sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Madhu (Consolação - São Paulo)



Pode existir alguma coisa mais esquisita que um fast-food indiano na rua Augusta? E mesmo que as intenções de nosso blog sempre sejam a de fugir de tudo que lembre um fast-food, eu tinha que falar de lá. Por quê? Simples: porque é muito bom.




Na verdade, de fast-food o Madhu só tem a aparência e o esquema de trabalho, além de um pouco da rapidez. Como nas lanchonetes, as opções são oferecidas em 12 opções de combos que incluem o prato principal e os acompanhamentos que você escolhe em um cardápio muito detalhado e pacientemente explicado pela simpática Joselane. Metade deles leva frango ou carne e a outra metade é vegetariana. Também como nas lanchonetes, paga-se antes, busca-se o prato em bandejas de plástico e o leva para uma mesinha simples. E as semelhanças terminam aí. 


O Madhu, cujo nome indiano significa Néctar, é uma invenção de seis sócios que, saudosos da culinária do sul da Índia, resolveram montar, em São Paulo, um restaurante especializado nos produtos daquela região que fosse discreto, prático, bom e barato. 

Ao contrário da maioria dos restaurantes indianos na cidade, que investem alto na decoração ostensiva, no serviço cheio de pomposos clichês e, conseqüentemente, em preços altíssimos e injustificáveis, o Madhu se preocupa mesmo é com a comida. 


Da cozinha comandada por Gopal Pandaram saem pratos simples, mas muito bem elaborados, como o beef madhu - tirinhas de carne temperadas com cebola, garam masala (mix de especiarias), açafrão e coentro em pó, acompanhados de mezhukupuratti (cubos de batata cozida e temperada), snacks cutlet (um tipo de croquete de carne com hortelã) ou salada thoram, servida quente, à base de repolho e leite de coco – ou o chicken biryani, porção de arroz com especiarias, pedaços de frango e castanhas-de-caju, mais uma de duas opções de guarnição: snack vada (composto de quatro bolinhos de lentilha, fritos e bem sequinhos, que lembram bastante o faláfel) ou a salada raita, que mescla tomate, cebola, hortelã e iogurte – além de muitas opções vegetarianas, como os Dosas – um grande crepe recheado com batata condimentada ou com queijo. 

Na parte líquida, além de refirgerantes e cervejas, é possível provar bebidas típicas como os lassis gelados (feitos com iogurtes, frutas e condimentos), chai (chá preto com leite e condimentos). Na sobremesa, mais sabores exóticos, como o Gulab Jamun – bolinhas de trigo e leite fritas e depois assadas em calda de rapadura. Tudo feito artesanalmente, simples, saboroso e saudável – e, creia, aprender os nomes não é tão difícil assim.


O site da casa ensina que a culinária indiana ensina que o ato de comer deve ser um processo consciente que proporcione a integração do ser como um todo. Na Índia se come com as mãos, pois na medicina Ayurvédica a digestão não começa na boca, mas nas pontas dos dedos, quando a energia sutil dos alimentos entra em harmonia com a nossa própria energia. 

Para os indianos, sabores equilibrados geram sentimentos equilibrados, o que explica o uso de uma infinidade de especiarias (aquelas que os portugueses cruzavam o mundo para ir buscar, quando acertavam o caminho), que têm também a função de facilitar a digestão e combater bactérias e outros males. 





E o grande barato de viver em São Paulo é poder observar coisas assim, vendo todas as etnias, todas as religiões e todas as exóticas tribos da Augusta juntas num pedacinho de mundo, curtindo um cinema de arte, fazendo compras tanto nas galerias quanto nos camelôs, devorando as coxinhas do boteco da esquina e – por que não? – provando uma ótima comida indiana em um fast-food. Globalização é isso aí.




