trazido nos próprios barris, sendo vendido em taças, jarras ou mesmo envasados para viagem. É ele que é largamente consumido por todos, normalmente acompanhado de um queijo, de um salame e de muitas, muitas histórias.
Uma delas quem me conta é o Paulo Pedroso, antigo freqüentador, que relata o dia em que um dos clientes passou por lá no final do trabalho e, cansado, acabou exagerando no vinho e dormiu no balcão. Ao acordar, começou a tirar a roupa enquanto todos observavam atônitos. Quando começou a desabotoar a calça alguém deu um grito e ele se assustou, explicando-se imediatamente: “Pensei que já estava em casa...”
Entre tantas histórias, aproveite tudo com moderação, mas aproveite. Afinal, como nos lembra o escritor Fernando Sabino, “Cristo não consagrou a água, o leite ou a coca-cola. Consagrou o pão e o vinho, como alimentos do corpo e do espírito”.
Adega Gaúcho – R. Humaitá 291 – Bela Vista / São Paulo. Tel: 3112-0613. Horário: Segunda a Sexta das 8h às 22h; Sábado das 8h às 20h.
Na saideira, ainda me contam a história do mineirinho em uma degustação de vinhos, que é mais ou menos assim:
- Hummm...
- Hummm... - Eca!!!
- Eca?! Quem falou Eca?
- Fui eu, sô! O senhor num acha que esse vinho tá com um gostim estranho?
- Que é isso?! Ele lembra frutas secas adamascadas, com leve toque de trufas brancas, revelando um retrogosto persistente, mas sutil, que enevoa as papilas e lembranças tropicais atávicas...
- Puta que pariu sô! E o senhor cheirou isso tudo aí no copo?!
- Claro! Sou um enólogo laureado. E o senhor?
- Se besta, eu não! Sou isso não senhor!! Mas que isso aqui ta me cheirando iguarzinho à minha egüinha Gertrudes depois da chuva, isso tá!
- Ai, que heresia! Valei-me São Mouton Rothschild!
- O senhor me desculpe, mas eu vi o senhor sacudindo o copo e enfiando o narigão lá dentro. O senhor está gripado, é?
- Não, meu amigo, são técnicas internacionais de degustação entende? Caso queira, posso ser seu mestre na arte enológica. O senhor aprenderá como segurar a garrafa, sacar a rolha, escolher a taça, deitar o vinho e, então...
- E intão moiá o biscoito, né? Tô fora, seu frutinha adamascada!
- O querido não entendeu. O que eu quero é introduzi-lo no...
- Mais num vai introduzi mais é nunca! Desafasta, coisa ruim!
- Calma! O senhor precisa conhecer nosso grupo de degustação. Hoje, por exemplo, vamos apreciar uns franceses jovens...
- Hã-hã... Eu sabia que tinha francês nessa história lazarenta...
- O senhor poderia começar com um Beaujolais!
- Num beijo lê, nem beijo lá! Eu sô é home, safardana!
- Então, que tal um mais encorpado?
- Óia lá, ocê tá brincano com fogo...
- Ou, então, um suave fresco!
- Seu moço, tome tento, que a minha mão já está coçando, de vontade de meter um tapa na sua cara desavergonhada!
- Já sei: iniciemos com um brut, curto e duro. O senhor vai gostar!
- Num vô não, fio de um cão! Mas num vô, memo! Num é questão de tamanho e firmeza, não, seu fióte de brabuleta. Meu negócio é outro...
- Então, vejamos, que tal um aveludado e escorregadio?
- E que tal a mão no pédovido, hein, seu fióte de Belzebu?
- Pra que esse nervosismo todo? Já sei, o senhor prefere um duro e macio, acertei?
- Eu é qui vô acertá um tapão nas suas venta, cão sarnento! Engulidô de rôia!
- Mole e redondo, com bouquet forte?
- Agora, ocê pulô o corguim! E é um... e é dois... e é treis! Num corre, não, fiodaputa! Vorta aqui que eu te arrebento, sua bicha fedorenta!...


Oi! Sou o dono da comunidade Guia Buracos. Queria agradecer por sempre compartilhar conosco suas impressões e sugestões. Coloquei um link para seu blog no meu. Passarei por aqui sempre que possível. Quanto ao tema do post, vinho nunca foi muito a minha praia. Então, acho que não consigo fazer comentários pertinentes.
ResponderExcluirEita rapaz pinguço sô! oi Pedro, perdoe a brincadeirinha, que tal visitar uns lugares de comidinhas deliciosas também? Pensei nisso porque gosto de ler seus textos sobre bebidas e seu lugarzinho, imagina de lugarzinho de comidinhas...
ResponderExcluirBoa, Yara. Estou preparando uma boa sequência de docinhos e sorvetes para depois do Carnaval.
ResponderExcluirMakopto, valeu a força. Abraço.