Madhu – Rua Augusta, 1422. Tel: 3262-5535. Horário: Segunda a Quarta das 12h às 22h30, Quinta das 12h às 23h30, Sexta das 12h à 0h, Sábado das 13h à 1h e Domingo das 13h às 22h30.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Dita Cabrita (Pompéia - São Paulo)


Quando eu tinha menos de um ano de idade eu morei na avenida Pompéia. É claro que eu não lembro de nada, mas alguma coisa deve ter ficado, porque tudo ali me traz uma agradável sensação de tranqüilidade e aconchego. 
Mas meus amigos dizem que isso não passa de frescura, pois eles nunca moraram nem perto da Pompéia e sentem exatamente a mesma coisa. Ou seja, o bairro é assim para todo mundo.
De um modo ou de outro, no meio de todos aqueles sobrados, das ruas de paralelepípedos e dos vizinhos que se conhecem, existe um lugarzinho ainda mais acolhedor que os outros: o Dita Cabrita.

O Dita Cabrita nasceu do sonho da Benedita, a Dita, de ter um lugar assim. O nome vem da lembrança da Dita, de uma brincadeira com a Benedita, que não era, nem tinha uma cabrita, mas queria ter.
O site da casa desenrola melhor esta história: quando criança, Benedita de Souza, conhecida como Dita, já ajudava seu pai no balcão de seu bar no Ipiranga. Um dos amigos que freqüentavam a casa sempre brincava com ela, dizendo “Ei, Dita, vou te comprar uma cabrita”. A brincadeira se estendeu por anos e a cabrita não veio, mas ficou na cabeça da Dita.

Então, quando abriu seu bar na Pompéia, sua intenção primeira era fazer um lugar agradável, onde as pessoas pudessem comer e beber bem, mas sem frescuras. Um lugar tranqüilo e arborizado, com jeito de quintal de casa, para receber os amigos, mas ainda com cara de São Paulo.


E conseguiu. Seu bar é, antes de tudo, um quintal. Só que, cercado de bambus, com coberturas discretas e delicadas, guarda-sóis, diversos móveis rústicos trazidos de minas, iluminação cuidadosamente feita com luzes indiretas e velas, várias bananeiras e uma grande jabuticabeira, é provavelmente o quintal mais charmoso do bairro.
As simpáticas mesas de madeira se espalham pelo meio das plantas, pela pequena edificação ao lado da entrada – que abriga uma agradável sala com sofás e outros móveis, além do banheiro – e pela a casinha dos fundos, que acolhe a cozinha e o controle da casa.

Como o público é bem variado, tendendo para as famílias, o cardápio é variadíssimo. Tem um pouco de tudo, desde pratos como a anchova ou a truta grelhada com amêndoas, até espetinhos como os de picanha, queijo coalho, abobrinha, kafta e muitos outros, passando por porções como a de mini-acarajés ou as batatas à milanesa com provolone e bacon, por chopes diferentes e por caipirinhas como a verde-amarela, que leva vodca, limão-rosa, lima-da-pérsia, kiwi e maracujá e a bananeira, com tangerina, gengibre, hortelã e cachaça com aroma de banana.
Contudo, parece que a estrela da casa é mesmo a porção de bolinhos que leva o nome da casa, feitos com massa de polenta, recheado com carne de cabrito e servido acompanhado de molho de hortelã.

Por fim, de tudo que foi dito ou redito sobre o Dita, o que eu não disse diretamente é porque não adianta dizer: é preciso ir até lá e ver ao vivo. O que você vai encontrar? Sem dúvida, uma lugar com jeito de casa de amigos, bom para papear e curtir a vida com alegria e tranquilidade. Um lugarzinho com a cara da Pompéia.



Dita Cabrita - Rua Barão do Bananal, 961 - Pompéia. Tel: 3868-2463. Horário: Terça a Sexta das 17h30 à 0h, Sábado das 12h à 0h e Domingo das 12h às 17h30.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Casa Godinho (Centro - São Paulo)


O paulistano é um sujeito muito mal acostumado. Ele estuda nas melhores universidades, veste roupas das melhores grifes européias, anda de carro importado e, principalmente, come pratos elaborados pelos mais cultuados chefs de cozinha do país.
E quando o assunto se refere aos queijos, pastas, vinhos, cervejas e petiscos que abastecem sua geladeira e despensa, o nível de exigência passa dos limites. Para sobreviver nesse ramo de comércio é preciso ser bom, muito bom. Para ser referência no assunto durante 123 anos é preciso mais que isso. É preciso ser excelente.

Corria o ano de 1888. Jack Estripador apavorava a Inglaterra enquanto no Brasil as notícias boas se sucediam. No Rio, a princesa Isabel assinava a Lei que punha fim à maior vergonha de nossa história. Perto dali (será que para comemorar?), o suíço Joseph Villiger criava a Brahma. Em São Paulo, iniciava-se a construção do Viaduto do Chá. A poucos metros dele, o português José Maria Godinho inaugurava, com seu nome, a melhor casa de secos e molhados da cidade.

A Casa Godinho foi fundada na Praça da Sé – coração de uma cidade emergente que contava então com 50 mil habitantes – com o intuito de atender um público já carente de produtos de qualidade, e lá permaneceu até 1924, quando, com a inauguração do primeiro arranha-céu da cidade – o edifício Sampaio Moreira – mudou-se para lá, onde permanece, firme, forte e lotada, até hoje.

Os donos, é claro, mudaram um pouco. De José Maria, a casa passou aos portugueses Luís Gonçalves da Costa e Casemiro Soares Leite, que mantiveram as características originais e a selecionada clientela, da qual sempre fizeram parte os principais nomes da sociedade paulistana, como o governador Adhemar de Barros, o presidente Jânio Quadros, o empresário José Ermírio de Moraes e o magnata da imprensa Assis Chateaubriand.

Deste último, o jornalista Fernando Morais conta um calote histórico em seu livro “Chatô, o rei do Brasil”. Diz ele que o escritor Rubem Braga foi escalado por Chateaubriand para fazer uma série de reportagens sobre um condomínio pertencente ao dono da Casa Godinho na época. O que o velho Braga não sabia é que tais reportagens eram a paga de uma aventura na qual o empresário encostou um caminhão do jornal na porta da loja, mandou encher de caixas de champagne e entregar na casa de uma mulher. E não pagou.

O problema foi que, mesmo com a casa mantendo-se fiel a seus princípios de qualidade, a cidade mudou, e o outrora luxuoso centro paulistano entrou em declínio, tornando-se degradado e espantou sua clientela para novos bairros emergentes.

Os produtos importados passaram a ser procurados longe dali e a loja passou a precisar de mais fôlego e investimentos. Foi assim que, pouco depois do centenário da casa, Miguel Romano tornou-se sócio.

Romano é engenheiro químico e cresceu dentro da casa lotérica de seu pai, Giuseppe, que ficava a poucos metros da Godinho. Depois de adulto chegou a arriscar-se em alguns projetos na área da gastronomia, mas seu sonho sempre apontava para aquele empório.

A sociedade, que incluía então 4 pessoas, começou a ruir com a crise que só fazia crescer, até que em 2000 restavam apenas Miguel e Casemiro. A proximidade da falência era tamanha que Miguel quis vender sua parte, mas Casemiro ofereceu um valor tão baixo que ele devolveu a proposta, oferecendo o mesmo valor pela parte do sócio. Casemiro aceitou.

Único dono então de todas as maravilhas da loja, mas também de todos os problemas que a cercavam naquele momento, Miguel Romano sabia que era preciso inovar. Mas como mudar uma casa que mantém o mesmo piso e as mesmas prateleiras e balcões de imbuia intactos há mais de um século, e cujo maior apelo é justamente sua tradição?

Foi então que ele montou ali dentro, em 2001, uma pequena rotisseria, com um balcão de vidro cuidadosamente elaborado para não contrastar com os ares clássicos da loja. Nessa estilosa vitrine surgiram, de uma hora para outra, pães diversos, doces e, principalmente, as melhores empadinhas de São Paulo.



A empada da Godinho é difícil de descrever, mas vou tentar. Ela é feita com a verdadeira massa podre, daquelas que desmancham na boca, e não no colo da gente. O recheio de várias delas inclui molho bechamel, o que o mantém mole e cremoso. As mais pedidas, até para seguir a tradição da casa, são as de bacalhau, mas tem de camarão, de frango, de palmito, de lingüiça Blumenau e até de alheira portuguesa. Nova sensação da casa, ela é responsável direta pela agitação que toma a casa na hora do almoço e nos finais de tarde.

Hoje a Casa Godinho revive seus melhores dias, mas como em time que está ganhando também se mexe e se aprimora, Miguel Romano presenteou a cidade com mais algumas novidades.

Primeiro, para proporcionar aos clientes mais uma viagem no tempo, instalou na loja um antigo relógio de estação e um vitral feito pelo jovem vitralista Fábio Fonseca, responsável pela restauração dos vitrais do Colégio de São Bento. Uma ótima combinação para um prédio que acaba de ser tombado e cujo próximo morador, além apenas da Godinho, será a Secretaria Municipal de Cultura.

Depois, inaugurou a banca Godinho dentro do Mercado Municipal, levando suas maravilhas a um público cada vez maior e mais exigente. Porém, a banca do Mercado oferece apenas a parte de rotisserie. É na velha loja da Líbero Badaró que você encontrará as grandes e tradicionais atrações da casa.


Se você tem uma família grande, aproveite para fazer uma pesquisa entre todas as gerações. Pergunte à sua irmã, ao seu pai, à sua avó, bisavô e tataravô, qual o melhor lugar da cidade para encontrar um mar de frutas secas, conservas de todos os tipos, alheiras, queijos inimagináveis, embutidos pra lá de diferenciados (como o presunto Pata Negra, que custa 400 reais o quilo), torta seca de amêndoas e tâmaras, compota mineira de manga, extrato de raiz forte e, principalmente, o legítimo bacalhau norueguês Cód Gadus Morhua, (cujas vendas são de aproximadamente 12 toneladas por ano). É provável que todos respondam a mesma coisa: na Casa Godinho.



Casa Godinho – Rua Líbero Badaró, 340. Tel: 3104-1520. Horário: Segunda a Sexta das 7h às 19h e Sábado das 8h às 14h.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Fazendinha Butantã (Butantã – São Paulo)



Eu não sei se com você acontece o mesmo, mas de vez em quando me dá uma vontade louca de fugir da cidade para o meio do mato. O problema é que, mesmo a vontade sendo forte, a disposição em obedecer-lhe é sempre muito fraca.
Para que isso não se torne um dilema, recorro a alguns lugares escondidos em São Paulo onde é possível passar algumas horas se sentindo – realmente – numa fazenda.

Não por acaso, um desses lugares chama-se Fazendinha Butantã, um pequeno oásis incrustado num dos lugares mais movimentados do mundo: a avenida Corifeu de Azevedo Marques, no miolo do Butantã.
Sabe aquela história de que para chegar ao Paraíso tem que passar pelo Purgatório? Pois é. Para chegar até o Fazendinha, você tem que passar pela Corifeu, não tem jeito. Mas aí você logo entra numa ruazinha discreta e, em menos de meio quarteirão, você já chega ao seu destino.

O discreto portão funciona como um portal daqueles de filme, transportando você para um universo paralelo. Do lado de lá há uma chácara silenciosa, com uma casa reformada como um amplo e aberto galpão de fazenda, um quintal repleto de árvores e até um galinheiro. O final do terreno dá para os fundos do Instituto Butantã e para a USP, o que explica tamanha vegetação e tranquilidade.
No meio disso tudo, uma cozinha com um fogão à lenha que funciona à vista de todos e um restaurante bem simples, com mesas de plástico, toalhas de papel e um clima bem interiorano, cujos responsáveis são a Gê, uma senhora mineira com grande talento para o fogão (redundância?)  e o Arthur, seu marido, ex-funcionário de uma multinacional e apaixonado por motocicletas.


Foi nas reuniões caseiras com amigos, colegas de trabalhos e parentes que Gê começou a servir sua feijoada. Como a coisa fez sucesso, tornou-se semanal e aos poucos foi aceitando encomendas e abrindo para outros convidados, enquanto Arthur se virava fazendo as vezes de garçom.




Durante um bom tempo, o único ajudante que tiveram no restaurante foi do filho Luiz Arthur Cané, hoje um famoso lutador do MMA, também conhecido como “Banha”. Durante muito tempo ele alternou horas de trabalho no Fazendinha com outras de treinos de jiu-jitsu na academia de Ryan Gracie e de Muay Thai com a equipe Gibi Thai/Pamplona, dos lutadores Moisés Gibi e Eduardo Pamplona.



Mas não demorou para o sucesso se espalhar e a coisa crescer. As instalações tiveram que ser ampliadas. O Artur teve que deixar o emprego para doar mais tempo à nova empreitada, e Gê agora só supervisiona os funcionários de sua cozinha. Tudo com muito cuidado para não estragar o clima de “almoço de amigos no quintal de casa”.
A feijoada, servida às quartas e sábados, continua sendo a estrela da casa, mas há outras alternativas, com destaque para o nhoque de mandioca e a bela costelinha ao molho de ervas, servidos aos domingos. Completando o clima, um alegre grupo de chorinho alegra as tardes dos freqüentadores.



Se a sua idéia é fugir da confusão metropolitana por apenas algumas horas, este é o lugar. Cuide apenas de definir bem seus horários e objetivos gastronômicos, pois o almoço acaba mais cedo que o normal da cidade e aí a casa fecha, reabrindo mais tarde como pizzaria. O que pode ser ainda mais interessante, afinal, quantas vezes você já comeu pizza na roça?


Fazendinha Butantã - Rua Barroso Neto, 200. Tel: 3727-1052. Funcionamento: segunda: 11h30 às 15h, terça a sexta das 11h30 às 15h e das 17h30 às 23h30, sábado das 12h às 16h e das 17h30 às 24h, domingo das 12h às 16h e 18h às 22h.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Benjamim Botequim (Campo Belo - São Paulo)



Alguns lugarzinhos parecem mais “amigos” do que outros. Não se trata de conhecer as pessoas, nem da decoração, nem de pequenos truques para deixar o lugar mais agradável ou aconchegante. É alguma coisa no clima, no jeito, na ginga, que te fazem ter a certeza de que você vai gostar dali mesmo antes de botar os pés lá dentro.

O Benjamim é um lugar assim. Você olha de fora e o acha bacana, mas parecidíssimo com centenas de botecos também bacanas que entopem a cidade, mas há algo que atrai, difícil de identificar. Então você se aproxima, escolhe uma mesa, pega o cardápio e começa a observar para tentar decifrar o mistério.
A primeira coisa que você repara é que todo mundo ali está feliz. Não é aquela euforia e gritaria de alguns bares, nem o agito da paquera, nem as comemorações das turmas, nem o clima romântico dos casaizinhos. Mas há uma pitada de tudo isso temperando a tranqüila felicidade estampada em um público pra lá de variado.

Ao meu lado, o jovem casal parece estar em início de namoro e belisca uma bela tábua de frios, mas sua felicidade não parece maior que a do outro casal, que está algumas mesas adiante, já beirando os 50, e que ataca um farto frango à passarinho.
A grande mesa de amigos do lado de fora parece comemorar o final do expediente com uma longa, gelada e interminável seqüência de cervejas, acompanhadas de várias porções de deliciosos pastéis. Sua empolgação é bem parecida com a dos dois colegas que tomam chopp enquanto observam o grupo de garotas que acaba de pedir mais alguns drinks clássicos da casa.
A mesma alegria pode ser notada nas outras turmas, nos casais, amigos, famílias, jovens, idosos, homens e mulheres que freqüentam a aconchegante casa.

Aconchego parece ser mesmo a palavra de ordem no Benjamim. Há uma familiaridade, uma cumplicidade entre os clientes, a vizinhança, os funcionários e os donos da casa, que a gente percebe no ar. A impressão é que todos são velhos amigos.
Duas coisas incomuns de se ver por aí reforçam essa impressão. A primeira é o fato de a casa oferecer mantas aquecidas aos freqüentadores nos dias frios – delicadeza que reforça a sensação acolhedora do lugar. A outra, que atesta a simpatia da vizinhança, é que suas deliciosas empadinhas são produzidas, na verdade, no forno da Dona Lúcia, septuagenária vizinha do lado.

Do extenso cardápio, a clientela parece clamar por “fulano”, “beltrano”, “cicrano” ou por “qualquer coisa”, nomes dados aos fartos escondidinhos de carne seca, acompanhados respectivamente por cremes de mandioca, mandioquinha, abóbora e batata.
Clama também pela feijoada light servida aos sábados. As panelas de barro servem separadamente arroz branco, feijão preto, costela, lombo, carne seca, paio e lingüiça portuguesa, além dos molhos caseiros, com uma mistura de pimentas comari, malagueta, dedo-de-moça e outras.  Entre os secos, lingüiça e costela fritas, bisteca, torresminho, mandioca, farofa, couve e laranja. O caldinho de feijão e a batidinha de limão também estão incluídos.

Mas a paixão da casa parece ser mesmo as caipirinhas. Tem coisas como caju, lichia, mexerica, jabuticaba, limão com gengibre, morango com canela, maracujá com pimenta vermelha e carambola com manjericão. Mas a campeã de pedidos é mesmo a Benjamim, que leva vodka, abacaxi, maracujá, uva, kiwi e amora que, além de gostosa, é provavelmente a mais bonita que eu já vi.

Será que o fato de o lugar, o público, os comes e os bebes serem tão bons bastam para explicar tal felicidade? Acho que ainda não. Tem mais algum mistério que ainda não consegui descobrir. Quem sabe daqui a umas 15 ou 20 visitas ao local? O fato é que, por uma razão ou outra, existe, na esquina das ruas Vieira de Morais e João Álvares Soares (antiga Benjamim Constant, daí seu nome) um lugarzinho especial e feliz.


Benjamim Botequim – Rua Vieira de Moraes, 1.034 – Campo Belo. Tel: 5542-6196.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Cantina Gigio (Brás – São Paulo)



“O barbeiro Tranquillo Zampinetti da Rua do Gasômetro nº 224-B entre um cabelo e uma barba lia sempre os comunicados de Guerra do Fanfulla. Muitas vezes em voz alta até. De puro entusiasmo: La fulminante investita dei nostri bravi bersaglieri ha ridotto le posizione nemiche in un vero amazzo di rovine...” (A. Machado)



Zampinetti é personagem do livro “Brás, Bexiga e Barra Funda”, de Alcântara Machado e, não por acaso, era quase vizinho do imóvel que décadas depois viria a ser a Cantina Giggio.
Na obra, que conta casos dos três bairros mais “italianos” de São Paulo, o autor defende a tese de que alguns imigrantes, principalmente o italiano, trazem em si a alegria, o canto e a movimentação. Ao pisarem o solo brasileiro, carregavam a força do trabalho e a vontade de se saírem bem na nova terra. Ao se adaptarem, misturavam-se de forma espontânea, a ponto de se confundirem com a paisagem.



Um desses imigrantes foi o sr. Luigi Salvel, mais conhecido como Gigio, característico apelido italiano para os Luigi. Ele criou, com a ajuda de um amigo também italiano, a cantina que leva seu nome. Ela foi inaugurada em 1967, porém em Perdizes, região que, na época, não fazia parte do roteiro gastronômico da cidade.
Pouco depois, há exatos 40 anos, em 16 de agosto de 1971, a cantina Gigio foi inaugurada em sua atual sede, na rua do Gasômetro, então repleta de cantinas, com uma festa bem característica: com muita alegria, comemorações e, claro, muita comida.

A Gigio é uma das últimas remanescentes do outrora romântico, mas ainda legendário bairro do Brás. Ela retrata fielmente o ambiente das cantinas de São Paulo, com fotos antigas da capital e com massas e pratos típicos, servidos em porções gigantescas, fartamente acompanhados pelos molhos e acompanhamentos da casa.
A lista de opções é imensa: capellini, capeletti, fettuccine, fusilli, gnocchi, linguini, penne, ravióli, richitele, spaghetti, tagliarini etc, acompanhados pelos molhos branco, ao sugo, à bolonhesa, parisiense, arrabbiata, carbonara, calabrese, frascatana, italiana, marinara, papalina, pescatore, pollo, puttanesca, romanesca, Dom Pepe e muitos outros. E isso para ficar só nas massas e não falar nas vitelas, cabritos, frangos, frutos do mar...

Todos os pratos servem facilmente 3 pessoas, principalmente se antes deles você escolher algumas “entradas” que, ao contrário da maioria das casas, é oferecida por peso, em uma mesa tipo buffet onde você encontra maravilhas como o pão de lingüiça e os diversos tipos de queijos e frios.

Tudo, tanto as massas quanto os molhos, é feito lá mesmo, seguindo as receitas das “nonas”, com todo o cuidado na escolha dos ingredientes frescos e a dedicação no cuidado de cada prato.
É fácil observar no sorriso de cada cliente a satisfação, e também perceber como a alegria dos italianos é transferida para a sua culinária. Ou será que é a própria comida que gera tanta alegria?

Há mais de duas décadas a Cantina Gigio tem, além da sede do Brás, uma filial em Pinheiros. E ambas são comandadas pela mesma família, sob os olhos atentos de Vinícius e Vitor Manuel Braz. Junto com eles, a amabilidade de um atendimento absolutamente pessoal, as boas opções de bebidas, a fartura e o carinho da confecção dos pratos, os bons preços e a barulhenta movimentação dos clientes trazem a certeza: você está numa legítima cantina italiana.


Cantina Gigio – Rua do Gasômetro, 254. Tel: 3228-2045

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Patuá (Bela Vista - São Paulo)



“Nem tudo está perdido. Algumas coisas ainda nem foram achadas” (Millôr Fernandes)
São Paulo é uma cidade cheia de caprichos e preciosidades escondidas por aí. São lugarzinhos que pouca gente conhece e que pretendem continuar assim, pois é a única forma possível de manter seus encantos, seu atendimento tão pessoal e agradável.

Um desses lugares é o Patuá, que não é um restaurante nem um bar, mas sim a casa da Sra. Hélia Januária Bispo, mais conhecida por todos como Bá, uma simpatissíssima baiana que recebe a todos com os braços abertos, um turbante na cabeça e um inabalável e encantador sorriso no rosto. Ela é a anfitriã, a cozinheira e a amiga que você acabou de ganhar.
Hélia nasceu em Amargosa, cidadezinha vizinha a Salvador, e lá foi escolhida pela avó para aprender a arte do acarajé. A forma de se fazer acarajé é tradicionalmente passada de mãe para filha, mas no seu caso, foi de avó para neta, mesmo.

O acarajé é considerado, pelo candomblé, um alimento sagrado oferecido aos Orixás. Tem ainda sua importância histórica na cultura da Bahia, a ponto do ofício de “baiana do acarajé” ser considerado patrimônio cultural brasileiro.
E é claro que a menina Hélia custou a entender a importância de seu ofício, como você fica sabendo através das deliciosas histórias que ela conta com toda paciência e graça, revelando incríveis travessuras infantis e as consequentes broncas levadas, como na vez em que, aos 14 anos de idade, largou o tabuleiro na rua para seguir atrás do trio elétrico.

Crescida, experiente no ofício e buscando mudanças em sua vida, Bá desembarcou em São Paulo em 1989, e montou sua barraca de acarajé na rua 13 de Maio, no tradicionalmente italiano Bixiga. Ali, trabalhou por 12 anos e conquistou amigos e clientes fiéis.
Foi em 2001 que, com problemas para conseguir a licença para trabalhar na rua, ela mudou-se para uma casa do bairro e instalou no porão seu pequeno estabelecimento, freqüentado inicialmente pelos amigos, depois pelos amigos dos amigos e então pelos novos amigos que foi fazendo pela cidade.

Na frente do velho sobrado não há qualquer sinal de que ali funcione um restaurante. Após tocar a campainha e ser recebido pela própria Bá, você entra em sua casa, atravessa a sala, a cozinha e desce uma escada que leva a um charmoso quintal anexo ao porão de teto baixo e dividido em três ambientes, sendo dois com mesas à sua escolha e outro com almofadas espalhadas pelo chão.
Por todo lado, cores e mais cores, fotos, imagens de orixás e abadás do Ilê Ayê. Um espaço acolhedor, com objetos típicos, bordados e artesanatos, onde um delicioso e suave som de Dorival Caymmi e Gal Costa completa o clima de Bahia.
Cabe no máximo umas 15 pessoas, mas Bá evita essa “lotação”, para que possa receber cada um com atenção e carinho únicos. Por isso não divulga o endereço e para ir até lá é preciso ligar e agendar diretamente com ela, com uma certa antecedência.

Passadas essas etapas, é hora de finalmente atacar os acarajés. Eles são perfeitos e grandes, feitos de um modo que desmente qualquer fama de preguiça baiana, com a massa de feijão-fradinho batida exaustivamente e depois frita no azeite de dendê.
O restante do cardápio é narrado pela própria Bá, enquanto puxa um papo atrás do outro. E tudo é muito tentador. Mas é aí que você volta a lembrar do Millôr, que malandramente alerta que “o problema de resistir a uma tentação é que você nunca sabe quando terá outra chance”. E então segue em frente.

Tem a mandioca frita na manteiga de garrafa, o escondidinho de carne seca, o arrumadinho (um tipo de cuscuz meio seco misturado com carne-seca, queijo-coalho e feijão-fradinho), a sugestão da baiana (carne-de-sol com farofa e abóbora cozidas na manteiga de garrafa), bobó de camarão (com arroz e farofa de dendê com amendoim e castanha de caju) e um bocadinho mais.
Quase tudo foi aprendido em casa, prestando atenção e aperfeiçoando dia após dia. Quase tudo leva azeite de dendê, que deixa a casa com um típico perfume no ar. Quase tudo leva leite de coco, que Bá rala na hora. Quase tudo fica ótimo com a pimenta da casa, que é saborosa e forte, mas não daquelas que, como diz a anfitriã, “ardem até o juízo”. E tudo faz você se sentir em casa.

Bá era o apelido carinhosamente dado pelas crianças às suas amas de leite – mulheres, normalmente negras, que ajudavam com seu leite na amamentação dos bebês e que normalmente acabavam por se tornar um tipo de mães de criação daquelas crianças.
Hélia Januária Bispo ganhou seu apelido de um cliente que virou amigo e escreveu a ela uma carta de agradecimento, na qual a chamava pela primeira vez pelo nome que, emocionada, resolveu adotar. Ela não teve filhos, mas é a Bá de muitos sobrinhos e incontáveis amigos com quem compartilha, diariamente, todo o axé de seu Patuá.

Patuá – Tel: 3115-0513.